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Como foi o mais tradicional congresso de jornalistas pelo olhar de nossa repórter
“Racismo, Covid e meio ambiente foram alguns dos temas que chamaram a atenção no Congresso da Abraji ”
Estephani Richter


No mês passado, por estes mesmos dias, ocorria um dos eventos mais aguardados pelo campo do jornalismo profissional, o tradicional congresso da Abraji. Pela primeira vez, em 15 anos, a edição foi gratuita e online. Foram dois dias de pura imersão no jornalismo investigativo, com nomes nacionais e internacionais da área. Em sintonia com este momento, o destaque ficou para a cobertura do coronavírus, passou pelo racismo nas redações, e a preocupação jornalística com o tema do meio ambiente. Foi a oportunidade para receber um público recorde, mais de 10 mil pessoas se inscreveram para assistir as palestras. Uma delas, fui eu. Estudante de jornalismo do último semestre, estagiária da Agexcom, colaboradora do Mescla. Ao longo de dois dias eu fiquei vidrada no computador assistindo todas as palestras que consegui. E como todas estavam disponíveis numa plataforma da Abraji, deixei outras para conferir ao longo deste mês. 

Dia 1: Covid-19, combate a desinformação e a segurança de jornalistas

Mesmo dentro de casa, os dois dias de congresso foram intensos, com oficinas e painéis cheios de conteúdo. Difícil foi escolher entre um ou outro nos horários com mais palestras acontecendo ao mesmo tempo. No primeiro dia, após a abertura oficial, o dia iniciou com o painel “Desinformação: Desafios para o jornalismo e técnicas de verificação”, com mediação do presidente da Abraji  Marcelo Träsel e a presença de Craig Silverman, editor de mídia do BuzzFeed News no Canada. 

Durante o painel, Craig falou sobre maneiras de combater a desinformação na internet. Uma das dicas que o jornalista deu foi a de equipar as pessoas, educá-las para que saibam julgar e perceber quando uma informação é falsa ou não. Além do apoio a mídias de qualidade que não são influenciados por nenhum lado, ele também pede que os jovens tenham resiliência com pessoas mais velhas, principais vítimas das fake news. Craig ainda explicou que para muitos a desinformação é uma oportunidade econômica e que devemos aprender técnicas que dão credibilidade ao nosso trabalho. “Temos de mostrar nosso trabalho, o processo dele, criando credibilidade”, destaca.

Ainda durante a manhã de sexta-feira a jornalista Natuza Nery, comentarista de política da Globo News, entrevistou o ministro do STF Alexandre de Moraes. Durante a conversa falaram sobre a liberdade de imprensa. O ministro defendeu que a liberdade de expressão deve ser usada com responsabilidade, pois não é sinônimo de licença para agressão. Também afirmou que a imprensa não pode desfrutar desta liberdade quando com os jornalistas são coagidos, por isso o judiciário também deve garantir a liberdade de atuação do profissional de imprensa. “Um jornalista investigativo que não incomoda, vai ter que buscar outra profissão”, observa o ministro Alexandre. 

No início da tarde o neurocientista e coordenador do Comitê de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste, Miguel Nicolelis, a repórter do Estadão Roberta Jansen e o assessor da Fiocruz Vinicius Ferreira, debateram sobre “Desafios do jornalismo científico durante a Covid-19”. A jornalista do Estadão comentou que além de precisarem desmentir as notícias falsas que saem sobre o assunto, os maiores desafios enfrentados são saber peneirar as informações mais importantes e entender estas e os dados que chegam até as redações. 

Ela destaca que precisamos entender minimamente aquilo que estamos noticiando. Roberta ainda lembra que apesar do impacto imediato na saúde pública com notícias da editoria científica, ainda existe uma desvalorização da categoria. “Será que no final das contas o jornalismo científico não é tão importante quanto o de economia e política, e não acaba pautando os outros?”, questiona a repórter. Em relação ao tanto de informações sem precedentes que acabam surgindo na rede, ela afirma que o jornalismo sempre deve lidar com aquilo que tiver comprovação científica. 

De acordo com Nicolelis, jornalistas da ciência devem se atentar também a sociologia da ciência. ele destaca a importância do trabalho do jornalista em situações como esta da pandemia e afirma que é necessário uma abertura entre estes e cientistas para que trabalhem juntos. O neurocientista observa que ainda não temos nenhuma vacina e destaca que “a desinformação, o movimento anti-vacina, trarão problemas lá na frente, quando tivermos uma”. 

Seguindo a programação da tarde, a editora do Portal Favela em Pauta e consultora da ONG Internacional Witness.org, Daiane Mendes, junto com o jornalista do Alma Preta, Juca Guimarães, mediou o painel sobre “Como a BBC desvendou um crime brutal na África”. Quem falou sobre o tema foi o jornalista da BBC Reino Unido Aliaume Leroy. Tendo como objeto a reportagem que no Brasil foi intitulada Anatomia de um crime e resultou no documentário Cameroon atrocity: Finding the soldiers who killed this woman

O caso que aconteceu na República dos  Camarões, mostra em um vídeo um grupo de soldados matando duas mulheres e seus filhos. O governo tratou aquilo como fake news. Utilizando várias técnicas para analisar o vídeo, a equipe da BBC Africa Eye conseguiu descobrir onde e quando exatamente aconteceu o crime. Eles usaram o Google Earth para localizar o local tendo como referência a cadeia de montanhas que aparecia. Além disso, observando as sombras das pessoas, usaram trigonometria e com ajuda de um programa de geolocalização, o Sector 035, conseguiram descobrir a época e o horário do acontecimento. Aliaume lembra a importância que teve esse trabalho, pois “essa investigação e outros trabalhos, influenciaram o Estado Americano a parar de financiar grupos militares daquela região”.

Com ajuda do Google Earth a equipe da Africa Eye conseguiu encontrar o local onde aconteceu o crime (Foto: Reprodução Congresso Abraji)

Ainda no final daquele primeiro dia, Patrícia Campos Mello, repórter e colunista da Folha de São Paulo, conversou com Neena Kapur, gerente de inteligência de Segurança do New York Times. Com o tema “Doxing e outras ameaças de segurança digital contra jornalistas”, Neena deu dicas de como jornalistas podem se proteger na internet. Ela explica que o termo doxing se refere  à utilização de dados pessoais nas redes sem a permissão do dono. A internet pode ser um lugar ameaçador, mas a analista de inteligência de ameaças garante que existem mecanismos de proteção.

Entre as dicas, ela comenta que devemos fazer um autodoxing, com buscas sobre nós mesmos nos navegadores. Verificar os registros públicos de banco de dados também é uma opção. Além disso, Neena sugere que avaliemos com frequência nossas publicações antigas e que tenhamos perfil pessoal e profissional separados. Ela comenta também da importância de alertar aos familiares, e antes de publicar qualquer coisa, analisar se aquilo pode causar problema. “Não alimente o monstro. Não sugerimos que ninguém se apague da internet, mas que avaliem mais antes de fazer publicações”, destaca a especialista. O NYT disponibiliza de forma online e gratuita um workshop antidoxing que pode ser usado nas redações para ensinar jornalistas a se proteger.  

Logo após, se deu início ao minicurso “Como cobrir trabalho escravo e outros direitos trabalhistas”. A mediação foi de Leonardo Sakamoto, colunista do UOL e diretor da ONG Repórter Brasil, com a participação de Piero Locatelli, repórter da mesma ONG. Logo de início Piero afirma que jornalistas devem ter noção de que não são eles que decidem se o fato a ser reportado é crime ou não. Ele lembra da importância de ir muito além de releases, usando informações públicas e lendo os documentos por completo. “Muitas vezes é numa nota de rodapé que está a nossa história”, observa o jornalista.

Piero diz que se deve ter sempre muito cuidado ao divulgar informações de vítimas do trabalho escravo, pois vivem em vulnerabilidade. Sobre dados de escravidão, ele afirma que não sabemos quantos casos existem no país, apenas quantos foram reportados. Ele ainda alerta a checar todas as informações, inclusive o que os trabalhadores contam. “Você consegue histórias com pessoas, mas o documento é o que comprova”, explica. 

Um dos últimos painéis do dia foi “Ataques virtuais contra mulheres jornalistas na América Latina”. Contando com a participação da Argentina Sandra Chaher, professora da Universidade Nacional de Buenos Aires, a colombiana Lina Cuellar, co-fundadora do Portal Sentiido, a boliviana Isabel Mercado, diretora do Página Siete e a professora da Universidade Santa Maria, Gabriela Buada da Venezuela. Juntas, elas mostraram a realidade vivida por mulheres dentro e fora das redações, envolvendo ataque a jornalistas em redes sociais, desacreditando o trabalho delas simplesmente por serem mulheres. 

A venezuelana Gabriela Buada comentou que, no seu país, é preciso ter  dois ou três trabalhos para manter-se, “o que faz com que mulheres aceitem trabalhar com patrões que lhes causam medo”. Já Isabel comentou que  o seu país, a Bolívia, registra os maiores índices de violência contra mulheres. Diz ainda que existe muita censura e falta de acesso a fontes públicas, apesar da crença de que com a troca de governo isso poderia mudar. 

Dia 2: Meio ambiente, racismo e a sobrevivência do jornalismo

O primeiro painel do sábado foi “O que mudou na cobertura do Guardian sobre o meio ambiente e a Amazônia?”. Com as participações de Jonathan Watts, editor de meio ambiente do The Guardian, Kátia Brasil, editora-executiva e co-fundadora da agência de jornalismo independente Amazônia Real, e Bernardo Esteves, repórter da Revista Piauí. Para Jonathan é essencial que as redações comecem a dar mais atenção a matérias relacionadas ao meio ambiente. “Tem que tirar do ‘gueto’ e colocar no ‘centro’. Isso afeta a economia e a política”, comenta.

Uma opção que ele dá para conseguir essas mudanças é estipular uma espécie de cota, com um número específico de reportagens que precisam sair no mês sobre o assunto. Jonathan também sugere mudanças na linguagem usada nas matérias, dando nome real a tudo o que se publica. “Não é ser sensacionalista, é dar um senso de urgência”, coloca o jornalista, lembrando que essas mudanças trouxeram mais engajamento em relação aos leitores do Guardian. Além disso, sugere que se apele também as emoções, “Perguntar como a fonte se sente em relação aquilo, não como cientista, mas como pessoa”, exemplifica. 

Em seguida, Cécile Prieur, vice-chefe de redação do Le Monde falou sobre “Modelos alternativos de paywall, inovação e TIKTOK: como o jornal francês Le Monde vem se preparando para sobreviver”, com Natália Mazotte, diretora da Abraji. De acordo com Cécile, o Le Monde online era totalmente gratuito, mas há cerca de 10 anos tornou-se 50% grátis e 50% no paywall. Afirma que a versão livre chama atenção do leitor que acaba mudando para o acesso pago, onde encontram-se matérias mais profundas, escritas por especialistas.

Cécile comentou também sobre as novas formas de fazer jornalismo que eles vêm adaptando no jornal. Algumas destas são: mais interação com o leitor por meio de livestream, matérias compartilhando o dia a dia das pessoas em meio a quarentena, podcast, thread no whatsapp e o uso de snapchat e TikTok. Ela garante que esses novos modelos tornam mais fácil de explicar algumas notícias, atingindo um público mais jovem. Além de educar essas pessoas para receber notícias e democratizar mais o jornalismo. “Queremos quebrar a elite do jornalismo. Vamos manter o jornalismo de alta qualidade, mas isso não precisa acontecer em um só modelo”, considera.

No início da tarde de sábado Antonio Junião da Ponte Jornalismo conversou com Nancy Dutra e Sônia Bridi da Rede Globo sobre “Violência policial e acesso às armas”. As duas trabalharam juntas em reportagens que trataram do assunto, além das duas jornalistas, durante o painel, teve falas também de Mônica Reolom, James Alberti e Cristine Kist também jornalistas da Globo. Eles explicaram todo o processo das duas reportagens comentadas, que surgiram por meio da percepção de que a polícia estava matando mais e que as vítimas eram geralmente jovens negros de periferia. Durante o percurso, algumas da ferramentas usadas foram: Lei de Acesso a Informação, Excel e Flourish para fazer os gráficos

Apesar de todo o difícil processo que existe por trás do jornalismo de dados, afirmam que vale apenas e você consegue informações que mais ninguém tem. Nancy defende que em casos como estes é necessário estar seguro das informações ao realizar entrevistas com figuras públicas. Destacam que encontrar casos reais para as reportagens foi muito importante para mostrar quais são as consequências de decisões tomadas em Brasília, que muitas vezes são vistas de forma muito distante. “A forma de contar a história precisa mostrar a vitima”, destaca a repórter Sônia Bridi. 

“Racismo dentro e fora das redações” foi o tema do painel seguinte, com a ombudsman da Folha de São Paulo, Flávia Lima, na mediação e a participação de Nikole Hannah-Jones, repórter e colunista do NYT e Yasmin Santos da Revista Piauí. Nikole que é idealizadora do 1619 project, onde busca levantar a centralidade da escravidão no EUA e suas consequências, comentou um pouco sobre a presença de pretos nas redações norteamericanas. Ela afirma que mesmo nas cidades maiores, onde há muito mais negros, o número destes atuando na profissão ainda é muito baixo, principalmente em cargos de poder. Mas ela observa que existe uma pressão sobre os veículos para que isso mude. “Devemos ultrapassar a ideia de falar a coisa certa, para passar a fazer a coisa certa”, menciona. 

Yasmin lembra da importância do jornalista estar sempre buscando conhecimento. Afirma que o bom jornalista precisa conhecer a sociedade em que vive e diversificar os pontos de vista. Sobre a questão de muitos acreditarem ser militância a luta de jornalistas contra o racismo, ela destaca que “mostrar dados, fatos e respeitar os direitos humanos, não é ser militante, é ser jornalista”. A colunista do NYTimes ainda complementa: “O jornalismo que eu faço não é abstrato, é um jornalismo de vida ou morte”.

Na sequência o fundador da Abraji Marcelo Beraba, conversou com a ex-presidente da organização, Angelina Nunes, hoje Programa Tim Lopez,  e Marta Ferreira repórter e editora do Campo Grande News sobre “Jornalismo na Fronteira”. Angelina comenta sobre a cobertura de notícias sobre tráfico na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. O grande número de organizações criminosas na região, com muitos mafiosos ocupando cargos legislativos ou cadeiras em prefeituras, torna o trabalho de jornalistas muito mais perigoso.

Léo Veras foi assassinado em casa por criminosos do tráfico (Foto: Reprodução Congresso Abraji)

Naquela fronteira conhecida como terra sem lei, jornalistas se auto censuram, e acabam sendo reféns de releases, tendo pouco aprofundamento e humanização em suas reportagens. Jornalistas já foram mortos naquela região pela máfia do tráfico, o caso mais recente é o de Léo Veras que aconteceu em fevereiro deste ano. Angelina afirma que os profissionais não são suicidas, por isso evitam entrar tanto no assunto. “Às vezes se abrem brechas para ser mais provocador, mas tem um limite, o da sobrevivência”, argumenta. Marcelo finaliza o painel com um apelo aos jornalistas dos grandes centros, para que estejam atentos ao que está acontecendo com os jornalistas que trabalham com estes temas. 

No minicurso “Nunca usei a Lei de Acesso à Informação (LAI) como faço?”, a gerente de projetos da ONG Transparência Brasil, Marina Atoji, conversou com Luiz Fernando Toledo, repórter da CNN Brasil. Marina observa que apesar de demorar a chegar ao Brasil, isso permitiu pegar referências de outros países, criando uma legislação de qualidade. Ela explica que qualquer pessoa ou empresa pode solicitar uma informação por meio da LAI e o poder público tem a obrigação de divulgar e responder certas informações. 

O processo pode ser demorado, o órgão público tem até 20 dias para responder, podendo se estender para até 10 dias. Marina observa ainda que em alguns poucos casos os pedidos podem ser negados, como com informações sigilosas ou se o órgão não produz e armazena o que foi solicitado. Complementa dizendo que é preciso estar atento a tudo. “Falta de respostas também é pauta. Não basta conhecer a lei, os artigos, é preciso ter o olhar jornalístico”, destaca. 

O último painel do congresso foi sobre “Ataques ao jornalismo justificados pela Lei de Segurança Nacional (LSN)”. Estiveram presentes Fernando Rodrigues, fundador do portal Poder 360, Eugênio Bucci, professor da ECA-USP e o chargista Renato Aroeira. O tema surge devido ao fato de Renato ter feito uma charge onde Bolsonaro aparece com a Cruz Vermelha formando a suástica, e logo depois ter sido processado pelo presidente por meio da LSN. Após o ocorrido, vários chargistas se uniram em forma de protesto redesenhando a charge.

Para Eugênio essa lei é mais um dos entulhos autoritários da época da ditadura. Ele explica que esse tipo de legislação era vista como movimentos de guerra, sendo utilizada para proteger a integridade territorial e soberania nacional, na defesa dos chefes dos poderes da união. O que para ele acaba confundindo a defesa do Brasil com a defesa de quem chefia o estado, característica de mentalidades autoritárias. “Essa lei serve para agredir pessoas que não adulam o chefe do estado”, comenta. Arueira finaliza afirmando que “uma imprensa ruim é melhor que nenhuma imprensa, uma imprensa amarrada, é melhor que o silêncio”. 

E ainda dá tempo para assistir 

Além destes paines aqui comentados, o congresso contou com muitos outros, você pode ver mais na cobertura oficial. Mas se gostaria de ter participado do congresso, Marcelo Träsel conta que essa semana ainda podem ser feitas inscrições para ver o material que está disponível na plataforma do evento e receber o certificado. Em entrevista para o mescla, o presidente da Abraji ainda aconselha a quem deseja trabalhar com jornalismo investigativo a ler muitas reportagens e manuais, cultivar fontes e aprender técnicas de jornalismo guiado por dados, além de conhecer a estrutura do Estado e seu funcionamento. “De resto, andar pela rua sempre atento, escutar as pessoas, desenvolver a curiosidade e ampliar a cultura geral o máximo possível”, conclui Marcelo.

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