Especial

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2020 em capas e ilustrações
“Professores da Indústria Criativa indicam capas e fotografias que retratam de forma impactante os tempos atuais”
Pedro Hameister


Esteja você onde estiver, uma coisa é certa: 2020 está sendo o ano mais maluco e cheio de imprevistos da sua vida. Quando saímos de 2019, com certeza não imaginamos que estávamos entrando em um ano que seria marcado por uma pandemia de proporções globais, manifestações antirracismo e, no Brasil, uma conjuntura política cada vez mais confusa e sem rumo.

E, com tantos episódios bizarros acontecendo ao mesmo tempo, o papel da mídia fica ainda mais evidente. Se a função do jornalismo sempre foi informar ao público sobre os atuais eventos, isso se tornou muito mais necessário agora, com tudo o que vem acontecendo no mundo inteiro. Afinal, trazer a visão da Ciência, da Medicina, dos agentes públicos, dos cidadãos é o que os meios podem fazer  para nos ajudar enfrentar as incertezas de um hoje, que insistem em não passar. 

Porém, a informação não precisa ser transmitida apenas por meio dos textos das  reportagens, notícias e boletins. Fotos e ilustrações também dizem muito sobre sobre o que estamos vivendo. E isso se torna ainda mais útil quando a imagem for bem pensada e trabalhada, resultando em algo que fica marcado na memória de quem vê.

A professora Beatriz Sallet, do curso de Fotografia da Unisinos, explica que fotos impactantes são fundamentais no fotojornalismo. “Porém, com um olhar treinado para ver, os fotojornalistas conseguem se distanciar um tanto da cena mais explícita e chegar a uma construção simbólica, quando a semiótica trabalha”, diz a professora.

Pensando nisso, a equipe Mescla pediu para que alguns professores da Escola da Indústria Criativa sugerissem capas e ilustrações de jornais, revistas e cadernos que retratem de forma inteligente e criativa o início desta década. São ilustrações que mostram desde a pandemia do novo coronavírus, até acontecimentos ligados ao governo federal e as manifestações antirracismo que tomaram o mundo recentemente.

Confira:

O Globo – 10/05/2020

A escolha de Pedro Osório, professor do curso de Jornalismo, foi a capa do jornal O Globo do dia 10 de maio, período em que o Brasil passou das 10 mil mortes causadas pelo novo coronavírus. Aqui, ao invés de foto ou ilustração, a capa foi preenchida com nomes de pessoas que perderam a vida por conta da doença, para lembrar os leitores que as vítimas não são meros números, mas, sim, seres humanos com nomes, sonhos e histórias. “É impactante, pois o signo ‘palavra’  carrega um significado associado ao raciocínio, à compreensão, à explicação para além das sensações inerentes a outros signos”, explica o professor. “Mas a capa não deixa de carregar e causar também uma poderosa sensação, decorrente da identificação dos mortos, da explicitação dos seus nomes, cada um significando uma vida, um viver distinto, um sujeito único, que nos deixou para sempre.”

Caderno “Ilustrada”, Folha de S. Paulo – 20/06/2020

Já o fotojornalista e professor do curso de Jornalismo, Flávio Dutra, selecionou a capa do caderno “Ilustrada”, da Folha de S. Paulo, na edição do dia 20 de junho. Aqui, vemos o ator Mário de Frias, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para ser o novo Secretário Especial da Cultura, posando seminu em um ensaio que fez nos anos 2000 para o site Paparazzo. A capa, sexualizada com o sentido de desqualificar o ator que não tem experiência como gestor cultural, chamou a atenção do professor Dutra. “A maneira de se opor ao descalabro não é promovendo descalabros. Se contrapor à falta de ética é ser ético ao extremo. Usar qualquer arma à disposição é dar motivo para que os outros digam ‘imprensa lixo’”, argumenta o professor. “É irresponsável com o papel que a imprensa tem neste momento – pois a fragiliza, e é irresponsável quanto à luta contra a homofobia, pois a justifica”. De fato, uma capa memorável, mas pelos motivos errados.

Diversos jornais do Brasil todo usando a mesma capa – 23/03/2020

Nikão Duarte, professor do curso de Jornalismo, optou por uma capa publicada em diversos jornais do país inteiro. Periódicos como O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Zero Hora, entre outros, se uniram e publicaram capas idênticas em suas edições do dia 23 de março. Nela, vemos um fundo azul com os dizerem “Juntos vamos derrotar o vírus”, acompanhado também da hashtag #imprensacontraovirus. Trata-se de uma mensagem de união dos jornalistas para combaterem a pandemia do novo coronavírus por meio da disseminação de informações. “Foi chamativo pelo impacto coletivo e por avançar sobre um dogma do ambiente jornalístico: o furo, a exclusividade. Uma rara unidade na imprensa de referência brasileira, em nome de um bem maior, o combate à pandemia”, explica o professor.

New Yorker – 22/06/2020

O professor Everton Cardoso cruzou fronteiras e selecionou a capa da edição de 22 de junho da revista americana New Yorker. Aqui, foi retratado o episódio de assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, que gerou uma explosão de manifestações contra o racismo no mundo inteiro. “Essa construção dá a ideia de que a luta de um negro também é luta de todos os negros. E uma revista como a New Yorker trazer uma capa dessas tem muita força. Isso diz muito sobre o posicionamento editorial da revista. Não estamos falando de uma publicação leviana, a New Yorker é uma referência no mundo inteiro”, afirma Cardoso.

Foto por Roberto Parizotti, no Páginas Amarelas HQ’s – 13/06/2020

A professora Beatriz Sallet, do curso de Fotografia, selecionou uma foto compartilhada no Instagram da Páginas Amarelas HQ’s. De autoria de Roberto Parizotti, a foto foi tirada em São Paulo no dia 13 de junho, três dias após a reabertura dos shoppings na capital paulista. O fotógrafo tirou a foto de um ângulo em que o piso em frente ao shopping forma um crucifixo, dando a entender que o local é um caminho em direção à morte. “Esse primeiro plano revela semioticamente o resultado que foi constatado dias depois com a reabertura do comércio em SP: o aumento exponencial do número de infecções por Covid-19”, explica a professora.

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