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Vamos falar sobre cinema nacional?
“Unisinos sedia o XXIII Socine, que debaterá a preservação da memória audiovisual no Brasil”
Bruna Lago


A Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine) promove de hoje (7/10) até quinta-feira (10/10), na Unisinos Porto Alegre, a XXIII edição do seu encontro anual de debates sobre a sétima arte. O tema geral do evento é “Preservação e Memória Hoje”. 

A Socine foi criada em 1996 com o objetivo de promover pesquisas sobre cinema, incentivando a discussão no Brasil. Hoje, conta com mais de 2 mil sócios, e os eventos reúnem pesquisadores e estudantes de todo o país. 

Para saber mais sobre a importância da Socine e a relevância do debate sobre a preservação da história do cinema, o Mescla conversou com os professores Flávia Seligman e Vicente Moreno, que fazem parte do comitê organizador da Socine na Unisinos. Flávia, professora do Curso e Realização Audiovisual da Unisinos (Crav), é doutora em Artes pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da diretoria de Ensino de Cinema e Audiovisual. Vicente Moreno, professor de Montagem e Roteiro na Unisinos, é mestre em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e fundador do núcleo de criação e pós-produção Ponto Cego.


Mescla — Como o tema “Preservação e Memória Hoje” se liga ao momento político-social que o país vive?

Flávia — Estamos vivendo um momento de exceção dentro da história brasileira, com um governo que, por questões de vingança política e uma estreita ligação com correntes conservadoras, está desmontando a indústria cultural. Principalmente em relação ao trabalho feito nos últimos 20 anos. O cinema brasileiro cresceu quali e quantitativamente por meio do fomento público. Estava se estruturando e propiciando um entendimento melhor do público sobre o audiovisual nacional. Agora, todas as medidas tomadas no modelo vigente são de desmonte e retaliação. As pessoas envolvidas nos cargos de comando do Executivo desconhecem a história da cultura brasileira. Certamente, não têm nenhuma noção do cinema que o país é capaz de fazer e do quanto ele movimenta a economia criativa.

Vicente — Nunca foi tão importante discutir preservação e memória. Vivemos um momento não só de crise política, mas também de conhecimento. Vemos uma apologia à ignorância, um ataque à educação e às artes. Presenciamos, no ano passado, o incêndio gravíssimo do Museu Nacional, que levantou um alerta para o estado dos acervos e da preservação da memória artístico e cultural do país, que é bastante preocupante. Neste ano, vemos um movimento mais preocupante ainda, que é o corte de verbas para a cultura, as artes e a educação. Além disso, temos um processo de aparelhamento político e ideológico de órgãos que normalmente eram independentes. Estamos presenciando, por exemplo, a militarização da Cinemateca Brasileira. Isso é bastante grave. Um órgão que deveria preservar a memória nacional de forma completa, preservar a memória do cinema brasileiro, está sendo utilizado e aparelhado para fins políticos. Acho que é o momento fundamental para se discutir a memória, nesse momento, em que temos visto a história se repetir, até mesmo para olhar o passado e enxergar uma possibilidade de futuro. É importante, também, preservar o que veio antes para que as próximas gerações possam usufruir. Precisamos pensar nisso, não só nos acervos mais antigos, do início do nosso cinema, mas também da produção atual. Uma coisa pouco falada é que, a partir do momento que o cinema se torna digital, ele também enfrenta uma crise de preservação. O digital é ainda mais etéreo do que o físico, do que a película, e ainda não se tem protocolos tão claros de preservação digital. Alguns filmes que foram feitos há dez anos já estão se perdendo. Então, é importantíssimo a gente debater isso.


Mescla — Qual a importância de uma universidade sediar esse evento? Qual o papel da Unisinos no cenário dessa preservação?

Flávia — A universidade tem o papel de aprender e estudar, de descobrir, de preservar e de valorizar o conhecimento. A Unisinos está fazendo isso com seu curso de bacharelado, agora em dois campi, São Leopoldo e Porto Alegre, por meio das pesquisas realizadas na graduação, na pós-graduação e de todas as atividades curriculares e extracurriculares vinculadas ao audiovisual. É na universidade que está sendo mantida a preservação da história e da prática do audiovisual.

Vicente — Em primeiro lugar, acho que a gente tem que destacar a importância da universidade como um espaço de pensamento, de produção de conhecimento, de cultura e de disseminação para a comunidade. O encontro da Socine, que é uma sociedade de estudos, sempre acontece dentro de universidades, porque é uma forma de reunir pesquisadores do Brasil todo. Mas, também, é uma forma de dividir com a comunidade o conhecimento, os debates. O papel da universidade é fundamental. E para a Unisinos, é importantíssimo. A Socine já esteve na Unisinos São Leopoldo em 2005, e volta agora, quase 15 anos depois, na Unisinos Porto Alegre. É um momento simbólico, já que estamos abrindo o curso de cinema em Porto Alegre, e vamos começar com o principal evento de pesquisa de cinema e audiovisual do Brasil. É uma contribuição também da Unisinos por estar no meio disso. 


Mescla — O cinema brasileiro, apesar da qualidade, ainda fica em segundo plano na questão da preservação. Qual o papel da Socine na retomada desses elementos e na valorização do produto nacional?

Flávia — A Socine reúne quase dois mil pesquisadores por todo o país, que estudam, trocam e multiplicam as questões ligadas ao audiovisual. É uma organização sem fins lucrativos, mas com fins culturais e educacionais. Fundamental num momento em que o Executivo do país ignora a produção cultural e propõe a volta da censura tal qual aconteceu durante a ditadura militar.

Vicente — Não diria em segundo, mas acho que ela está em terceiro plano, infelizmente. E isso tem a ver com o modo como olhamos para a nossa história. Se pegarmos países que valorizam muito a sua cultura, eles têm uma ideia de preservação enorme, na qual tudo tem que ser preservado e valorizado. Nós não temos como calcular o preço de uma obra de arte perdida. A importância da Socine vem também de resgatar a reflexão sobre a preservação, a pesquisa sobre cinema é tão importante quanto fazer cinema. A Socine tenta pensar alternativas e lançar o olhar sobre a situação, porque o primeiro passo é fazer esse quadro e pensar: olha, temos que fazer alguma coisa. Senão, mais e mais filmes vão ser perdidos. Precisamos pensar na preservação como política pública e como um desafio técnico. Qual a melhor forma de preservar esses filmes? E pela educação, como criar essa cultura de preservação entre os realizadores e produtores? E, também, começar a lutar pela valorização dos institutos, órgãos e cinematecas focados na memória e na preservação.


Mescla — O que se pode destacar nesta edição do evento?

Flávia — Eu destaco a palestra de abertura, com a cineasta Flavia Castro, a mesa especial sobre preservação, mas sem ignorar a participação como um todo. São 512 apresentações no total, todas muito relevantes.

Vicente — Essa é uma das maiores edições da Socine. Se não me engano, bateu recorde de inscrições e temos em torno de 530 apresentações. A grande maioria dos pesquisadores vêm de fora do Estado e participam de uma sequência de mesas, seminários temáticos e painéis. Como grande destaque, temos uma palestra de abertura com a cineasta Flavia Castro, que trabalha nos seus filmes uma ideia de memória, junto à Mariana Duccine, que pesquisa o tema. Outro momento importante é a Mesa Especial para discutir o tema do evento. Reunimos preservacionistas ou representantes de diferentes cinematecas para falar sobre o assunto. O Hernani Heffner, conservador-chefe da Cinemateca do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), a Inês Aisengart Menezes, preservacionista audiovisual, a Ana Luiza Azevedo, cineasta, presidente do Conselho Consultivo da Cinema Capitólio, e o professor Gustavo Fischer, pesquisador do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Unisinos, que vai estar mediando essa mesa. Além disso, tem lançamento de livros, sessões de filmes de arquivos e uma série de sessões de filmes rodando em parceria com o Capitólio, que é uma programação em paralelo.

Confira mais informações e a programação completa do XXIII Socine aqui e aqui.

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