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A poética do invisível
"Conheça o trabalho da artista Tuane Eggers"
Guilherme Machado


Tuane Eggers é fotógrafa, iniciou sua trajetória no curso de Jornalismo da Univates, em Lajeado, cidade onde cresceu. Por sentir falta de uma base mais teórica no campo da estética, decidiu ingressar no mestrado em Artes Visuais, no Instituto de Artes da UFRGS. Tuane queria falar de poéticas visuais, mais precisamente a poética dos fungos, sim, este é o título do seu trabalho. 

“Esse tema dos fungos é algo que me atrai há bastante tempo. Eu comecei a me interessar por eles, primeiro, esteticamente. Acho que remete a um universo onírico”, conta a artista. Tuane percebeu que estes pequenos seres invisíveis têm uma importância muito grande para os ciclos da natureza e decidiu registrar esse universo em seu projeto de mestrado. 

“Eu vejo eles como um agentes da transformação. Eu gosto muito de pensar que, às vezes, o que a gente acha que é o fim de uma coisa, na verdade, é só uma etapa de um ciclo que é muito maior. Gosto de pensar no sentido da transformação. Principalmente, nesse momento em que está todo mundo sem esperanças, é importante pensar que é só um ciclo de algo além” – Tuane Eggers.

“Eu estou trabalhando com experimentações nesse sentido, que é a aplicação de fungos em fotos impressas”, diz. Para aplicar a técnica Tuane imprime suas fotos em tamanhos pequenos em papel matte ou algodão. Em seguida, a artista aplica alimentos sobre a foto, como laticínios ou mesmo frutas. Os dias passam e os fungos se proliferam, então, ela refaz a foto da mesma imagem, o que resulta em uma sobreposição de imagens.

Fotografia com aplicação de fungos | Foto: Tuane Eggers

Autodidata

“Fui autodidata na área da fotografia. Eu comecei a fotografar com uns 15 ou 16 anos de uma maneira bem experimental, usava a câmera do meu irmão que era muito simples”, conta a artista. Sua cidade natal, Lajeado, tem uma população de aproximadamente 70 mil habitantes. Para Tuane, viver em uma cidade do interior a fez usar a fotografia para criar e perceber o espaço. “Fazia muitos auto-retratos e fotografava muito o quintal da minha casa”, conta. 

Fotografia com aplicação de fungos | Foto: Tuane Eggers
Tuane costuma viajar para Maquiné com amigos, onde faz suas fotos. | Foto: Tuane Eggers

No início, a artista publicava suas fotos em seu Fotolog. Para quem não conhece o Fotolog foi um site de fotografias, parecido com o Instagram, que já deixou de existir. “Naquela época, Em 2008, aconteceu uma coisa curiosa pra mim, me convidaram para participar de um filme, um longa metragem chamado “Os famosos e os Duendes da Morte”, que um diretor chamado Esmir Filho produziu”, conta a artista. 

Esmir estava em busca de jovens que se relacionavam com a internet, como uma forma de mostrar suas criações nesse ambiente. Tuane interpretou Jingle Jangle e teve a oportunidade de mostrar suas criações que ela postava no Flickr e no Fotolog. O projeto fez a artista acreditar mais no próprio trabalho como um potencial artístico. 

Um potencial que também chamou a atenção de outros artistas como Selton Mello (Sim, ele mesmo!) que dirigiu “O filme da Minha Vida“, 

“Um dia uma produtora de elenco me ligou e falou: “Tuane, o Selton Mello tá querendo te conhecer, eu posso passar o teu contato pra ele?… Eu fiquei, o quê? Como assim? Ele tinha assistido o filme do Esmir e foi pesquisar mais sobre o meu trabalho e minhas fotos.” – Tuane Eggers

Na obra de Selton Mello, a atriz Bruna Linzmeyer interpreta Luna, uma fotógrafa que se apaixona por Tony (Jhonny Massaro). Tuane acabou produzindo as fotos que aparecem no filme como tendo sido feitas pela personagem principal, Luna. O trabalho dela incluiu fotografar os atores, e de quebra, conhecer uma de suas referências, o fotógrafo e cineasta Walter Carvalho. 

Foto de Tony Terranova, personagem de Johnny Massaro | Foto: Tuane Eggers
Casal de protagonistas Tony e Luna (Johnny Massaro e Bruna Linzmeyer) | Foto: Tuane Eggers
Imagens de “O filme da minha vida” | Foto: Tuane Eggers

Mais além

Tuane trabalha muito com sobreposições, portanto, prefere a fotografia analógica. “Eu seleciono quantas imagens eu quero, aí ela segura o filme da câmera. Então, eu faço uma imagem, ela segura, e eu faço a outra”, explica a fotógrafa sobre a técnica de dupla exposição em que o negativo pode ser exposto mais de uma vez, o que cria o efeito de suas fotos.  

Foi assim que eu descobri outro tempo na fotografia, antes, eu estava acostumada a ver as imagens no momento em que eu fazia. Agora, é outro processo. Tem que esperar. Lidar com a espera pode ser algo angustiante, mas, também permite esse reencontro com a imagem. Então, também é lidar com os erros, acho que a imagem se torna especial, por ser mais única. – Tuane Eggers

Em novembro, a fotógrafa foi convidada para expor seu trabalho na cidade de Porto Alegre, durante o Festival Kino Beat. O convite veio do curador Gabriel Cevallos depois de conferir o trabalho dela no Congresso Cósmico de Ecologia das Práticas. Juntos, eles pensaram em uma forma diferente de expor o trabalho de Tuane, no lugar de telas, optaram por outdoors. “Eu vejo a publicidade como uma coisa meio agressiva e eu acho que colocar os fungos lá, esses seres pequenos e não perceptíveis é uma forma de dar importância a eles.”, conta. 

Tuane sempre quis atuar na transformação das coisas. Para ela, o jornalismo regido por interesses, talvez, não fosse o caminho. “Aos poucos percebi que muitas coisas são políticas [… ] Também tem muito a ver com a natureza. Trazer esses seres invisíveis e voltar o olhar para eles também é um ato político”, conta a artista. 

Tuane já participou de exposições internacionais no Japão, Rússia e Dinamarca, infelizmente, nunca pode estar presente em nenhuma delas. Seus cogumelos que já viajaram o mundo, na verdade vieram de um lugar mais próximo, uma pequena cidade do litoral gaúcho chamada Maquiné. Suas fotos  nascem sempre de um ambiente íntimo, como nas viagens com os amigos, quando ocorre sua poética dos fungos. 

Antes de ir embora leia esta poesia selecionada pela artista. 

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado.

Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros

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