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Inspiração, Gelatina e outras histórias
"Acompanhe um dia na vida da projetista de móveis que virou boneca e vem conquistando o imaginário infantil com livro e contação de histórias"
Lisandra Steffen


Assim que cheguei na Praça do Imigrante, em Novo Hamburgo, me deparei com diversas crianças animadas para as atividades que estavam ocorrendo naquela sexta-feira pela manhã. A 37ª Feira do Livro da cidade contou com diversas atividades culturais para os estudantes da região, mas uma figura se destacou no local. Atravessei as bancas de livros, desviando de turmas que não paravam de chegar, e, assim que consegui me distanciar daquela multidão, enxerguei uma boneca vestida de roxo, sapatos com o triplo do tamanho normal e um guarda-chuva mágico. Sabia que havia encontrado a Gelatina.


Quando sento em frente ao Espaço Hora do Conto, passo a conversar com Cleia Haubert, atriz e idealizadora da Cia do Riso, que dá vida à Gelatina. Artista inquieta, Cleia fez teatro durante a adolescência e, quando adulta, foi projetista da loja de móveis que manteve por muitos anos. Há 18, no entanto, paralelamente, nascia a Cia do Riso, quando ao fazer uma substituição em um evento infantil como mestre de cerimônias, em um parque de Xangri-Lá, Cleia caiu nas graças de Caburé, um milionário excêntrico da cidade. A partir daí a produtora de teatro da atriz ganhou vida e hoje a Cia do Riso tem várias frentes de trabalho: produz e organiza eventos e espetáculos com exclusividade, anuais ou regulares. “É muito amplo o trabalho da Cia, mas acaba centralizando no projeto que tenho de vida, porque eu faço parte da direção, do figurino, da maquiagem, da criação de texto, etc.”, contou a atriz.


A Gelatina foi a personagem que agradou Caburé, sendo a responsável pelo pontapé inicial da Cia do Riso. Toda a vez que perguntava sobre a boneca, Cleia sorria. O orgulho que sente da personagem é refletido nos olhos da artista. “Ela é o meu exagero, traz referências das minhas ideias de quando eu era criança, do meu imaginário”, explicou. Na infância, Cleia achava que era Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, e assim surgiu a construção da personagem. Durante sete anos, Cleia e Gelatina trabalharam com crianças no parque de Caburé, mas a personagem não é querida só pelo público infantil. Ela faz apresentações para desde o ensinos fundamental, passando pelo médio e chegando até os adultos. 


Depois de tanta experiência, Gelatina resolveu virar escritora (com a ajuda da Cleia, é claro!), e a primeira edição, realizada em parceria com a Livraria Kadernu’s, contou com mil livros que esgotaram já em outubro deste ano. Cleia resolveu fazer o livro com Carlos Hollmann, proprietário da Kadernu’s, já que ambos têm uma visão parecida sobre o conceito de Feiras de Livros. 


É assim que A Terra do Lelé conta a história da criação de Gelatina, que surge do imaginário de Lelé, uma criança que quer ser rei do planeta dele. Juntas, Gelatina e Cleia, tratam de temas importantes e que já devem ser abordados com os pequenos. “Na terra do Lelé, todo mundo é colorido, então as pessoas podem ser da cor que quiserem, logo, elas podem ser do jeito que quiserem”, explicou. A artista, que se define muito como mãe – das filhas e também de todas as pessoas que interagiram com ela através do teatro -, vê o livro também como um filho. Talvez, por ter projetado móveis por tanto tempo, os objetos da vida de Cleia acabam criando vida também. “O livro é um ponto de partida para mim, para que eu possa trabalhar todos esses assuntos que acho pertinentes. Então, eu tenho que começar a carregar esse filho para os lugares para onde vou”, comentou. A história contada por Gelatina tem ilustrações desenhadas por Cleia, que traz a identidade da personagem para as páginas. 


Neste momento de minha conversa com Cleia, o público que está no Espaço Hora do Conto começa a demonstrar que parece ser bem exigente. Sentados nos tapetes de EVA, as crianças da Escola Municipal de Ensino Infantil Zozina Soares de Oliveira esperam ansiosas pelo início da apresentação. Cleia se despede de mim e dá lugar, totalmente, a Gelatina. Tagarela e risonha, a boneca agrada o público nos primeiros minutos. O calor não parece atrapalhar tanto as crianças, que ficam atentas a cada movimento da personagem. “Todo mundo tem uma história para contar, mas, agora, eu vou contar a minha história”. Interagindo com o público do início ao fim, nenhuma contação de histórias de Gelatina é igual, já que ela trabalha com o improviso. Metade do espetáculo é o que a platéia oferece e a outra metade é o que já foi idealizado antes. 


Depois da primeira apresentação do dia, sigo com Gelatina para o camarim. Ela tem mais três apresentações e precisa se preparar para a próxima. Cleia explica que Gelatina é sempre a mesma, mas a linguagem muda de um público para o outro. A boneca é tão bem recebida por onde passa que é difícil tirar o figurino e voltar a ser a Cleia. “Esse mundo lúdico afasta a gente da realidade e é maravilhoso”, explicou. 


A dupla já passou por diversas experiências juntas e elas me contaram algumas. Momentos sempre significativos para as duas são os trabalhos com alunos de inclusão. Cleia conta que na primeira vez que fez uma apresentação na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), uma pessoa com problema de visão na platéia dava muitas gargalhadas durante o espetáculo, apenas com a percepção auditiva. Além disso, as apresentações em hospitais também marcam a vida das duas. “Isso desconstrói as coisas que a gente pensa”, finalizou. 


Desde o começo de minha interação com Cleia e Gelatina, combinamos uma brincadeira: que a artista deixaria a personagem entrar em cena para responder minhas perguntas. Peço, então, para a boneca me contar o que aprendeu com a Cleia. “Além de fazer graça e trazer informação de acordo com as coisas que vão se transformando no mundo, ela ensinou a me adaptar a tudo que vemos de novo”, explicou. Nesse momento, Cleia volta para dar a sua resposta: “eu não preciso envelhecer nunca, posso estar sempre viva com essa criança que está dentro de mim”. 


Finalizando nossa entrevista, pergunto se há algo que uma gostaria de dizer para a outra. Gelatina levanta, serve um copo de água e fala, com sua voz característica, meio enrolada e infantil, “ai, mas que pergunta difícil”! Com o silêncio que se instaura, é quase possível ouvir as duas pensando juntas. Depois de uma risadinha, Gelatina resolve começar, “não envelhece, porque eu preciso de ti”.


Cleia explica que o mais interessante de seu trabalho são as lembranças que vai acrescentando na sua trajetória. “É meio melancólico, mas acho que é o que tem de mais legal na vida, tu fazer coisas enquanto tens vitalidade, e depois poder envelhecer e visitar essas memórias. Então, obrigada por isso, Gelatina”, confidenciou com emoção.


A obra A Terra do Lelé, de Cleia Haubert, pode ser encontrada na Livraria Kadernu’s, com a escritora (pelo e-mail: ciadorisonh@gmail.com) e, em breve, estará disponível para vendas online. Confira o trabalho da artista na página do Facebook da Cia do Riso.

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