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Vestir para empoderar
“O Bazar Plus Size, realizado em Porto Alegre, é a oportunidade de empreendedores se lançarem neste segmento. E dos usuários levantarem a autoestima”
Josi Skieresinski


Usar uma peça de roupa vai muito além de apenas vesti-la. Há quem diga que ela pode despertar, provocar, representar quem somos. Mas não são todas as pessoas que conseguem montar um look sem grandes complicações.Problemas como tamanho inadequado e modelo que não fecha com o corpo são comuns. Mas tem quem enfrente situação pior: não consegue achar roupas que lhe sirvam de jeito algum. Esse é o caso de muitas pessoas gordas.

Há ainda outros detalhes que as impedem de terem uma boa experiência na hora de adquirir uma roupa: os espaços físicos das lojas. Muitas delas não têm provadores adequados ou espaço entre os expositores, prejudicando aqueles clientes “fora do padrão”. Para a empreendedora Viviane Lemos, 39 anos, proprietária do Bazar Plus Size, em Porto Alegre, o mercado da moda e de serviços ainda não está preparado para atender esse público. 

“Tem muita possibilidade para atender o público gordo com excelência, e as pessoas querem consumir. Elas só não consomem porque não têm esses serviços. Os empresários estão deixando de ganhar dinheiro. E quando tu falas isso para eles, é só a partir daí que tu vais conseguir mudar a vida das pessoas gordas, porque é o dinheiro que manda”

Viviane Lemos

Oportunidade, criatividade e persistência 

A lacuna foi vista como oportunidade por Viviane há três anos. Naquele momento, ela trabalhava como secretária jurídica, mas a renda não era suficiente para pagar uma escola particular para o seu filho. Então, passou a revender lingeries, e foi aí que teve uma surpresa: o público mais interessado era justamente formado por mulheres gordas. “Eu entendi que era nesse segmento que eu tinha que investir”, lembra. Animada com a ideia, passou a organizar bazares. Para isso, chamou pessoas conhecidas que vendiam outros tipos de roupas e artigos, como bijuteria, artesanato, além de lanches. A partir daí, outros empreendedores começaram a se interessar e quiseram fazer parte do bazar. 

A primeira edição do Bazar Plus Size de Porto Alegre ocorreu em 3 de dezembro de 2016, há exatos três anos. Nele, Viviane reuniu mais de 100 pessoas interessadas em consumir moda plus size em Porto Alegre. Dois anos depois, ela já contava com uma sócia, a Gizela Fonseca, de 38 anos.

Vivi e Giza, organizadoras da feira
(Foto: Josi Skieresinski)

O evento já está na 16ª edição, e o último ocorreu no início de dezembro. A feira reuniu mais de 30 expositores, com marcas que vêm de todo o país. A entrada é solidária: doação de um alimento não perecível. 

A empresária conta que as mulheres saem da feira realizadas. “Poder escolher é uma experiência que as pessoas não vivem até virem aqui. As mulheres se transformam”, comenta, orgulhosa. Para que a experiência das clientes seja satisfatória, os expositores devem cumprir quatro pré-requisitos: vender roupas do tamanho 46 ao 56, toda produção deve ser brasileira, não pode haver competição de marca e também não pode misturar tipos de produtos. 

Durante o bazar, há também, em sua programação, painéis e workshops. Nesta edição, estavam presentes: Natália Godoi, que falou sobre “as previsões para 2020 segundo os astros”; a personal stylist Lisy Reis, que trouxe “as tendências na moda para o próximo ano”; e a miss plus size e maquiadora Bianca Moreira, que ofereceu um workshop de automaquiagem. Teve ainda um bate-papo sobre “empreendedorismo feminino, desafios e projeções” com Roberta Capitão, idealizadora do Movimento Empreendedoras da Restinga, e Camila Oliveira, proprietária da marca Rainha Nagô, de São Paulo.

Lisy Reis falou sobre as tendências da moda para 2020
(Foto: Josi Skieresinski)

E os homens plus size? Como a moda pode transformá-los? Moda é coisa de homem, sim 

Outra temática que envolve o mundo plus size e não é muito falada é a moda masculina. No Bazar Plus Size, os homens também se sentem representados. Exemplo disso é a marca de camisetas Coisa de Urso, que retrata representatividade, orgulho e empoderamento. Uma mescla que envolve moda plus size e a temática LGBTQI+. 

Na cultura LGBTQI+, existe a tribo dos Ursos ou Bears, que são os homens cisgêneros, gays, que são caracterizados por serem grandes, peludos, barbudos e, às vezes, gordos. Passando uma imagem masculinizada e robusta, contrapondo o estereótipo do gay padrão, magro, depilado, de academia e que, às vezes, performa uma feminilidade. Foi então que Dérick Ramon, de 28 anos, e Luiz Ferreira, de 39 anos, tiveram uma ideia.

Namorados há cinco meses e sócios há dois, ambos queriam começar uma etapa nova em suas vidas e uniram suas expertises. Designer gráfico, Dérick produz os conceitos, as artes e as estampas da Coisa de Urso. Luiz, graduado em Logística Internacional, administra o negócio. Eles, então, aproveitaram o atual momento de vida, da aceitação e empoderamento do corpo, com algo que pudesse ser rentável e ainda ajudar outras pessoas. “Muita gente tem medo de usar a palavra ‘gordo’, mas a gente é gordo. E essa palavra não pode ser vista como ofensa ou como uma coisa pejorativa”, avalia Luiz sobre a ideia inicial da marca.

Luiz e Dérick são os criadores da Coisa de Urso
(Foto: Josi Skieresinski)

Juntos, Luiz e Dérick perceberam que o mercado só oferecia roupas masculinas maiores, que eram muito sérias, e não diziam muita coisa sobre eles. A Coisa de Urso faz justamente o contrário: pensa e elabora seus produtos a partir de conceitos, refletindo essas ideias em cada mensagem, ousando nas estampas de suas camisetas.

Ideias que vão além 

Desde o logotipo, que foi inspirado na primeira foto do casal, a Coisa de Urso respira conceito. Ela oferece diversas linhas de camisetas, cada uma pensada para determinada ocasião. Há a “party”, para arrasar nas festas, a “pride beard”, que fala do orgulho da barba – essa é a única linha da marca que existe para todos os tamanhos; o restante é direcionado ao público gordo, e a “bear power”, que passa a mensagem de empoderamento LGBTQI+ e do corpo gordo. Destaque também para as linhas casuais, básicas, a “bear bits”, com a temática de jogos, e a “bear beach”, que são regatas.

Todo esse conceito passa pela aceitação, pelo empoderamento do corpo masculino. Luiz vê como uma resposta a tudo que ele já enfrentou: “É a nossa forma de empoderar o corpo masculino, porque não se fala sobre isso. E tem muito homem gordo que sofre bullying”.

Os guris correram muito nestes últimos dois meses para deixar a empresa alinhada e pronta para o mercado. Mas eles não querem parar por aí. Já estão pensando na linha de empoderamento feminino. “A linha ‘girl power’ também vem para mostrar que o corpo grande e gordo é tão bonito quanto qualquer outro”, planeja Luiz. 

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