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A memória e a narrativa negra
“O ensino da cultura afro-brasileira é lei nas escolas de ensino básico, mas o tema - assim como autores - ainda são pouco explorados e conhecidos pela maioria das pessoas”
Lisandra Steffen


Em 2008, uma Lei Federal modifica o currículo escolar brasileiro. A História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena passam a ser conteúdo obrigatório nas escolas de ensinos fundamental e médio, com foco nas áreas de Educação Artística, Literatura e História do Brasil. Com isso, diversos professores do ensino básico tiveram que reformular suas aulas e trazer o tema para os planos de ensino. A Lei também auxilia na representatividade e no reconhecimento da cultura negra e, entre outros aspectos, da Literatura Negra. Jeferson Tenório, em entrevista para o Mescla, explicou que o país tinha, até pouco tempo, apenas uma versão da história do Brasil. Uma versão branca e de classe média. “Acredito que as literaturas escritas por mulheres negras talvez tenham a oferecer muito mais do que a literatura escrita por homens negros. Porque é um outro ponto de vista, como a Conceição Evaristo falou, das escrevivências, ou seja, essas experiências que, por muito tempo, foram silenciadas. Elas, agora, emergem e mostram o quanto é importante a gente ter esse outro ponto de vista para ampliar o que a gente entende por Literatura e, por consequência, a história do Brasil”, comentou.


Nesse sentido, Dudlei Floriano, professor do ensino médio no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Osório, é um exemplo de professor que precisou se recriar. Na graduação, ele não teve disciplinas de Literatura Afro-Brasileira. Formado pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) em 2008, Dudlei teve que “correr atrás” para trazer a temática aos alunos. “Se for parar para pensar no que é o cânone literário brasileiro, ou no mundo todo, a grande maioria vai ser homem branco, então, muito raramente a gente tinha algum autor negro”, lembra Dudlei sobre as aulas na universidade. “Estudamos Machado de Assis, que a gente sabe que era descendente de escravo e era mulato, mas em nenhum momento a gente teve uma discussão sobre a raça na obra ou na vida dele”, completa.


Em 2019, uma iniciativa da Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, buscou reparar um erro das pinturas do escritor. A campanha Machado de Assis Real surge para mostrar que, ao contrário de como normalmente é retratado, o fundador da Academia Brasileira de Letras é um homem negro. O podcast Expresso Ilustrada, publicou um episódio explicando como aconteceu o embranquecimento de Machado de Assis e qual a relação dele com o movimento negro.


Dudlei conta que, nas aulas, tenta sempre trazer a Literatura Negra com ajuda do livro didático. “É desafiador, mas acho que é possível, pegando uma mesma temática, falar de diferentes coisas que dialogam uma com a outra”, comenta. Mas, segundo ele, não existe uma fiscalização para saber se a lei está sendo cumprida. O professor acredita que datas como o 20 de Novembro são importantes nesse sentido, já que, pelo menos uma vez ao ano, os professores se veem obrigados a trazer essa temática para as aulas. “A gente fala muito em representatividade, acho que também é importante mostrar isso para inspirar as novas gerações, para verem que é possível. Isso incentiva os alunos a verem que não é um caminho tão elitista assim”, finaliza.


A Literatura na graduação


Eliana Inge Pritsch é professora da Escola da Indústria Criativa, e no curso de Letras, dá aula de Literatura. Eliana, que integra a Unisinos há 26 anos, também foi professora da disciplina optativa Seminário Avançado em Letras – O negro e o Indío na Literatura Brasileira, que foi oferecida em duas ocasiões. O contato com a Literatura Negra vem das aulas do Mestrado, no final dos anos 80. Foi com a professora Zilá Bernd que entrou em contato com autores que desconhecia na graduação.


O conhecimento sobre a Literatura Negra que Eliana tinha fez com que a professora tivesse uma preocupação a mais após a Lei de 2003. “Dei palestras, fiz cursos de extensão e, depois, duas edições da mesma disciplina para dar esse tipo de repertório para o profissional de Letras, que vai ser professor e vai chegar na escola”, explica. Para ela, a Literatura Negra tem um traço muito calcado na realidade e na construção de uma memória e uma identidade. Com isso, a professora acredita que não são apenas autores negros que fazem esse tipo de literatura. “Eu vou trazer a Literatura Negra muito mais por aquilo que ela vai me falar. Independe da cor do autor, depende de como ele tá colocando esse assunto”, explica. “A importância de ler Machado como negro é de ver que o nosso maior autor tem uma ascendência africana importante e isso é um tapa na cara da ideia racista”, complementa.


Outra questão importante, para Eliana, é a diversidade, já que, muitas vezes, se olha apenas para os mesmos autores. “Eu acho que é uma voz tão silenciosa que a gente acaba não se dando conta disso, acho que o ensino na literatura passa por essa questão de que eu vou estar sempre trabalhando com o cânone, mas é importante que eu dê essa visibilidade, de trazer esses livros, esses personagens, para que tenha um reconhecimento”, comenta. Ainda sobre o tema, a professora levanta um questionamento: quanto tempo levou para que a Globo tivesse um número considerável de personagens negros em suas novelas?


As percepções de pessoas na mídia


O Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) tem a resposta. Ao longo dos últimos 20 anos, eles têm realizado uma pesquisa sobre a raça e o gênero nas novelas, usando os dados do site Memória Globo. Entre 1995 e 2014, apenas 10% dos personagens centrais das tramas eram negros. A novela com mais personagens não-brancos, segundo o grupo, foi Lado a Lado, de 2012. Das protagonistas destes 20 anos de novelas, apenas sete eram não-brancas, sendo que estas personagens foram interpretadas por apenas três atrizes.


Assim, o Brasil vai apagando narrativas – e vidas – negras. Portanto, falar sobre a história e a cultura afro-brasileira é importante para instaurar o diálogo e construir a memória e identidade do país. “Eu vejo as nossas narrativas, hoje, cada vez mais se descolando de um protótipo de negro, dessa contestação. São questões desse cotidiano – tô pensando em Estela sem Deus, O Beijo na Parede -, não tem uma coisa panfletária no Jeferson Tenório, nem na Conceição Evaristo. Claro, ela vai se colocar como escritora negra e vai angariar para que tenha esse tipo de visibilidade, mas a marca do texto é trazer essa memória oral e coletiva”, finaliza Eliana.

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