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Música para (re) existir
“Alunos dos cursos de Produção Fonográfica e Realização Audiovisual (CRAV) produzem CD e documentário com indígenas Mbya Guarani, em prol da preservação da música e da história”
Bruna Lago


A expressão Araí Ovy tem uma pronúncia complicada, algo como Araí Ouan, com mais som de U do que V, embora o V também esteja presente.  Eu, pelo menos, não me arrisco a falar sem um treino antes. Araí Ovy significa “céu azul”, e é o nome do grupo de músicos da aldeia Ka’aguy Porã, formada por mais ou menos 80 pessoas. O Mescla foi até a aldeia em um dia em que o céu estava azul o suficiente para honrar o nome indígena, e acompanhou uma experiência incrível produzida pelos alunos do curso de Produção Fonográfica em parceria com a gravadora experimental Sigmund Records.

A viagem até a aldeia na cidade de Maquiné, na região litoral do Rio Grande do Sul, integra o cronograma de atividades extra curriculares dos alunos de Produção Fonográfica que também integram a gravadora experimental: um CD com músicas Mbya Guarani. No início do ano, os alunos entraram em contato com a aldeia e conversaram sobre as demandas. Para eles, era a oportunidade de produzir um material diferente e real; para os indígenas, a chance de preservar sua cultura e de poder vender sua música. 

No dia da visita que o Mescla acompanhou, estavam presentes Marina Tabajara Brilmann, estudante do 6° semestre de Produção Fonográfica; Chrístian Vaisz, professor do mesmo curso e coordenador de projetos na Kiko Ferraz Studios; e a esposa dele, Crislei Gerhardt Vaisz. Marina e Chrístian levaram as quatro músicas gravadas ali, com o coral, para a aldeia ouvir o trabalho final.

A produção e venda de artesanato é uma das fontes de renda na aldeia. (Foto: Bruna Lago)

Durante as primeiras gravações, surgiu a possibilidade de realizar um documentário, um desdobramento da necessidade de preservar a herança cultural em um outro formato. O pano de fundo da produção é o grupo musical Araí Ovy. O audiovisual trata de aspectos culturais, como a idealização que fazemos dos indígenas e a forma como eles se adaptam a outras culturas, característica que pode ser citada, erroneamente, como uma perda de identidade. Para essa produção, a parceria da vez foi com os alunos do Curso de Realização Audiovisual (CRAV), com direção de Pedro Valadão, aluno da Unisinos que concorreu com um curta no Festival de Cinema de Gramado.

A produção do CD

O coral Araí Ovy é formado por treze pessoas, na sua maioria crianças, e coordenado por Romário Benites da Silva, o professor dos costumes indígenas na aldeia. Dos treze,  quatro também tocam violão, violino, cajon — um instrumento de percussão feito de madeira — e um chocalho produzido com sementes secas. Diferente da cultura educacional não indígena, a cultura Mbya está pautada pela oralidade, contar histórias e cantar são parte dos ensinamentos. 

As diferenças culturais não atrapalham na compreensão dos sentimentos envolvidos, e a estudante Marina tem consciência de que a confiança que conseguiram não pode ser desperdiçada. “Desde o começo, nós queremos fazer algo e devolver para a aldeia. O que sempre acontece é que as pessoas só procuram os indígenas para conseguir alguma coisa, gravar, fazer entrevista, e eles não ganham nada com isso”, ressalta.

“As pessoas dizem: são índios, mas não parecem mais índios”. O estereótipo indígena é uma das abordagens do documentário produzido pelo CRAV. (Foto: Bruna Lago)

As primeiras visitas feitas pelos alunos no início do ano foram para conhecer a aldeia e as demandas, como as músicas preferidas por eles, e o processo de produção. Além destas, questões antropológicas voltadas à preservação e também outras legais,  como a forma de venda do CD. Uma das decisões tomadas, foi que as músicas seriam gravadas na aldeia, já que seria mais difícil deslocar as crianças até um estúdio em Porto Alegre. Aí entraram as técnicas fonográficas do curso, pois cada cada instrumento foi gravado separadamente, e o volume foi nivelado na mixagem para que ficasse o mais próximo possível do som que se ouve ao vivo. Para gravar os instrumentos, era necessário que os gravadores pudessem captar em quatro canais simultâneos. 

Outro aluno que esteve presente nas gravações foi Leonardo Reis, do curso de Produção Fonográfica. “Nos acostumamos a gravar em estúdio, então foi uma coisa inesperada, em um ambiente muito diferente. Tivemos que usar tudo que aprendemos, mas de uma forma nova, adaptando para a realidade deles”, explicou Leonardo. Um dos fatores que tiveram de levar em conta foi a falta de eletricidade na aldeia. “A luz começa no nascer do sol e termina quando ele se põe. Chegamos cedo, umas seis e meia da manhã, e usamos gravadores portáteis.”

Pronto para ser ouvido

No dia que acompanhei a visita, Romário reuniu alguns dos membros do grupo para ouvirem as músicas gravadas, mas nem todos puderam ir por causa das suas funções rotineiras. Ao redor do computador, usando fones de ouvido, eles ouviram atentamente, apreciando o resultado da parceria. As crianças se dividiam para ouvir suas próprias vozes, e batiam os pés no ritmo, acompanhando a música.

A maioria das crianças ainda não fala português, mas música e tecnologia trabalham lado a lado para transpor barreiras. (Foto: Bruna Lago)

Apesar de utilizarem a música como expressão, os Mbya Guarani são um povo silencioso. Suas reações são discretas, incluem pequenos sorrisos ou um tamborilar de dedos acompanhando a música. Para nós, acostumados a nos comunicarmos de maneira mais efusiva, traduzir os comportamentos deles enquanto ouviam as quatro faixas foi um desafio. No dia da gravação, com a grande quantidade de alunos e a movimentação, Marina lembra que a diferença era perceptível.

“Eles não falaram nada sobre isso, mas ficavam olhando”, contou a estudante, rindo um pouco com a lembrança. “Eles são muito silenciosos, se comunicam com olhares.” Têm até uma maneira de se referir a isso no modo de chamar os não indígenas: juruá, homem que fala muito.

Após escutar todo o trabalho, Romário tirou o fone, acenou com a cabeça e disse, mais com os olhos do que com palavras: ficou bom.

Agora, todo este trabalho poderá ser visto e ouvido pelo público em geral. O documentário e o CD serão lançados neste domingo, dia 10 de novembro, às 16h na Casa de Cultura Mário Quintana, com entrada gratuita, disponível para toda a comunidade. Os idealizadores também estarão arrecadando alimentos não perecíveis e agasalhos para a aldeia.

Simbolismo cultural e a adaptação nos costumes. (Foto: Bruna Lago)
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