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Alunos do curso de Jornalismo publicam reportagens investigativas
“Racismo, homicídio, falta de oportunidades para pessoas com deficiências são alguns dos temas investigados pelos estudantes da disciplina”
Bruna Lago


Todos os semestres, a disciplina de Jornalismo Investigativo produz reportagens profundas sobre assuntos importantes para a sociedade, mesmo que algumas vezes não sejam o foco da mídia tradicional. Sob a tutela da professora Luciana Kraemer, os alunos deste semestre abordaram alguns temas que passam despercebidos e outros que estão obtendo repercussão nacionalmente, sempre se baseando nos dados disponíveis pela Lei de Acesso à Informação. 


Todas as matérias, deste e dos semestres passados, podem ser acessadas na página de Jornalismo Investigativo no portal da Beta Redação. E para quem quer ficar ainda mais interessado nas matérias, o Mescla foi conversar com os participantes do grupos.


As faces do racismo no Rio Grande do Sul

As implicações jurídicas e os crimes que não são punidos por não terem um desfecho são abordados na reportagem (Arte: Daniela Gonzatto)


No ano que mais de uma vez as pessoas se mobilizaram para protestar contra o racismo, o grupo composto por Andressa Morais, Daniela Gonzatto, Sara Nedel Paz, Tainara Pietrobelli e William Martins usou dados de órgãos do estado para descobrir o perfil das vítimas de crimes de racismo e injúria racial, na matéria que pode ser lida aqui. “Tivemos dificuldade em encontrar vítimas recentes que tivessem levado adiante na Justiça esses crimes”, relata Sara. “Isso é justamente uma das hipóteses que levantamos na produção, do porquê desses casos caírem no esquecimento.” 


Devido ao distanciamento, todas as entrevistas foram feitas de modo remoto, o que também dificultou essa interação dos estudantes. “Provavelmente nossos maiores obstáculos envolveram o contato com as fontes e o fato do trabalho ser completamente de forma online”, concorda Daniela. “Precisamos nos adaptar, fazendo entrevistas por videochamadas e áudios, por exemplo, o que resgatou um pouco da proximidade que perdemos momentaneamente em função da pandemia.”


“Foi uma forma de aprendermos bastante sobre as diferenças legais entre racismo e injúria racial”, conta Andressa. Para a estudante, a matéria acabou tendo um peso ainda maior quando, em novembro, ocorreu o assassinato de João Alberto Freitas, no mercado Carrefour em Porto Alegre. Um fato lamentável, que acabou fazendo parte das estatísticas da matéria.


Para o grupo, essa foi uma oportunidade única de escavar e analisar dados de uma área sensível, que apenas recentemente começa a ser debatida abertamente. “Esse assunto tem uma relevância social imensa”, observa a estudante. “Pudemos trazer um pouco da dimensão e do panorama dos crimes raciais no estado em que vivemos com a visão de profissionais com propriedade no assunto combinando com dados relevantes, o que também mostra a realidade, sem achismos.” 


“Estamos felizes com o resultado. Pudemos pode trazer indagações relevantes sobre o assunto”, conclui Sara. “ Conseguimos mostrar para as pessoas a relevância que isso tem e que não pode ficar apagado. Tem que ser falado sobre. As pessoas vão poder se enxergar na matéria, ver as dificuldades e o que poderia mudar isso.”


A avalanche de ações trabalhistas movidas contra os times de futebol no RS

A árdua luta dos atletas que têm os contratos rescindidos sem direitos (Foto: Gustavo Machado)


Existem muitas matérias sobre vários aspectos do futebol, mas os estudantes César Weiler, Emerson Santos, Frederico Wichrowski, Gustavo Machado e Kévin Sganzerla uniram o amor pelo esporte com a preocupação com o cenário dos atletas no estado. A matéria, que pode ser lida aqui, traz à tona as relações trabalhistas, muitas vezes bem conflituosas entre os jogadores e os clubes de futebol/


“Desde o início nosso grupo queria falar sobre algo relacionado ao futebol, e com a pandemia afetando principalmente os clubes do interior, pensamos em entender como os atletas que recebem pouco são afetados pelas quebras contratuais”, explica Emerson. Na reportagem eles mostram que uma maioria gritante dos atletas vive bem distante da realidade luxuosa da televisão, e o cenário de competições apenas no primeiro semestre do ano dificulta ainda mais.


“Tivemos dificuldades porque, como envolve processos trabalhistas, alguns jogadores não quiseram se identificar, foram usados alguns nomes fictícios”, explica César. “Até mesmo conseguir o número de atletas cadastrados na federação se torna um detalhe demorado.” Para o colega Frederico, a experiência concluiu com ganhos para todos os envolvidos. “É maravilhoso poder entrar em contato com informações tão importantes da carreira de atletas que muitas vezes não são famosos como os que estamos acostumados a presenciar e o quão duras são suas realidades”, diz. “Acredito que trazer à tona dados tão importantes é uma missão imprescindível e contribui para mostrar um lado que muitas vezes não é abordado sobre as coisas.”


“Eu me sinto muito feliz. Diante de todas as limitações, nós fizemos um excelente trabalho”, concorda Gustavo. “Conseguimos informações exclusivas, que nós apuramos diante das fontes e isso por si só já satisfaz muito a vida de qualquer repórter. Obter por conta própria uma informação é muito prazeroso. Conseguimos entrevistas muito importantes com presidentes de clubes. A principal voz da instituição nos atendeu. Foram declarações polêmicas que apimentaram muito a reportagem.”


Falta de bibliotecários e de fiscalização atrasa cumprimento de lei no Estado

Mais de 30% das escolas no estado não possuem biblioteca (Foto: Reprodução/Pixabay)


Não é mais uma novidade, mas os dados continuam a alarmar. Em todo o estado, 39% das escolas não possuem biblioteca, e quando possuem, muitas vezes não são abertas por falta de funcionários. Esse é o tema da reportagem feita por André Cardoso, Clarice Almeida, Isabelle Castro, Lucas Lanzoni e Mateus Friedrich, disponível aqui.


“Tivemos dificuldade num ponto que não esperávamos, que foi foram as fontes estudantis”, conta Lucas. “Além disso, a própria Secretaria da Educação nos respondia com respostas fechadas, que não respondiam os questionamentos.” Os dados com a Secretaria de Educação foram conseguidos graças à Lei de Acesso, mas os estudantes tiveram que correr, já que só chegaram na última semana da produção.


“Por se tratar de educação, já esperávamos que seria um tema que renderia bons resultados”, comenta Isabelle. “A pandemia prejudicou um pouco, e a falta de interesse de alguns órgãos, mas no geral acho que nos saímos muito bem.”


Quem é assassinado em Porto Alegre e por quê?

Uma escalada das mortes na capital e o perfil das vítimas foi o desafio da reportagem (Foto: Reprodução)


As estudantes Jéssica Mendes, Kellen Dalbosco e Vitorya Paulo apostaram em um tema audacioso, que desde a idealização trazia grandes expectativas. “Queríamos um assunto que expressasse uma problemática”, explica Kellen. “O que causam os homicídios? Os números estão diminuindo? Se sim, por quê? Quem são as pessoas que estão morrendo?”


“Desde que escolhemos o tema, já estávamos apreensivas com a amplitude, e ela se confirmou na produçao”, confessa Jéssica. Falar sobre o caminho dos homicídios na capital exigiu determinação e esforço em grupo. As estudantes cruzaram os dados de homicídios dos últimos dez anos na capital, tendo que reestruturar e criar tabelas que atendessem a nova demanda.


Acostumadas a trabalhar com entrevistas, a quantidade massiva de dados foi o ponto alto nas dificuldades. “A gente trabalha com informação, mas pegar uma planilha com dados de homicídios no estado, por ano, entender os padrões, as estatísticas… É complicado”, concorda Vitorya.


Finalizando o curso de Jornalismo, as estudantes compararam a disciplina a produção de um TCC. “Me vi exausta. Teve um momento do semestre que pensei em cancelar, mas como meu grupo todo estava passando pelas mesmas angústias, seguramos uma a mão da outra”, relembra Vitorya. “Nessa disciplina, se não tiver um grupo engajado, não vai para frente. E fica a lição de não desistir na primeira. Acho que fizemos um trabalho lindo, bem feito e apurado, mesmo com as limitações da pandemia.”


“Falar sobre homicídios é sempre delicado, e sem esse contato presencial, foi ainda mais difícil”, assinala Jéssica. “Mas todas estamos felizes em entregar um trabalho com essa qualidade. Conseguimos um bom resultado e se tornou motivo de orgulho.” 


“Jornalismo investigativo é a chama do jornalismo. São dados e histórias, e tu quer entregar para o mundo uma informação, que de alguma forma seja útil”, resume Kellen.


A matéria pode ser lida na íntegra aqui.


Apenas 5% das pessoas com deficiência têm emprego formal no RS

Os números alarmantes revelam o desinteresses das empresas (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


Um assunto muito pouco abordado a nível regional foi o tema escolhido pelos alunos Régis Viega, Lucas Ott e Guilherme Santos, que você pode ler aqui. Motivados pela dificuldade encontrada pelo próprio Régis que é cadeirante desde 1999, os alunos foram investigar sobre as vagas de emprego para PCD’s e os dados foram surpreendentes.


“Para mim foi um baque bem grande, já no início da pesquisa”, comenta o colega Guilherme. “As empresas pouco empregam pessoas com deficiências, só fazem isso porque existe uma lei que as obriga.” Uma realidade conhecida de Régis, que é cadeirante, ainda tiveram dificuldade na falta de fontes oficiais que pudessem orientar sobre o assunto. “Também é complicado encontrar cases com portadores de diferentes deficiências. Cegos, por exemplo, são os mais excluídos do mercado de trabalho.” 


Com a finalização da matéria, os estudantes comemoram o resultado e a possibilidade da reportagem se tornar uma referência para abordagem do tema. “Não existem muitas reportagens sobre o assunto, parece que não há interesse em saber por que esses números são tão baixos”, concorda Guilherme. Uma hipótese levantada durante a produção se confirmou no contato com as fontes, como conta Lucas. “Não é o mercado de trabalho a raiz do problema. Muitas das vagas não são ocupadas porque essas pessoas enfrentam dificuldades desde a educação. O problema está em toda a sociedade.”


Depredação e abandono marcam os monumentos da Redenção


Para descobrir o estado em que se encontram os monumentos na capital, o grupo de Porto Alegre, Carolina Santos, Jessica Montana, Josi Skieresinski e Luiza Soares, teve que cruzar dados e desbravar a falta de informação. A matéria que pode ser lida aqui é um trabalho de investigação sobre o estados dos monumentos históricos e a verba destinada para tal. “Nossa ideia era fazer uma relação das homenagens a pessoas escravocratas ou fascistas, da mesma forma que houve esse movimento em outros países”, conta Luiza. “Queríamos fazer uma relação de quantas pessoas homenageadas eram mulheres, ou negros, mas os dados são poucos e dezatualizados.”


O passo seguinte foi encontrar um novo foco para a investigação, e dessa mudança, os alunos se depararam com a falta de manutenção e preservação desses bens históricos. Com o trabalho realizado, o grupo formou um panorama que também serve de referência. “Estamos realizados. Apesar das mudanças, conseguimos fazer uma reportagem de cultura que é também de denúncia”, conclui Luiza.


Nos bastidores


Para a professora Luciana, apesar das dificuldades trazidas pela pandemia, o semestre foi produtivo, com temas de grande interesse e um aprofundamento nas técnicas que são usadas no mercado. “Se por um lado o distanciamento social foi  obstáculo para o convívio presencial, por outro favoreceu a ambientação para a busca de dados”, observa Luciana. “Estamos todos mais em casa e na frente do computador. Além de ter contribuído para que tivéssemos palestras importantes.”


Durante o semestre, os estudantes puderem conversar com nomes como o jornalista e criador do Lagom Data, Marcelo Soares, radicado em São Paulo; a jornalista Naira Hoffmeister, do Grupo Matinal Jornalismo, e o repórter Marcel Hartmann, ambos recentemente premiados no 62º Prêmio ARI/Banrisul de Jornalismo. “Foram contribuições importantes que deram mais estímulo para os grupos, que se engajaram muito nas suas investigações”, diz Luciana. “Acho que produziram um belo portfólio para a carreira, e ainda vão  inspirar as turmas que virão.”


Com os vários grupos e novas realidades, a monitoria acabou tendo papel ainda mais importante no auxílio à organização e suporte dos grupos. O estudante Natan Cauduro foi monitor da disciplina e acompanhou de perto o desenvolvimento dos grupos, apesar das dificuldades.


“Todas as reportagens têm qualidades muito interessantes”, comenta ele. “Foi muito trabalhoso, mas talvez tenha sido mais no sentido de se entender no ambiente virtual, já que todos entregaram matérias bastante positivas.”

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