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Cinema negro gaúcho em debate
“Na noite que antecede o dia da Consciência Negra, estudantes e egressos do CRAV tiveram um debate sobre o longa “Um é Pouco, Dois é Bom”, de 1970”
Pedro Hameister


Alunos e egressos do curso de Realização Audiovisual tiveram, na noite desta quinta-feira (19), uma aula especial sobre os 50 anos de um dos primeiros filmes brasileiros dirigidos por um negro, que também é um dos primeiros longas urbanos do Rio Grande do Sul. Trata-se da obra “Um é Pouco, Dois é Bom”, de 1970, dirigido por Odilon Lopez (falecido em 2001). O encontro ocorreu pela plataforma Teams. O clima era de debate e otimismo sobre o aumento da participação de atores negros e possibilidades de novas produções pretas possibilitadas também pelos movimentos antirracistas que tomaram conta do mundo neste ano, além da autocrítica pela pouca presença de alunas e alunos negros no curso. Não se imaginava que, poucas horas depois, o país seria surpreendido por um crime de racismo na capital gaúcha, ocorrido na garagem de uma das maiores redes de supermercado do mundo. “É muito triste, é absurdo, é inaceitável. Não existe lado positivo para essa tragédia, mas ela reforça a necessidade de expor o racismo que vivemos e perpetuamos, bem como mobilizar possíveis resistências e mudanças. O cinema, acredito, também tem um importante papel a cumprir nesse sentido, em provocar a sociedade a se rever, a enxergar o antirracismo como um movimento urgente”, afirma o coordenador do curso de Realização Audiovisual da Unisinos, Vicente Moreno.

O filme e o debate 

O filme é dividido em duas partes, cada uma com uma história diferente. A primeira, “Com um Pouquinho de Sorte” fala sobre um casal, Jorge e Maria, que entra em crise financeira coincidentemente junto com a chegada do primeiro filho. A segunda, “Vida Nova por Acaso”, que foi digitalizada e está disponível na internet, gira em torno de uma dupla de ladrões, Magrão e Crioulo, sua luta para sobreviver em Porto Alegre e a relação que surge entre o Crioulo e uma moça de alta classe social.

O encontro foi ministrado pelos coordenadores de Realização Audiovisual, Milton Prado Franco Neto e Vicente Moreno, e teve como convidados a filha de Odilon Lopez e responsável pelo acervo do falecido diretor, Vanessa Lopez, e o realizador audiovisual e membro do coletivo Macumba Lab, Alexandre Meireles. Vanessa foi quem iniciou a conversa compartilhando um pouco sobre a vida e o trabalho de Odilon.

O diretor nasceu em Minas Gerais, em 1941, e se mudou para o Rio Grande do Sul em 1959. Em terras gaúchas, participou da Campanha da Legalidade, em 1961, foi um dos fundadores da TV Piratini e ajudou a fundar a TVE. Odilon decidiu que queria trabalhar com cinema após conhecer os filmes do Charlie Chaplin, e chegou até a vender um apartamento para conseguir gravar sua obra mais conhecida, “Um é Pouco, Dois é Bom”.

Vanessa disse, durante o encontro, que estava muito feliz pelo reconhecimento que esse filme passou a ter nos últimos tempos.

“Penso que meu maior objetivo na vida é espalhar a obra do meu pai, fazer com que ela alcance o máximo de pessoas possíveis. E me deixa muito feliz ver que o Odilon está conseguindo alcançar a atual geração de jovens com o trabalho dele”, comenta com um sorriso no rosto.

Já Alexandre Meirelles direcionou sua fala durante o encontro para o filme de Odilon. Em especial, à segunda parte, “Vida Nova por Acaso”, por  estar disponível na internet para todos que quiserem conferir. Meirelles deixou claro que é um grande fã desse filme e trouxe para o debate muitas perspectivas que o longa traz, como o fato de ele desconstruir a imagem do gauchismo que se tinha na época, e ter muitas filmagens no centro de Porto Alegre dos anos 1970. Mas, para Meirelles, o ponto alto dessa obra está no protagonismo negro que ela traz.

“Apesar de esse filme estar completando 50 anos, ele continua muito atual. A segunda parte dele é uma comédia, é divertidíssima, mas tem um fundo sério nela. Principalmente no protagonista Crioulo, na forma como ele se relaciona com as pessoas de classe alta, na cena em que ele está no mercado e advertem o vendedor para ficar de olho nele, entre outros pontos”, salienta.

Meirelles acrescentou que outro ponto relevante de “Um é Pouco, Dois é Bom” é o fato de ser um filme com protagonista negro diridigo por um homem negro. Segundo ele, a década de 1970 teve uma explosão de presença negra no cinema, mas isso decaiu com o passar do tempo. Porém, Meirelles acredita que os negros estão tendo cada vez mais espaço no cinema atualmente, e que está por vir uma nova onde de obras produzidas por pessoas negras.

A obra de Odilon Lopez mistura comédia com questões raciais | Foto: Divulgação

Caso Carrefour

O Dia da Consciência Negra amanheceu triste e cinzento. Na noite de ontem, a mesma do debate do filme, e por uma infeliz coincidência, com relação ao que foi discutido, dois homens agrediram até a morte um homem negro, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, no estacionamento do supermercado Carrefur, na zona norte de Porto Alegre. 

O coordenador do curso de Realização Audiovisual da Unisinos, Vicente Moreno, comenta que havia um otimismo no tom do encontro. “A juventude está mais politizada e preocupada com a questão racial. Vemos isso na eleição recente de 5 vereadores negros em Porto Alegre, no Black Lives Matter, no Macumba Lab, no cinema e audiovisual negro que estão ganhando mais protagonismo”, diz ele. Não havia como imaginar que, naquele momento, o assassinato brutal de um homem negro estava acontecendo na capital gaúcha.

O colega de Moreno, Milton Prado Franco Neto, acrescenta que é muito chocante isso ter acontecido não apenas na véspera do Dia da Consciência Negra, mas na véspera do Dia da Consciência Negra justamente de 2020, que também é o ano do assassinato de George Floyd e de uma série de ações da população negra pelo mundo, com o claro recado de que não é admissível essa violência.

“Isso deixa claro que tem uma barreira impedindo que os gritos da população negra pelo fim da violência atinjam parte da sociedade. Aqui no Rio Grande do Sul nós temos uma polícia e uma cultura policial muito violenta, mas não há dúvida nenhuma de que as pessoas negras são as que mais sofrem com isso. E o acontecimento de ontem é só mais uma prova disso”, comenta o professor.

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