Deu certo

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Cheiro de Talento
“Continuando nossa busca pelos artistas da Escola da Indústria Criativa da Unisinos, encontramos o jovem Andrei, que descobriu cedo a vocação para o teatro e para a publicidade e propaganda”
Bruna Lago


Provavelmente você já o viu, mesmo que não saiba quem é. Atualmente, Andrei Krummenauer estampa a página inicial do site do Unisinos Lab. Ser garoto-propaganda é mais uma de suas habilidades artísticas. Na verdade, falar sobre o Andrei é um mergulho pessoal no teatro, já que eu – esta repórter que vos fala – o conheci em 2009 ao vê-lo encenar o papel de um anjo na peça “Sacra Folia”. Foi apenas na universidade, tempos depois, que nós dois nos aproximamos. É interessante pensar em como uma pessoa é capaz de marcar a vida de outras, mesmo elas não se conhecendo. Eu nunca me esqueci daquela imagem em mais de dez anos.

Bem antes disso, o pequeno Andrei já dava sinais de possuir uma veia artística. “Eu acho que sempre tive essa inclinação. Dava para ver na minha cara que eu ia mexer com arte”, conta Andrei. “Nos meus pareceres do Jardim de Infância, os professores sempre comentavam que eu gostava de desenhar, inventar histórias e fazer teatrinhos. Eu me fantasiava e inventava uma personagem. Isso sempre foi uma parte muito forte da minha infância”, revela.

Um anjo muitíssimo marcante, Andreie estreava a peça Sacra Folia (Foto: Arquivo Pessoal)

A primeira lembrança do contato com os palcos também foi na escola, onde todos os anos os alunos realizavam uma pequena produção de Natal. Andrei não participou da dança com os colegas porque foi convidado a atuar em uma esquete no intervalo entre as apresentações das turmas. Foi nesse momento, lembra Andrei, que sentiu a energia especial que sempre iria uni-lo ao teatro. “Eu estava no palco, atuando com um microfone, e eu tinha cinco anos. Havia muitas pessoas assistindo e isso me deixou realmente fascinado. Daí nunca mais parei. Todo mundo dizia que eu gostava de conversar, que não tinha vergonha, então foi natural que eu procurasse um grupo de teatro”, acredita o estudante.

Mas na cidade de Taquara, onde morava, não havia nenhum grupo teatral.

Ajuda de longe

Em 2008, uma paulista chegou na cidade e decidiu criar seu próprio grupo de teatro, reunindo todos os jovens atores que antes não tinham apoio e suporte experiente para ensaiar. As aulas começaram na garagem dela, no mesmo ano, e foi lá que o Andrei encontrou sua “segunda família”: o Cheiro de Chuva. Já faz 12 anos que o grupo se apresenta em Taquara e na região. 

“Acho que a parte mais impactante, a mais definitiva da minha vida como artista, foi ter entrado no Cheiro de Chuva”, diz o jovem ator. Esse impacto também trouxe experiências grandiosas e emocionantes para Andrei, como a percepção de que era realmente um artista. “A energia que eu sinto no palco é tão potente que eu não consigo pensar em mais nada, só no momento, só em estar ali, na conexão que tu faz com o público. Essa sensação impede de ficar pensando ‘olha só, eu sou um ator muito bom!’, porque tu está ali, aproveitando o momento”, brinca ele.

Mesmo assim, Andrei confessa que, às vezes, se sente orgulhoso de ser um artista. Como em 2016, quando o grupo montou a peça “O Renascer do Cangaço”, uma comédia que recebeu muito reconhecimento – tanto em prêmios como no amor emanado pelo público. “Muitas pessoas falaram que acharam a peça linda, que tinham sido tocados. Eu vi pessoas se emocionando, batendo palmas. Teve quem perguntou quando ela seria encenada de novo para poder rever!”, lembra.

O grupo Cheiro de Chuva se tornou uma segunda família para os atores (Foto: Arquivo Pessoal)

O grupo se divide na produção de figurinos, nos gastos com materiais e nas noites de trabalho. Tudo por amor ao teatro, ressaltam os participantes. Apesar de, às vezes, conseguirem um espaço maior para ensaiar, é na garagem da diretora — a mesma que acreditou ser possível criar um grupo na cidade — que os atores se soltam e criam. 

A experiência de unirem forças pelo Cheiro de Chuva traz momentos marcantes, como em 2012, quando foram convidados para um festival na cidade de Maximiliano de Almeida, distante cerca de cinco horas de Taquara, na divisa com o Estado de Santa Catarina. O grupo alugou uma van e foram se apresentar na pequena cidade, que não chega a ter cinco mil habitantes. Passaram a noite por lá, depois da apresentação. A sensação foi de estar em férias com a família. “Acho que os maiores pontos turísticos eram uma borracharia e um restaurante”, conta Andrei, se divertindo com a lembrança. “E foi muito legal, porque é uma cidade com um grande histórico de teatro. Muitos atores e peças passaram por lá. E é uma cidade minúscula!”, destaca Andrei. Para ele, esses momentos de descobertas são os mais importantes. “É porque acontecem com o pessoal do teatro. Não tinha tempo ruim: Vamos se apresentar em tal cidade? Vamos! Vamos se apresentar em um parque? Vamos! Tinha ocasiões que montávamos uma peça só para participar de um festival.”

O grupo se apresenta gratuitamente em diversos eventos da cidade, pelo prazer de levar a arte para outras pessoas (Foto: Arquivo Pessoal)

Mesmo com o apoio da família, a carreira artística também enfrentou percalços. Apesar de terem conseguido formar um grupo teatral na cidade onde residem, Taquara não abre espaço suficiente para esse tipo de arte. Para Andrei, essas é uma de suas frustrações. Segundo ele, os moradores locais não são acostumados a consumir arte, mesmo em festivais e apresentações abertas. Os habitantes de Taquara não são o melhor público para o grupo.

“Tenho amigos em cidades pequenas, como Rolante, que fica aqui do lado, que são acostumadas a ter festivais de teatro. E as pessoas fazem filas, as apresentações lotam”, lamenta o estudante. “Meu grupo nunca focou em ganhar dinheiro com a arte. A gente faz por amor. E reconhecer o artista é o principal. Eu não lembro de quanto a gente já ganhou passando chapéu depois de uma apresentação, mas eu lembro muito bem das pessoas que vieram falar que estava muito legal. É isso que marca no final, a energia que o público te dá, o reconhecimento e o amor pela arte.”


Fora dos palcos

Além do gosto pelo teatro, desde criança Andrei demonstrava interesse também em outra carreira. Sempre desenhando, criava gibis, pôsteres e o que seriam suas primeiras peças publicitárias. “Eu fiquei fascinado com a organização das informações e das imagens. Desenhava menus e brincava com a publicidade”, conta.

Hoje, no curso de Publicidade e Propaganda, sabe que a arte também tem um papel importante no seu próprio senso estético. Andrei observa que esse diferencial faz com que muitos dos seus colegas, inclusive, tenham uma passagem ou interesse especial pelo teatro. “Não é um consumo tão direto como é uma peça de teatro, mas a arte está ligada porque precisamos de senso estético, de uma razão, de um aprofundamento. E a faculdade nos ajuda a refinar isso”, explica o estudante. “Temos mais aulas para debater, conversar e entender como funciona a estética das coisas do que aulas de softwares, por exemplo. No curso, aprendemos a lidar com a estética, o design das coisas e como passar a mensagem, os símbolos, por meio da nossa criação.”

O esforço dos atores se reflete na excelência das peças e na energia do público (Foto: Arquivo Pessoal)

Para depois da pandemia, Andrei brinca que o importante é estar vivo. E depois? “Eu não consigo imaginar nada, o que é legal, porque posso deixar o destino me surpreender. Mas minha meta é me mudar para uma cidade maior, como São Leopoldo ou Porto Alegre”, revela. Com isso, surge a dúvida de que se poderá ou não continuar no grupo. Andrei também quer poder se concentrar na carreira de publicitário. “Quero seguir com o teatro, nem que seja frequentando apresentações. Não quero me distanciar tanto, não quero me desprender.”

Seja como for, é o nosso desejo – o meu especialmente – de que Andrei ainda conquiste muitos espaços, dentro e fora dos palcos da vida.

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