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Começa o Festival de Cinema de Gramado
“Em edição histórica e gratuita, o Festival é uma oportunidade para conhecer o cinema nacional e latino, e ainda torcer pelos cravianos que integram a mostra”
Estephani Richter


Por Estephani Richter e Guilherme Machado

Há mais de 40 anos, o Festival de Cinema de Gramado vem acompanhando a evolução do cinema brasileiro e, principalmente, gaúcho. Curte cinema? Porque essa pode ser a edição perfeita, ainda mais se você nunca presenciou nenhuma. Primeiro, os conteúdos estarão disponíveis no Canal Brasil Play, via streaming. Segundo, as mostras competitivas serão exibidas na TV pelo Canal Brasil. E ainda tem as redes sociais Facebook e Instagram. Sinta-se convidado ao universo cinematográfico latino-americano. Confira a programação do 48º Festival de Cinema de Gramado.

O Mescla conversou com Fatimarlei Lunardelli, vice-presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e que também já atuou como professora substituta do Curso de Realização Audiovisual (CRAV) da Unisinos. “Os filmes ainda são inéditos. Posso dizer que uma boa expectativa é em relação ao filme “Um animal amarelo”, sexto longa do diretor Felipe Bragança. Esse é um dos filmes brasileiros selecionados entre 146 inscritos”, diz Fatimarlei sobre a obra, que trata da herança do colonialismo português no Brasil de hoje.

Para ela, o Festival de Gramado deste ano está conseguindo administrar o enorme desafio de manter a continuidade em meio à pandemia, que impõe o isolamento social. “Praticamente todas as atividades estão mantidas e isso é muito bacana, porque, de certa forma, vai alcançar mais gente”. A crítica de cinema lamentou apenas não poder apreciar a beleza do evento na Serra gaúcha.

Mônica Kanitz, curadora da Cinemateca Paulo Amorim e integrante da Accirs, conta que sua expectativa é grande em relação a essa edição: “Há 20 anos, é sempre um momento aguardado de encontro com colegas jornalistas, amigos e realizadores do Brasil inteiro. Junto, vem a possibilidade de conhecer uma nova safra de curtas e longas nacionais, vivenciar a maratona do ‘gauchão’ (a mostra de curtas gaúchos) e ter algumas surpresas – boas e não tão boas – diante da competição de filmes estrangeiros”, diz. Uma de suas dicas para aproveitar o formato gratuito é “Aos pedaços”, do Ruy Guerra. “Trata-se de uma produção de um dos cânones do cinema brasileiro – ele está com 89 anos. A outra é ‘Todos os mortos’, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, dois diretores que vêm realizando projetos instigantes e inovadores no nosso meio audiovisual.”

Os cravianos no Festival de Gramado 

Sopa Noir” é uma animação de comédia feita totalmente por alunos do CRAV
(Foto: Divulgação / CRAV)

Como já é de costume, o CRAV também tem presença marcada no Festival de Gramado. Atuando nas mais diversas funções, desde montagem, produção, até roteiro e direção, os cravianos, como são chamados, são formados por professores, alunos e ex-alunos, que costumam deixar a marca do curso nesse que é um dos mais respeitados festivais de audiovisual da América Latina. Ao todo, são 15 filmes produzidos por cravianos selecionados tanto para os Curtas Gaúchos como para os Longas Gaúchos.

Uma dessas obras selecionadas foi a animação “Sopa Noir“. O curta foi produzido por acadêmicos do CRAV durante os dois semestres de 2019. O roteiro, a direção e a animação foram de Beatrice Petry Fontana, que contou com Thiago Dorsch na produção e direção de arte, Alice Sperb também na direção de arte e Guime na direção de foto. Julia Zoppas, João Cardoso e Luiza Zimmer foram os integrantes da equipe de som. O filme teve apoio da equipe do Laboratório Avançado de Tecnologias da Informação e Comunicação (Labtics). A orientação foi do professor James Zortéa. 

Ele explica que todo aluno que decide realizar um filme de animação precisa primeiro apresentar um projeto audiovisual para o colegiado do curso. Após aprovado, começa todo o processo de realização com a formação de uma equipe. Segundo James, a diretora Beatrice destacou-se com o aprendizado de um software 3D que usou na produção. “Todo o CRAV celebra a consagração exitosa do processo acadêmico, que culmina na exibição do filme junto ao circuito profissional, com visibilidade nacional”, destaca. 

Equipe do “Sopa Noir” durante apresentação do filme em mostra da Unisinos
(Foto: Arquivo Pessoal / Beatrice Petry Fontana)

Sopa Noir” é uma comédia policial. O filme se passa no mundo dos vegetais, e tem como trama o mistério do assassinato do Chuchu. Beatrice conta que entrou no curso com foco em animação e direção de arte, e que sempre gostou da estética de filmes noir estadunidenses e de comédias. “Pude colocar tudo isso nesse projeto. Foi desafiador, mas admito que o processo foi divertido”, revela Beatrice, que já participou do Festival como espectadora em anos anteriores. 

“Acho que não só para mim, mas para a equipe e dubladores do curta, significa o reconhecimento do nosso trabalho, dedicação e esforço posto na produção desse curta. Ser selecionada para o 48º Festival de Gramado mostra que o esforço valeu a pena e também significa de que estou caminhando no rumo certo para o meu futuro profissional”, observa a aluna.

Os egressos também estão no Festival 

Filmes de ex-alunos também serão exibidos no Festival. Entre eles está “Lacrimosa“, de Matheus Heinz, responsável por praticamente toda a produção da obra. O filme conta a história de uma menina que perde o irmão, e os pais são acusados pela morte dele. “Eu sempre quis falar sobre esse tema, a morte de um filho pelo seu próprio pai. Acho que, por ser absurdo demais, algo antinatural”, destaca o craviano. Matheus contou apenas com a ajuda do namorado, que ficou com a divulgação, e da irmã,  para a dublagem. Ele lamenta não poder participar do Festival de forma presencial. “Saber que mais pessoas terão acesso aos filmes me reconforta”, sublinha.

O céu da pandemia“, curta da ex-aluna Marina Kerber, também foi selecionado. A obra, que faz parte da série Quarantine Tales e também do festival Fantaspoa at Home, tem no Festival de Gramado a consolidação do reconhecimento. Marina comenta que a produção do filme foi muito caseira e sem uma narrativa linear. “Fiquei muito feliz que o Festival abriu a seleção para diversos tipos de expressão artística”. O curta mistura ficção com documentário e animação com live action, mostrando fatos históricos do momento que vivemos com metáforas visuais. Marina usou apenas o celular e o computador na produção. “O filme foi sendo criado dessa forma, um quebra-cabeça que fui montando aos poucos”, explica.

Daniel de Bem também foi um dos cravianos escolhidos, com o curta-metragem “Ver a vista“. Ele conta que quando era criança, em uma viagem ao interior, seu pai – falecido há quase 20 anos – o levou até um morro para observar a região. O momento, registrado em fitas VHS, foi sua inspiração para construir a obra. O filme foi feito apenas com a montagem e edição de imagens de seus filmes antigos, sobras de material bruto e gravações de celular. Daniel acredita que estar no Festival de Cinema de Gramado traz uma força coletiva com os outros participantes. “A seleção desse filme me inspira a pensar mais um cinema fora das narrativas ficcionais básicas”, comenta.

Jéssica Luz, professora do CRAV, também foi uma das selecionadas, junto dos já formados Pedro Clezar, Natasha Ferla, Jonatas Rubert, Fernando Polla e Higor Rodrigues. Ela é produtora executiva de “Portuñol“, filme que será exibido na categoria Longas Gaúchos. O documentário mostra as misturas culturais na região fronteiriça do Brasil, e tem direção de Thais Fernandes. A pequena equipe registrou a mescla de línguas, como espanhol, português e até o guarani nos diferentes países de fala castelhana. Jéssica explica que o filme foi financiado pela GloboNews e tem duas versões. “Uma é mais longa, de 70 minutos. Essa que a gente tá exibindo no festival é outra, de 50 minutos, que vai passar na televisão, depois de passar no cinema”, explica.

Para saber mais sobre o Festival

Tudo começou em 1973, com a oficialização do evento pelo Instituto Nacional de Cinema. Era uma parceria entre Embrafilme, Prefeitura Municipal de Gramado, Companhia de Jornalismo Caldas Júnior, Fundação Nacional de Arte e as secretarias de Turismo e Educação e Cultura do Estado. Era a estreia do “Deus da alegria” (Kikito), concedido a todos os vencedores. Em 1992, houve a internacionalização do Festival, que passou a apresentar um panorama da produção ibero-americana. 

Kikitos de ouro, o Oscar do Festival entregue aos vencedores
(Foto: Cleiton Thiele / Agência Pressphoto)

O 48º Festival de Cinema de Gramado tem curadoria de Marcos Santuário, Pedro Bial e Soledad Villamil. Entre os homenageados estão Horst Volk, Marco Nanini, Laís Bodanzky, Denise Fraga e César Troncoso. Se você não conhece o Festival, a hora é esta. Não esqueça de acessar as redes sociais do evento, que ocorre entre os dias 18 e 26 de setembro. Tipo, começa amanhã.

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