Deu certo

#crônicas #empreendedorismo #poesia #publicidade e propaganda
Seguindo a diversão
"Sócio-proprietário da BAG Propaganda há 38 anos, o egresso Igor Luchese não se contentou em atuar apenas com publicidade. Para ele, trabalhar em escritório é muito enfadonho. “Fiz um monte de coisas ao mesmo tempo” "
Bruna Lago



Nem todo mundo começa a jornada acadêmica sabendo exatamente por onde quer seguir a carreira. Na segunda metade dos anos 1970, o jovem Igor Luchese achava que iria ser arquiteto. No terceiro ano do curso, teve uma intuição: se matriculou em Comunicação Social na Unisinos. Ele ainda não sabia, mas seu futuro estaria fortemente ligado à publicidade. Igor caiu em uma turma com alunos que já estavam no final do curso. Descobriu que naquela profissão sua criatividade poderia ir além do que esperava. “Eu tinha o estereótipo de um estudante de 1977: rabo de cavalo, barba comprida e uma bolsa jeans”, lembra.

As fotografias foram reunidas pelos estudantes em reencontro, anos mais tarde (Imagem: Reprodução)


Na primeira aula, aprendeu a tirar proveito de todas as ideias que estavam a seu alcance. Acostumado a manusear o papel fino próprio para desenho na confecção de plantas baixas nas aulas de Arquitetura, fez recortes até chegar ao formato de que precisava, e escreveu os textos à mão. Igor já tinha um personagem criado por ele que costumava desenhar. Aproveitou para inseri-lo no trabalho, fazendo comentários críticos. A montagem rendeu boas notas. Foi quando percebeu que gostava mesmo disso. 


Igor recorda de outro trabalho naquele semestre. Era uma crítica ao livro “O dia em que o povo ganhou”, de Joel Rufino dos Santos. O futuro publicitário faz a resenha em formato pocket (de bolso), utilizando, para isso, um bloco de anotações. “Parecia com aqueles bloquinhos do jogo do bicho”, explica, aos risos. “Para mim, o dia que o povo ganha é quando ganha no jogo do bicho.”

Alunos na fila do RU na Unisinos que parecem saído de um filme (Imagem: Reprodução)


Muitos talentos 


Igor começou a estudar na Unisinos quando o campus ainda era localizado no Centro de São Leopoldo. Para ele, lá, no local conhecido hoje como Antiga Sede, os cursos eram muito mais próximos e os debates aconteciam no pátio da universidade, que reunia estudantes de áreas variadas. Foi nessa época que o então estudante publicou um livro de poesias e fez da escrita outra forma de expressão.


Mudou-se para Caxias do Sul, onde, segundo diz, “encontrou um lugar para si”. Depois de peregrinar bastante, criou sua própria empresa de publicidade. Mas não somente isso. “Fiz um monte de coisas ao mesmo tempo, porque eu acho que trabalhar em escritório é muito enfadonho”, confessa. “Então, eu me divertia com outras atividades. A primeira foi quando um cliente comentou que não havia nenhuma rádio decente em Caxias. No caso, não havia quem tocasse jazz.”


Com o apoio desse cliente, Igor pegou seus discos de vinil e lançou um programa dedicado ao gênero musical nascido em Nova Orleães, nos Estados Unidos. Foram cinco anos no ar. Dali, foi chamado para escrever crônicas no jornal Pioneiro, de Bento Gonçalves. Desse material, surgiu o livro A importância das coisas (2008).

Além da publicidade, a escrita também se tornou uma carreira (Imagem: Reprodução)


Entre o fim do programa de rádio e a vida como cronista, o publicitário também deu aulas na Universidade de Caxias durante quatro anos. Mas como escrever era um amor muito maior, conta Igor, ele se aventurou como cronista culinário no Jornal de Caxias. Próximo da família Iotti, foi o irmão do famoso cartunista gaúcho quem pediu a Igor que preenchesse uma lacuna no jornal com um texto. E aquela crítica culinária, que era para ser apenas um favor, se tornou semanal.

Tudo por diversão


Uma crise financeira do jornal obrigou Igor a escrever para sites da cidade, até que ingressou no Pioneiro. No rádio, ainda tentou mais um programa, dessa vez de entrevistas, em que conversava com publicitários sobre a área técnica da profissão, trazendo detalhes que as pessoas não conheciam. “Foi bem divertido”, recorda. Depois, vieram mais dois livros: Desejos Urbanos (2010) e Paredes (2011).


Mas não foi só no rádio e no texto que Igor se aventurou. Dedicou-se, durante cinco anos, ao programa Cozinhando na TV, produto da emissora da Universidade de Caxias. “A cozinha ficava em um bloco de salas onde também ocorriam outras aulas. Eu deixava a porta bem aberta para o cheiro chegar até os alunos. Tem pessoas que ainda lembram disso, mesmo depois de tanto tempo”, comenta. A experiência rendeu um livro de receitas: Receitas fáceis e saborosas.


Sempre motivado pelo que despertava seu interesse, o comentário de um ex-professor fez o publicitário pensar em um novo projeto. “Ele tinha saudades da revista literária da faculdade, e eu disse que, então, iria editar um jornal literário”, conta Igor. “Chamei de jornal Lasanha, já que eu ainda estava no programa de TV, e aquela seria uma mistura de camadas de coisas boas. Fui atrás do pessoal que fez a antiga revista literária. Com as colaborações deles e de outras pessoas, conseguimos trabalhos que iam do Piauí ao interior de Não-Me-Toque. O jornal, que começou com contos e poesia, se abriu para artistas plásticos e fotógrafos”, comenta.

Primeiro exemplar do jornal Lasanha (2010), que reunia cronistas, poetas, artistas e fotógrafos (Imagem: Reprodução)


Inclusive, um dos cartoons produzidos pelo Iotti para o jornal Lasanha ganhou uma menção honrosa em um festival internacional de humor. Outro trabalho realizado pelo grupo foi uma grande exposição de fotos, que contou com mais ou menos dez colaboradores. Esse encontro aconteceu em 2012.


Olhar para o futuro


Durante todos esses acontecimentos, a BAG Propaganda estava em funcionamento. “A agência veio com o foco de não fazer bobagem, de fazer uma comunicação séria, bem pensada”, diz Igor, um dos três sócios-fundadores. “Isso nos cria alguns impasses, porque muitos publicitários gostam de ser alegóricos, como um circo. Não sei fazer circo. Estamos há 38 anos trabalhando seriamente.”


Nesse tempo todo, o publicitário aprendeu que planejamento serve para olhar na direção que se vai, mas não a longo prazo. “Se em seis meses nada mudou, então estou fazendo algo muito errado. As coisas mudam do dia para a noite, e não dá para ficar sempre preso em um planejamento”, avalia. Para Igor, o essencial é uma análise de mercado e trabalhar muito. Mesmo com a perda de alguns clientes durante a pandemia, ele se mantém otimista. “O jeito é olhar para o futuro e tentar superar as dificuldades, escutando tudo que possa colaborar com a nossa continuidade.”


Quer saber como foi o encontro dos formandos dos anos 80? Confere ai como foi um pouco desse momento, eternizado na produção da professora Luiza Carravetta:

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