Por dentro

“Nunca tive medo de perguntar”
“A jornalista Daniela Pinheiro, com larga experiência em redações de revistas, como Veja, Piauí e Época, participou do evento de lançamento da quarta edição da Josefa”
Ketlin de Siqueira


A revista aborda a diversidade do mundo e suas possibilidades.

Na noite desta terça-feira (22/9), ocorreu o lançamento da quarta edição da Josefa. A revista, produzida por alunos do curso de Jornalismo da Unisinos (campus de Porto Alegre), traz histórias com o tema “fora da curva”. O evento, realizado totalmente online, contou com palestra da jornalista Daniela Pinheiro, que possui passagens pelas revistas Veja, Piauí e Época. A convidada abordou sobre “fazer revista hoje”.

“Os textos da revista Josefa nos levam a pensar se existe alguma coisa em pleno 2020 que podemos considerar fora do eixo, fora do normal. Mas o que seria considerado padrão neste mundo contemporâneo?”, indaga a professora Débora Lapa Gadret, coordenadora do curso, que participou do lançamento. O evento foi mediado pelo professor Everton Cardoso, que ministra a disciplina de Jornalismo Literário, responsável pela produção da Josefa.

Para Everton, o lançamento de mais uma edição da revista é também um momento para pensar sobre a profissão de jornalista. “Na universidade, pouco falamos sobre projeto editorial de publicações impressas. Então, considerei o evento uma oportunidade para discutir o assunto. Foi quando me veio o nome da jornalista Daniela Pinheiro como convidada para falar com os alunos”, explica.

Pautas diferentes 

  Para Everton, foi um desafio fazer a revista, pois o planejamento de como seria a quarta edição da Josefa teve início justamente quando a população entrou em quarentena por causa do novo coronavírus. “Os alunos, juntamente comigo, decidiram não tratar da pandemia nesta edição, porque eles poderiam, desta forma, se aventurar em pautas diferentes”, lembra o professor. “Nós trabalhamos dentro do que a pandemia nos permitiu. Fizemos muitas manobras para conseguir fotos, por exemplo, pois os alunos produziram completamente a revista a partir de suas casas”, ressalta.

 Em formato digital, a publicação dos alunos de Jornalismo campus Porto Alegre traz reflexões que muito condizem com o período em que vivemos.

As dez reportagens da nova edição questionam o que, afinal, pode ser considerado fora do padrão ou das normas sociais. A experiência de trabalhar com jornalismo de revista é marcante para os alunos. “É um grande projeto produzir uma revista durante o curso. É uma bagagem importante os estudantes de Jornalismo terem conhecimento e experiência dessa atividade”, comenta Everton. 

Rua virtual

Daniela Pinheiro mora há um ano fora do Brasil. Ela estava na Inglaterra e agora, em Lisboa, capital de Portugal. No Brasil, trabalhou por mais de 20 anos em revistas. Foram dez anos na Veja, 11 anos na Piauí e dois anos como editora de redação na Época. 

A jornalista contou, durante sua participação no evento de lançamento, que ficou feliz em saber que alunos têm a oportunidade de aprender sobre novos formatos de jornalismo, principalmente em se tratando de revistas. Para ela, edições feitas pelos próprios estudantes proporcionam um treinamento muito profissional. “Que bacana os estudantes da Unisinos poderem fazer uma revista de verdade, com editorial, índice, fotos, diagramação, textos que refletem temas da nossa atualidade”, comentou.

Para Daniela, o debate que os estudantes de Jornalismo precisam fazer é saber porque e para quem você está escrevendo. Na hora de fazer uma reportagem, uma dica é tentar ficar longe da internet. “Experimentar sempre fazer matérias de assuntos que não temos conhecimento para, assim, levar ao leitor outro ponto de vista do conteúdo”, disse.

Quem faz jornalismo narrativo, avaliou Daniela, tem o pensamento, muitas vezes, de que precisa descrever tudo, mas isso não é necessário, pois pode deixar o leitor exausto de detalhes sem necessidade. “Os jornalistas precisam escrever em suas matérias os detalhes úteis. O lead (primeiro parágrafo), por exemplo, precisa destacar o que você falaria para o seu amigo em uma conversa de bar, o que foi mais relevante na história”, ensinou. 

“As revistas estão em crise, ainda mais na pandemia. A atenção ficou para as redes sociais, e a televisão ganhou audiência, pois trazem informações do dia a dia. Desta forma, que papel sobra para as revistas, que contam histórias mais aprofundadas e vagarosas?” questionou Daniela. Para ela, o jornalista precisa voltar a fazer jornalismo na rua. “Em tempos de pandemia, vamos fazer ‘uma rua virtual’, ou seja, visitar sites que nunca olhamos antes, seguir pessoas novas, fazer alguma coisa que tenha chamado a atenção e, por alguma razão, você deixou passar”, disse.

Os jornalistas devem parar de dar audiência para quem não precisa ter, salientou Daniela. Para ela, quem precisa tomar o controle da narrativa é o jornalista, e não a fonte. “Sobre o que acontece no Brasil e no mundo, principalmente ligado a governos populistas, o jornalismo costuma responder fazendo matérias revelando as barbaridades que as pessoas falam. Desta forma, acabamos apenas reforçando a presença delas nas redes”, criticou. “A maneira como esses governos atacam os jornalistas, moral e financeira, é para calar a nossa voz, e está já acontecendo. Sinto que os jornalistas estão desamparados”, afirmou. 

Direto ao ponto

Confira outros tópicos abordados pela jornalista Daniela Pinheiro durante sua participação no lançamento da quarta edição da revista Josefa:

 Há espaço no mercado brasileiro para uma outra revista como a Piauí?

“Sim. há espaço para futuras revistas como ela. O sucesso da Piauí só prova isso.”

Vários perfis que você produziu são muito conhecidos. O que você aprendeu com eles?

“Que nunca conseguimos perfilar uma pessoa perfeitamente. Mas eu tento trazer os detalhes mais relevantes da vida daquela pessoa. Aprendi também que nunca devemos esquecer que as fontes não são nossas amigas, mas uma relação de troca profissional.”

Fazer revista permite ao jornalista ser mais criativo?

“Para ser criativo, não precisamos escrever para revistas. Podemos ser criativos o tempo todo. Mas as revistas permitem que os jornalistas apurem mais.”

Qual trabalho você considera que tenha causado maior impacto?

“Foram diversos, mas acredito que tenha sido a matéria que fiz sobre a médica Virgínia Soares de Souza, acusada por ter supostamente abreviado a vida de oito pacientes em UTI de um hospital de Curitiba.”

Já sentiu medo de falar sobre algum assunto?

“Nunca tive medo de perguntar. Mas sempre tomo o cuidado de como fazer a pergunta. As pessoas públicas têm obrigação de prestar contas.”

Gostaria de assistir o bate-papo com a jornalista Daniela Pinheiro e conhecer um pouco mais sobre a revista Josefa? Então, acesse aqui a gravação do evento no canal do YouTube do Portal Mescla.

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