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Ciberacontecimentos e suas influências
“Os pesquisadores Fabiana Moraes e Felipe de Oliveira foram os convidados para aula aberta do grupo de pesquisa LIC, mediado pelo professor Ronaldo Henn”
Josi Skieresinski


Na última sexta-feira, 19 de junho, o Grupo de Pesquisa do Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento (LIC Pesquisa), realizou uma aula aberta sobre Mobilizações antirracistas, antifacistas e ciberacontecimentos. O grupo , filiado ao PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos, e  coordenado  pelo professor Ronaldo Henn, recebeu para a live no YouTube, o jornalista e pesquisador gaúcho Felipe de Oliveira e também a jornalista e escritora pernambucana, Fabiana Moraes

Juntos, discutiram a influência dos movimentos que surgem na internet e se tornam uma grande potência de poder, tendo repercussão em setores da sociedade, sendo um deles, a política. Um dos exemplos mais recentes foi a onda de repúdio ao assassinato de  George Floyd por um policial,  nos Estados Unidos. Um fato que ocorre a milhares de distância da gente, vira parte de nossas vidas, implica em tomada de decisão e ações, como a organização de manifestações e passeatas, por exemplo.

Tratam-se de ciberacontecimentos, eventos muito analisados pelos pesquisadores de comunicação da Unisinos.. Na definição dada pelo professor Ronaldo Henn, são acontecimentos que por si só já são relevantes e midiáticos, e por estarem em uma rede pública ganham compartilhamentos a partir de narrativas próprias, e dependendo da força que adquirem, podem virar pauta para o jornalismo. 

Professor Ronaldo Henn conduzindo o debate no canal do LIC Pesquisa (Imagem: reprodução YouTube)

A virada de chave 

Ronaldo, que é pesquisador do CNPQ, relata que desde 2014, ele e o grupo de pesquisa começaram a perceber “um modo de articulação sombria e muito sinistra” em relação às deepfakes e desinformação nas redes, e que mais tarde se desenvolveriam junto aos grupos fechados do whatsapp culminando “na ascensão do pensamento neofascista”  que hoje está  em vários lugares do mundo, além do  Brasil e dos Estados Unidos.  Segundo o professor, esta cultura do ódio que culminou na eleição da extrema direita  nas eleições de 2018, aqui no Brasil, aparecia com muita clareza nas investigações que faziam no grupo de pesquisa LIC.

Subjetividade e a importância dos corpos 

Felipe, que pesquisa sobre Linguagem e Práticas Jornalísticas, traz à tona a discussão sobre as subjetividades do jornalismo e das narrativas, e de como cada detalhe importa e faz diferença no momento em que são abordados determinados temas. Trazendo para a atualidade, a subjetividade dos corpos, com o triste fato da execução de George Floyd, que marca o estalo para o jornalismo hegemônico de como é importante pensarmos esses outros corpos, como o corpo negro. Professor da Fabico na UFRGS recupera o fato da Globo News ter feito um painel apenas com jornalistas brancos para discutir o racismo, e que após muita revolta nas redes, a emissora  volta atrás e seleciona um programa formado por jornalistas negros para discutir o caso.

O pesquisador também relembra os movimentos de 2013 e analisa: “me parece que tem marcas de 2013, marcas da incompreensão de 2013, que nos impedem de avançar hoje”, Felipe diz no sentido jornalístico, pois lá em 2013 começou um cenário muito importante de reivindicações de direitos, mas que, na visão dele,  foi sequestrado pelo status quo e a extrema direita,  fazendo chegar ao resultado das eleições de 2018, tornando Jair Bolsonaro presidente. 

Imprensa antirracista e antifacista 

“A ideia de objetividade jornalística é hoje um dos grandes impeditivos para o estabelecimento de uma imprensa antirracista e também um impeditivo enorme para a ideia de uma  imprensa antifascista”, Fabiana Moraes, professora da Universidade Federal de Pernambuco começa sua fala com esses dois apontamentos. Segue seu pensamento tecendo críticas a imprensa brasileira, e diz que o jornalismo de grandes empresas segue tratando os problemas como se fosse do outro e não de si. 

Apontar o racismo institucional ainda não é algo fácil, diz, inclusive para a imprensa.. “Nos acostumados a falar sobre o racismo em cadernos especiais, em teses, dissertações e artigos, mas não nos colocamos como atores importantes nessa formatação, por isso acredito que esse reposicionamento é necessário”, Fabiana, que já foi entrevistada  em outra oportunidade com o Mescla, fala da tentativa de reposicionamento como jornalista e pessoa que pensa o jornalismo.

A autora de O Nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem, destaca também a importância de entender os processos que estão acontecendo agora, seja os que envolvem George Floyd, em Mineápolis, como os assassinatos dos jovens Agatha e João Pedro, no Rio de Janeiro. Por que outros assassinatos de pessoas negras não conseguiram mobilizar tanto quanto o de Floyd? “Esse é um ponto muito importante de discutir, de como naturalizamos esses assassinatos e não é difícil naturalizar, quando a gente tem centenas deles por dia, e muitos desses assassinatos não foram filmados e mostrados como o de Floyd que provoca todos esses acontecimentos”. 

Acesse o debate na íntegra no canal do grupo Lic Pesquisa.

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