Deu certo

#design de moda #industria criativa #industria da moda #moda
“Se a pessoa paga, ela tem o direito de usar uma estampa bonita”
"Gerir campanhas milionárias para Gisele Bündchen, Alessandra Ambrósio e Paul Walker já não motivava mais Jorge Lückemeyer. Foi quando resolveu sair da publicidade para investir em moda"
Tynan Barcelos


“Não sou somente um ‘colono’ que decidiu tentar a vida na cidade grande”, sugere, aos risos, Jorge Luckemeyer. Natural de Santo Ângelo, no Noroeste gaúcho, o egresso da Unisinos trilhou seu caminho profissional no mundo da moda, que o levou até o outro lado do planeta, mais precisamente na China, a cerca de 18 mil quilômetros de distância da cidade natal.


Formado em Moda em 2013, Jorge atualmente está de volta a Porto Alegre, onde presta consultoria para diversos projetos, como coleções de estampas, e desenvolve estratégias para marcas. Além disso, também participa como palestrante em eventos de inovação.


A escolha pela moda


Aos 21 anos, Jorge se mudou para a Capital gaúcha. Antes de descobrir sua afinidade com a moda, tentou cursar Design em algumas instituições da Capital, mas não se identificou. “Não sentia uma proximidade com os professores, nem com o curso”, explica.


Apesar das incertezas sobre o que estudar, desde cedo Jorge começou a estagiar em grandes agências de publicidade, como Escala, DCS, Paim e Gad. Atuou em campanhas para pessoas famosas, como Gisele Bündchen, Alessandra Ambrósio e até mesmo para o ator Paul Walker, que morreu em 2013. Para fugir da rotina de trabalho, decidiu fazer algo que não fosse do seu dia a dia. Pensou até mesmo em cursar Biologia ou Física. Mas, para não perder definitivamente o contato com o mundo em que estava, escolheu Moda.

Além de designer e consultor, Jorge também é palestrante
(Foto: Marco Ferreira)


Uma experiência do outro lado do mundo


Em certo momento, Jorge passou a não se sentir mais motivado na publicidade: “Eu trabalhava com verbas milionárias, fazia catálogos, outdoors, trabalhava com Gisele Bündchen, porém não entendia a serventia do meu trabalho, sabe. Me sentia inútil”, revela. Decidiu, então, se aventurar na indústria. Foi quando surgiu uma oportunidade nas Lojas Renner.


Lá, o designer entrou com a mentalidade de democratizar a moda, principalmente relacionada às estamparias: “Eu penso que se a pessoa paga, ela tem o direito de usar uma estampa bonita”, acredita. Jorge foi um dos cinco primeiros designers gráficos da empresa. Quatro anos depois, percebeu que tinha chegado em seu limite de crescimento. Por isso, resolveu sair.


Após um período repensando a sua carreira, Jorge recebeu um convite para trabalhar na Adidas. Detalhe: na China. Como representante do Brasil, sua missão no país mais populoso do mundo era liderar a estrutura criativa de estampas da marca. Além de viver em um local com uma cultura totalmente diferente, o trabalho para a marca internacional serviu para que Jorge confirmasse algumas crenças que já o acompanhavam aqui no Brasil. “Na Renner, eu me questionava se alguns processos de trabalho estavam certos ou errados. Às vezes, eu ficava meio desacreditado. Porém, quando eu cheguei na Adidas, tudo o que eu pensava e acreditava fazia sentido. Foi muito importante para minha confiança”, explica.

Como representante brasileiro da Adidas, Jorge liderou
a estrutura criativa de estampas da marca na China
(Foto: Arquivo Pessoal)


Na China, Jorge teve que lidar com uma cultura ímpar. “O mais impactante foi perceber como são diferentes as percepções culturais sobre algo”, comenta. Ele cita como exemplo sua primeira reunião com o RH da Adidas. No meio da conversa, a funcionária da empresa arrotou e, após isso, seguiu a reunião com normalidade. “No início, eu estranhei muito. Mas depois de conversar com algumas pessoas que já moravam lá há algum tempo, entendi que, para os chineses, o corpo precisa ser livre de privações e restrições.”


No país milenar, Jorge presenciou, também, momentos desagradáveis, como o caso de homofobia em que foi vítima. Ao sugerir que ele mesmo retomasse um projeto sobre gênero fluido, que estava parado, pois poderia ter mais facilidade, já que era homosexual, se deparou com a surpresa de três funcionárias asiáticas. “Elas falaram abertamente que não estavam confortáveis com aquilo, por eu ter falado, claramente, que era gay”, revela.


De volta ao pampa


Após a experiência vivida no outro lado do mapa, Jorge retornou a Porto Alegre. Não tinha, segundo ele, muita ideia do que faria a partir de então. “Eu só queria deixar as coisas acontecerem, sem pressão. Por isso, decidi trabalhar sob demanda”, conta. Foi então que resolveu investir em uma carreira autônoma, realizando trabalhos como freelancer para clientes próprios. “A experiência na China me ajudou a ter a confiança para tomar essa decisão”, esclarece Jorge.


Dos diferentes projetos futuros que o designer tem em mente, um está ligado diretamente com o local onde nasceu. Após iniciar um processo de desconstrução, com o objetivo de entender melhor qual era sua raíz e sua cultura, Jorge quer devolver à região missioneira tudo que aprendeu. “Vejo que o povo indígena está perdendo suas raízes em comparação a outras culturas contemporâneas. Entendo que ele podia ser mais valorizado e celebrado”, avalia.


Por isso, Jorge idealiza desenvolver produtos a partir da tradição indígena. “A ideia é vender e reverter os valores para que eles possam produzir suas próprias criações. Quero usar dos meus privilégios para retribuir.”

Mais recentes