Especial

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Brincar é coisa séria
“Entre outras coisas, o Natal é época de lembrar dos brinquedos. E para recordar dos nossos - e reaprender a brincar - visitamos a Brinquedoteca da Unisinos”
Bruna Lago


Sentamos, Pedro e eu, em cadeiras de fórmica com menos de 50 cm de altura, e olhamos ao redor, tentando puxar da lembrança como interagir com os brinquedos. A maioria de nós vai parando de brincar na adolescência, quando ganhamos outros interesses, como sair com os amigos, praticar algum esporte ou um hobby – que geralmente nos encaminha para profissões que um dia gostaríamos de ter. Pensamos que essa retomada seria fácil, mas ficamos um bom tempo tentando recuperar o entusiasmo que surgiu quando nos foi sugerida esta matéria. Brincar, de repente, se tornou algo muito sério.


Um dos significados da palavra brincar é simular situações da vida real, representar personagens que enfrentam problemas no seu universo, e desenvolver soluções. E essa simulação é importante, tanto para os pequenos quanto para os adultos. 


A psicóloga organizacional Adriana Maria Scheneider trabalha no Programa Educação e Ação Social (Educas). Ela utiliza bastante a brincadeira como método de socialização e desenvolvimento de crianças e adolescentes. “Brincar é constitutivo no desenvolvimento saudável”, argumentou. “A partir do momento que a criança brinca, ela elabora conflitos internos. Se pensarmos em uma criança pequena que não tem a linguagem desenvolvida, ou sequer tem uma linguagem, ela vai se comunicando com o mundo e com os objetos durante as brincadeiras”, explica Adriana. 

Brinquedos convencionais ou de materiais da natureza, todas as formas de imaginar são possíveis (Foto: Pedro Hameister)


Segundo a psicóloga, é a partir desse desenvolvimento motor, cognitivo e emocional da brincadeira que as crianças começam a trabalhar medos e angústias. Os sentimentos humanos, que aparecem mesmo quando somos muito pequenos, precisam ser desenvolvidos e trabalhados com as brincadeiras.


“E, claro, conforme vamos crescendo, as brincadeiras vão mudando, vão ficando mais complexas, sempre pensando no desenvolvimento saudável”, acrescenta a psicóloga. No trabalho de Adriana, atendendo crianças, a brincadeira também é um instrumento de avaliação. “Buscamos investigar como elas brincam. Se brincam, como utilizam o brincar no dia a dia. Isso auxilia muito a pensar, porque, se uma criança não brinca, deve haver algo que faz com que ela não tenha estímulo e interesse. Já é um indicativo de que há questões de saúde, emocional ou cognitiva para trabalhar nela.”


Um lugar para brincar

Existe uma brinquedoteca dentro da Unisinos, em São Leopoldo, equipada com brinquedos e materiais disponíveis para os visitantes soltarem a imaginação. À cargo da professora Marita Redin, fica logo na entrada da universidade. Mesmo assim, muitos alunos não sabem do que se trata. 


No final da tarde, quando fomos conhecer o espaço, a monitora Gabriela Selau, estudante do 6º semestre de Pedagogia, estava repintando os móveis da cozinha de brinquedo. A brinquedoteca é dividida em pequenos espaços: a casinha, os materiais para criação de novos brinquedos e os de montar, os elementos da natureza e o fundo do mar. Cada espaço da sala é pensado para proporcionar uma nova experiência sensorial. Aos poucos, vamos comparando sensações e sentimentos de quando éramos crianças e o mundo parecia cheio de possibilidades.


“A nossa proposta aqui não é usar brinquedos prontos, mas priorizar as coisas que podem se transformar em brinquedos”, explicou Marita, especializada em Educação Pré-Escolar pela Universidade Federal de Sergipe. Na brinquedoteca, além dos brinquedos, os itens de uso criativo são chamados de “materiais não estruturados”. “São vários tipos de objetos, às vezes da natureza, ou que se usa em casa, com uma finalidade própria e definida, mas que a criança dá outro significado”, comentou a professora. 

A professora Marita cuida da brinquedoteca desde 2010 (Foto: Pedro Hameister)


Marita defende que, quanto mais abertos são esses objetos, mais possibilidade de invenção eles têm, e isso é altamente benéfico para as crianças. “Se pegar uma caixa de papelão, é um brinquedo fantástico. Mas se levar uma caixa para dentro da escola, os pais não vão entender. Eles querem um jogo didático, como se o jogo didático fosse ensinar a criança. Ele vai ensinar algumas coisas, algumas regras, claro, mas é isso só.”


A ideia de que toda brincadeira precisa ensinar alguma coisa é errônea, disse Marita, e muitos de nós podem compreender isso bem se lembrarmos de algumas brincadeiras sem sentido, possivelmente, mas que fizeram parte da nossa infância de forma significativa.


“Tem um autor que diz que, quando a criança brinca, ela aprende a brincar. E é uma coisa difícil! A gente pensa que é fácil, mas não é. Uma vez, uma mãe disse que levava as crianças no teatro, no cinema, no parque, mas não conseguia ficar uma hora brincando”, contou Marita. Quando crescemos, perdemos parte da facilidade de brincar, como eu e o Pedro comprovamos na prática ao observar aqueles blocos de madeira e bonecas simpáticas. O adulto busca outras formas de escape para as necessidades de organização mental.


“O ser humano tem essa capacidade lúdica, vai procurando outras formas de brincar. Tanto que, quando tu escolhe uma profissão que gosta, é uma profissão na qual essa criança interior ainda está viva, porque mantém as ideias da infância como a possibilidade de criação do novo. As brincadeiras ajudam a significar a vida”, comentou a professora. “Eu acho que a vida devia ser assim. Não é que vamos brincar no trabalho. O brincar é tão intenso, muito importante para a criança. Tem uma dimensão tão autêntica que, se o adulto fosse fazer a fundo alguma coisa que satisfizesse as necessidades vitais, estaria sempre de bem com a vida.”


Porém, existem adultos que não conseguem trabalhar com algo que gostam muito, e isso também não é necessariamente errado. Como a professora explicou, nesses casos, costumamos achar outras formas de nos divertir e expressar nossas ideias infantis sobre a vida. Porque brincar também é criar, é do âmbito da criação. Como as crianças não brincam do mesmo jeito, apesar de serem contextos parecidos, os adultos também reinventam as mesmas atividades. Em um mundo perfeito, nosso trabalho viria a ser uma extensão das nossa brincadeiras. 


Brincando de novo


Com a supervisão de Marita, igual a quando éramos pequenos, ganhamos uma caixa de areia colorida e a missão de criar alguma coisa disso. Foi infinitamente mais difícil do que pensamos, porque a primeira ideia sempre é criar algo prático, artístico ou tão genial que seja impossível mensurar. Mas crianças não se preocupam com isso, elas apenas brincam. Surgiu na areia um parque, um córrego e alguns peixes desproporcionalmente grandes. Valeria uma estrelinha na pré-escola. 

Habilidades manuais e diversão (Foto: Pedro Hameister)


Depois disso, um desafio maior: argila. Eu, que me lembrava de boas habilidades manuais com massinha de modelar, fiquei frustrada ao perceber que talvez não fosse tão boa assim. Perguntei para Marita sobre as crianças de hoje e a relação com o mundo virtual. Acostumada à adaptação delas, a professora não é tão pessimista como a maioria de nós seria.


“Elas pararam de brincar com aquelas coisas que a gente enxerga como brincadeira, mas foram substituindo. Não brincam mais de jogar bola na rua, mas vão brincar de videogame dentro de casa, por causa do perigo”, explicou, com sensibilidade. Como as primeiras gerações que já nasceram imersas na tecnologia estão apenas despontando, uma análise de todos os efeitos só poderá ser feito mais tarde. 


“Porque a tela de um tablet, de uma tv, ou um jogo não é um material verdadeiro para a criança. Ele é um mediador entre o mundo real e um outro mundo, de fantasia”, disse Marita. “O excesso de contato com isso vai interferir, claro, no desenvolvimento dessa criança, mas como vai interferir, ainda não temos como comprovar.”


Presente em um grupo de conversas lúdicas sobre assuntos educacionais, a professora comentou que, entre psicólogos, psicanalistas e pediatras, a relação das crianças é frequentemente discutida. Casos como obesidade, sedentarismo, desconexão com o mundo real são alguns dos efeitos já observados que podem ser ligados ao excesso de uso virtual. A psicóloga Adriana relembra que existem estudos que recomendam um limite de tempo estipulado para cada fase da infância. Crianças com menos de dois anos sequer deveriam mexer em um eletrônico.


“A criança se coloca passiva diante de um universo cheio de estímulos, e isso não é saudável. O brincar envolve essa condição ativa de pegar, manipular, jogar, derrubar, quebrar e mexer”, explicou ela. Isso remete aos brinquedos de montar e construir que existem aos montes na brinquedoteca. Na primeira infância, é crucial que os pequenos possam manipular e encaixar, desenvolvendo suas habilidades. 


“O brincar e o brinquedo são sempre importantes, mas também é importante que os pais brinquem com os filhos nesse processo”, lembrou Adriana. Mesmo que seja difícil para os adultos aprender novamente como soltar a imaginação, essa participação dos pais auxilia na aprendizagem das crianças. Afinal, se no presente o importante é brincar, no futuro, o que ficam são as boas lembranças. 


Fico feliz que as minhas sejam boas e suficientes, porque percebi que talvez leve um tempo para conseguir montar alguma coisa com argila de novo. O Pedro foi melhor do que eu nisso, mas me considerei ganhadora na brincadeira com areia. E é disso que a brincadeira trata, no fim, saber perder, ganhar e estar pronto para a próxima rodada.


A brinquedoteca fica aberta todas as tardes, a partir das 17h, para as crianças da Escola Infantil Canguru brincarem. Se você, caro leitor, passar por lá, terá a chance de conhecer o espaço e ver as crianças brincando. Escolas e grupos de até 20 alunos podem marcar uma visita. Além disso, o espaço é usado para aulas com alunos de Pedagogia e especialização em Educação Infantil. 


Assista o vídeo abaixo para ver como foi a tentativa de dois repórteres tentando brincar (sem muito sucesso).

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