Especial

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Quem precisa de clássicos?
"Existem excelentes livros, mas apenas alguns recebem o carimbo de clássico, que é diferente de cânone. Aliás, nem todo o cânone representa uma leitura prazerosa. Ficou confuso? Você precisa ler esta matéria "
Bruna Lago


No nosso segundo ano de pandemia, buscar novos hobbies e atividades se tornou rotineiro. Com mais tempo fora do transporte público, e sem poder sair para ver os amigos, muitas pessoas investiram em clubes de livros ou leituras individuais. Uma delas  é a Bianca Nunes, estudante de Relações Públicas. Pensando no seu próprio aprendizado e na geração seguinte da família (a sobrinha de cinco anos) ela decidiu ter a literatura como uma meta. Mas por onde começar? Para alcançar um norte no assunto, hoje ela participa de três grupos de leitura.


“Comecei com o grupo Leia Mulheres, que era projeto em São Leopoldo, mas depois a Giulia Silvestre, resenhista no Página Cem, mudou para o Tinha Que Ser Mulher com algumas adaptações, e o foco ficou um pouco diferente”, explica. O Tinha Que Ser Mulher é aberto para o público masculino participar, mas até o momento são só mulheres que se envolvem nas leituras e debates. “Entrei em janeiro e me tornei madrinha, que é um pacote de assinatura que recebe conteúdo exclusivo e tem mais debates. Estamos lendo o Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir. No terceiro grupo, entrei porque íamos começar com 1984 e, como é leitura desse semestre na faculdade, gosto de enriquecer as minhas falas com essas discussões.”


Nessas discussões guiadas, os leitores são naturalmente motivados a participar ativamente e se apropriar da história, tornando uma leitura mais fácil. Como os exemplares são escolhidos pelo clube, ela ainda não leu muitos livros que consideraria clássicos, geralmente a prioridade dos clubes são livros atuais, e quando se tratam de autoras mulheres, o número de clássicos cai ainda mais. “Eu quero muito ler os clássicos, principalmente por ouvir dos meus amigos que os livros são muito bons. Mas acabo deixando para depois e leio principalmente o que meu clube de leitura recomenda. Como não tenho o hábito, acredito que com o clube vai ficar mais fácil ler os clássicos depois.”


Mas pensando no pouco tempo que a estudante pode ter, lidando com a faculdade e as leituras obrigatórias, por que ela deveria ler um livro antigo também?

Junto com a rotina de leitura, a estante também aumenta (Foto: Bianca Nunes)


O que faz de um clássico um clássico?


Quando pensamos em clássicos da literatura, as listas variam ainda mais. Como uma boa millenial, meus clássicos infanto-juvenis incluem a Coleção Vaga-Lume e A Ilha do Tesouro, mas para a geração z, provavelmente Harry Potter e Percy Jackson já tenham alcançado esse status. Para a professora Eliana Inge Pritsch, cada geração e seu contexto define o que será considerado um clássico. 

Mesmo não reconhecidos internacionalmente, os livros da coleção infanto-juvenil Vaga-Lume marcaram ao menos três gerações de leitores (Imagem: Reprocução)


“Quando eu penso em clássicos, vou estar olhando para um momento de uma civilização em que eu teria uma certa padronização das normas, com um conjunto de escritores que seguem ou discutem essas regras”, explica ela. A professora Eliana tem experiência e muita leitura para falar sobre literatura e clássicos.  Professora da Unisinos há 27 anos, ela atua no curso de Letras, Realização Audiovisual (CRAV) e Administração, ministrando aulas que envolvem literatura brasileira, literatura portuguesa, literatura comparada, latim e português histórico. “Quando falamos em Grécia Clássica, podemos situar no século V a.C., porque é nesse momento que se produziu o melhor do teatro. Em Roma, esses clássicos vêm do século I a.C. Alguns dos cânones brasileiros são Machado de Assis, Guimarães Rosa, José de Alencar e Clarice Lispector, uma época mais diversa.”


A Bianca entende que um clássico é aquele livro que passa por muitas gerações e continua essencial, trazendo uma mensagem que perdura. “O Pequeno Príncipe” , por exemplo, é um livro clássico. Ele é de 1943, mas em 2020 ainda estava entre os mais vendidos da Amazon”, argumenta. Então clássicos são livros que continuam nos dizendo alguma coisa importante e demandam uma preparação de espírito — e talvez da mente? — para ler. Mas todos os clássicos são reconhecidos como tal?


Este livro é um cânone!


Isso nos coloca em outra discussão, talvez difícil de visualizar. Assim como qualquer pessoa com um pequeno conhecimento sobre cinema, ou qualquer pessoa que apenas ame assistir filmes, pode escrever uma lista de quais produções são os seus 100 melhores, qualquer leitor pode elencar os seus clássicos. Mas nem todos os nossos clássicos são canônicos.

(Imagem: Bruna Lago)


“Não é um conceito fácil. O que eu entendo por clássico vai estar também no limite do conceito teórico do que é um cânone. Às vezes esses conceitos se tocam, mas não necessariamente”, elucida a professora Eliana. “O cânone me parece muito mais um modelo, uma caixa. Ele vem historicamente de uma linguagem eclesiástica, com regulações estabelecidas. O cânone, além do seu valor individual, é estético.”


Esse papel de discutir e decidir quais obras são canônicas ou não passou do clero para a educação, e aqui, é mais fácil reconhecer esse conceito quando pensamos que o programa federal de ensino, por exemplo, seleciona as obras clássicas que os alunos precisam ler em determinado período escolar. Por isso, a maioria de nós passou por Machado de Assis, Aluísio de Azevedo e Mário de Andrade. A escola ajuda a nos guiar no que se consideram cânones, porque representam momentos históricos e movimentos literários. 


“O livro que está na escola, o livro que as grandes editoras colocam no mercado, todos eles são canonizados por essas escolhas. O nosso famigerado vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com uma lista de obras a serem lidas. A comissão que escolhe esses livros é canônica, nesse sentido”, observa Eliana. “Hoje o clássico não pode mais ser confundido com o cânone, porque o cânone ficou muito estreito.”


Para a professora, apesar de Bernardo Guimarães ser um cânone por escrever A Escrava Isaura e O Seminarista, ele se tornou um clássico para ela,  mas na poesia. “Ele me parece um chato prosador, mas para mim, é um excelente poeta. Tem poesias satíricas, eróticas e obscenas, inclusive debochando do indianismo brasileito. E eu acho que vamos encontrando esses caminhos com releituras.”

A professora que odiava Dom Casmurro encontrou na releitura interpretações que a fizeram gostar da obra anos depois (Foto: Reprodução)


Como os clássicos não são necessariamente canônicos, eles variam de pessoa para pessoa. Quais são os livros que nunca param de dizer alguma coisa nova? Esses livros também dependem da leitura da época e como esse momento influencia na interpretação. “Nos clássicos brasileiros podemos pensar em Machado de Assis, e eu odiava. Não entendia por que gostavam tanto dele”, confessa Eliana. “Dom Casmurro? O que eu quero com isso? Com 30 anos eu li e foi outra experiência. Você lê com 50 e muda de novo. Então, às vezes, a releitura que vai te levando. Clássico também é aquele livro pelo qual o leitor tem um apreço especial, que trata como um talismã.”


Depois de vencer a barreira da antipatia, Dom Casmurro se tornou uma espécie de arqui-inimigo especial, para a professora. “Eu continuo odiando aquele Bento Santiago. Odeio a manipulação. Mas eu só fui entender essa manipulação quando reli depois dos 30.” Passada a primeira discussão universal sobre a possível traição de Capitu, a nova maneira de ver o mundo, mais madura, ajudou a perceber como é opressiva a relação dos personagens, como o cansaço de Maria Capitolina reflete no abandono das suas ações, como ir embora sem tentar se defender.


Complexo de Édipo


O escritor italiano Ítalo Calvino falou muito sobre literatura durante sua vida. No seu clássico – desculpa, não resisti – Por que ler os clássicos, ele destrincha todas as faces desses senhores da literatura e uma das mais interessantes percepções é a de que nunca estamos lendo um clássico pela primeira vez. 


“A gente sempre ouve dizer que alguém está relendo, porque a pessoa tem vergonha de dizer que ainda não leu”, brinca Eliana. “Mas também é porque um clássico está sendo lido dentro de uma tradição. Seja porque foram feitas releituras em cima dessa obra, seja porque eles impregnam nosso imaginário, mesmo que ainda não tenha sido pessoalmente lido.”


A professora explica que, segundo os conceitos de Calvino, o clássico tem descendentes e ascendentes. Por exemplo, Dom Casmurro já estava em Otelo, de Shakespeare, com a trama do ciúme. Dali podemos fazer uma ponte com São Bernardo, de Graciliano Ramos, anos depois retratando o mesmo tema central.


Mas Calvino alerta também que, quanto mais pensamos que conhecemos esses clássicos, mais podemos estar enganados. “Quando vamos ler efetivamente, nos damos conta de coisas diferentes do que imaginávamos, ou destacamos partes diferentes de outras pessoas”, concorda Eliana. É o que acontece quando ela oferece a peça teatral Romeu e Julieta para os alunos do CRAV, na disciplina de Dramaturgia e Linguagem. Quando os alunos vão (re)ler, percebem que a ideia do suicídio duplo, que muito se fala, na verdade não passa de um triste acaso — eles queriam mesmo era encontrar uma maneira de fugir juntos.


Você também já deve ter ouvido falar no “complexo de Édipo”, um termo usado por Freud na psicanálise. Mas será que o Édipo, da tragédia grega, era mesmo apaixonado pela mãe? “Tem um pequeno verso em que a Jocasta diz para Édipo não tentar saber do passado, que ele estava melhor assim. Mas é uma interpretação de um verso”, argumenta a professora. “O clássico tem disso, fica tanto tempo na boca do povo que todo mundo vai falar um dia. E quando eu vou ler, não vejo as mesmas nuances, são outras coisas que me chamam a atenção.”


E o Édipo que não tinha nada a ver com essa história, ganhou uma fama inesperada. 

A pintura de Jean Antoine Théodore de Gudin retrata o pobre Édipo e sua má fama (Imagem: Reprodução)

Uma lição de Sócrates


E a Bianca, que achou que não estava lendo clássicos, está inclusive lendo cânones, como 1984 que é um clássico distópico, e a literatura feminista da Simone de Beauvoir, que até pouco tempo não tinha espaço. Essa observação é um ponto importante quando pensamos nas mudanças que os clássicos atravessam. 


“Principalmente se é uma leitura em cima de uma releitura, de apropriação ou não apropriação, como eu leio e como você lê, isso vai mudar. Quando eu olho esse cânone, poxa, não tem nenhuma mulher brasileira que escreveu no século XIX?”, questiona Eliana. “Quando eu abro a história concisa, as primeiras mulheres a serem retratadas são Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, mas existia Maria Firmina dos Reis, lá em 1859.”


Os momentos pelos quais a sociedade passa influenciam o que se tornam os novos clássicos e também, o que pode vir a fazer parte dos cânones. A professora Eliana sugere acompanhar a lista de títulos que concorrem ao Prêmio Jabuti para conhecer os novos futuros cânones. “Gosto muito dessa indicação porque já passou por um colegiado, já teve sua valoração individual entre várias pessoas”, concorda ela. “Além disso, é importante observar que quando se trata de poesia, se antes dos anos 2000 os prêmios iam para autores de grandes editoras, agora são os autores individuais e alternativos que se destacam. Esse também é um movimento que mostra como as editoras não são mais detentoras dos cânones.”


Diante disso tudo, e agora sabendo que os clássicos estão constantemente mudando, você pode se perguntar por que deveria ler um livro que foi escrito quando a civilização em que vivemos nem existia. Por que ler um livro que conta uma história que se repete, ou que existe como releitura em outros títulos? 


“Eu não acho que é perda de tempo ler algo só porque supostamente não ensina nada. Todo livro na verdade ensina e desperta a criatividade, que é o que comanda todo o resto. A gente precisa de criatividade para conseguir florescer, para expandir todas as áreas da vida”, enumera Bianca, que já viu mudanças para melhor na rotina desde que começou a se programar para ler. “Eu penso muito na minha sobrinha porque quero que ela tenha hábitos melhores de leitura. Pensando em mim e na próxima geração da família, é uma meta que se torne rotina fixa.”

Na pintura de Jacques Louis David, pouco antes de morrer, Sócrates ainda parece ter muito a dizer (Imagem: Reprodução)


A professora Eliana, que acaba lendo bastante dentro e fora dos cursos que leciona, dá a dica de colocar os títulos como projetos. “Você não precisa ler tudo agora. O Grande Sertão Veredas eu larguei três vezes, mas em algum momento, depois da página 100 eu passei a adorar.” E como ela lembra, todo aprendizado é válido. “Quando Sócrates estava preparando a cicuta que tomaria para morrer, ele ainda estava lendo, aprendendo alguma coisa. Quando perguntaram para que serviria aquilo, ele respondeu que ao menos aprenderia mais alguma coisa antes de morrer. Por que ler os clássicos? A razão é simples: porque é melhor ler do que não ler.”

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