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A representatividade LGBTQI na cultura pop
“Em live promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, pesquisadores debatem a importância da sociedade discutir questões de gênero e sexualidade”
Lisandra Steffen


Primeiro capítulo de uma novela do horário nobre. Um casal branco hétero tem relações sexuais. A trama tem recordes de audiência. Na mesma novela, três meses depois, um casal homossexual troca um beijo. Discursos de ódio entoam por todo o país. Ameaças de boicote são registradas nos quatro cantos. Só então se preocupam no que as crianças vão pensar.


A situação acima, apesar de hipotética, é uma realidade na vida de LGBTQIs. Não raro, grupos autoentitulados “conservadores” se aproveitam desses momentos para propagar mensagens de medo e ódio, em que defendem um discurso contra a chamada “ideologia de gênero”. Adeptos chegam a falar sobre questões de gênero e sexualidade de forma pejorativa, defendendo que LGBTQIs vão contra os valores da família tradicional. 


“Pensam que um personagem LGBTQI pode influenciar muito, ao passo que toda uma sociedade que fala todo dia para não ser ‘viado’, para ser ‘machinho’, não traz forte influência”, disse o professor da Universidade Federal de Ouro Preto Felipe Viero Kolinski Machado. Ele participou, na sexta-feira, 3 de julho, de uma aula aberta do Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento (LIC), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Unisinos. O evento contou também com a presença do doutorando do PPGCOM Christian Gonzatti e mediação da professora do PPGCOM Maria Clara Aquino Bittencourt.


Tu já tentou não ser?


Felipe abriu a conversa citando o livro “Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer”, de Guacira Lopes Louro. O professor explicou que antes mesmo do nascimento de um indivíduo já existem lugares marcados e cenários pré-definidos. “Habitamos corpos que existem e resistem em uma sociedade que é heteronormativa. A gente nasce, cresce, se desenvolve, existe e resiste, como eu tô dizendo, nesse cenário que é extremamente pré-definido”, disse Felipe. O acadêmico explicou que frases como “é uma menina” ou “é um menino” produzem estereótipos de gênero e não são tão inofensivas como parecem.


A identidade LGBTQI, segundo Felipe, é construída como algo inferior, dentro de uma sociedade heteronormativa. Com isso, ele levantou o questionamento: “Como é que a criança ‘viada’ consegue, de fato, aprender que a sua existência é válida se a sociedade o tempo todo diz que não é?”. A cultura pop, explicou o professor, opera como um importante lugar para a resistência e existência dessas identidades. Para exemplificar, Felipe e Christian mostraram diversos exemplos de personagens e histórias da cultura pop para ilustrar como a representatividade é um fator importante para o fortalecimento dessas identidades inferiorizadas.


“Todo saber é localizado e, historicamente, os saberes estiveram localizados em um lugar que é da branquitude, da masculinidade, da cisgeneridade e da heterossexualidade”, explicou Christian. O doutorando comentou que esse discurso surge disfarçado por uma neutralidade, mas que é através dos estudos queer e dos feminismos que ocorre o rompimento dessa ideia.


Felipe e Christian avaliaram que a representatividade se choca com uma sociedade marcada pelo machismo, a LGBTfobia e o racismo. É em rede que ideias conservadoras e discursos de ódio se fazem presentes. Mas, segundo eles, ao mesmo tempo, essas plataformas em rede também são utilizadas para visibilizar as narrativas de resistência, por meio da identificação LGBTQI com a cultura pop. “Muitas vezes nos interpelam: ‘Tu já tentou não ser?’. Como se esse espaço, no qual habitam nossa sexualidade e nosso gênero, não devesse existir”, comentou Christian ao citar uma cena de um dos filmes da franquia X-Men como uma metáfora para a “saída do armário”. “E isso vem sendo usado em X-Men para pensar esse lugar de subalternidade e precariedade no qual LGBTQIs são colocados”, destacou.


O lugar de fala do jornalismo


Na conversa, também foi discutido o papel do jornalismo na questão da representatividade. O local de fala dos jornalistas se faz presente, na opinião de Felipe e Christian. Se uma redação é composta majoritariamente por homens brancos heterossexuais, assuntos relacionados ao feminismo, aos LGBTQIs e à negritude não estarão em pauta tão frequentemente. “O jornalismo, para além de gênero, também tem raça. A gente tá pensando em um lugar muito marcado para pensar esse saber”, explicou Felipe.


A dupla defendeu que, assim, quando um personagem LGBT, reconhecido na cultura pop, rompe essa barreira e aparece nas mídias hegemônicas, a narrativa muda. Se antes era considerado um ícone, agora sua identidade choca. Isso acontece nas HQs, quando personagens se assumem, nos livros e até em virais na internet. Felipe trouxe o exemplo de Leona Vingativa – um viral de 2009. Como webcelebridade, Leona é uma diva. Mas a mídia não tem sequer termos para falar sobre a personagem. “Esse jornalismo não dá conta nem de definir o que é Leona – o que seria muito fácil se perguntassem para ela, né?”, completou.


A representatividade, conforme explicaram Felipe e Christian, acaba sendo importante para abrir um diálogo sobre questões que são inferiorizadas na sociedade. A cultura pop se transforma em uma ferramenta para que esses temas ganhem visibilidade. Dessa forma, cenas como o beijo da novela ou o termo correto para se referir à Leona se tornam naturais. O debate pode ser acessado na íntegra pelo canal do LIC.

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