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Re-escrevendo o mercado editorial
“Evento "O negócio do livro" reuniu mais de 200 empreendedores de todo o país no Teatro Unisinos para falar sobre iniciativas inovadoras em editoras e livrarias”
Guilherme Machado


Os livros, como não amar? São mais de seis mil anos de história para se contar. Os sumérios guardavam suas informações em tijolo de barro, já os indianos faziam seus livros em folhas de palmeiras, uma caminhada até os egípcios desenvolverem o papiro, em 2.200 a.C. Aliás, a palavra papyrus, em latim, deu origem a palavra papel. Tanta história guardada em uma infinidade de livros. 

Livros que cortam oceanos, unem continentes, nos aproximam de histórias, poesias, contos, cálculos matemáticos e ideias. Ler é tão importante que a Unesco recomenda aos países ter uma livraria a cada dez mil habitantes. Para chegar nesse patamar, o Brasil deveria abrir mais 20 mil livrarias. Porém, o mercado editorial brasileiro enfrenta uma crise marcada pela retração. O movimento caiu 24,9% no mês de janeiro, se comparado ao mesmo período do ano anterior. 

Inovar o mercado editorial nunca foi tão importante, e pensando nisso, o Clube dos Editores do Rio Grande do Sul organizou mais uma edição do seminário “O negócio do livro”, em setembro, na Unisinos Porto Alegre, com o tema “reescreva-se”.

“Este ano, o tema foi “reescrever-se” pela situação que a gente passa, talvez a mais grave crise editorial do mercado brasileiro da história, e dessa necessidade de se reinventar, reescrever, pensar diferente e ser criativo. Então, a gente buscou em cada campo do mercado iniciativas de coragem e disrupção” – Gustavo Faraon, curador do evento. 

Ao longo do evento, mais de 200 empreendedores do mercado editorial de várias regiões do país compartilharam ideias e formas de pensar e vender livros. Havia também uma feira, que ficou sediada no Espaço Unisinos, e que teve a participação das editoras que estavam representadas no seminário.

Falar de livros é sempre melhor quando acompanhado de um café, e foi o que os 244 ouvintes, entre editores e estudantes de Produção Editorial, puderam desfrutar antes dos insights que rolaram ao longo do dia. A seguir, algumas dessas ideias: 

Visitantes puderam curtir o trabalho dos editores em uma feira.
Foto: Guilherme Machado

O advogado apaixonado por livros

Pedro Pacífico é advogado, mas tem o prazer em falar
sobre livros em seu perfil no Instagram.
Foto: Arquivo Pessoal

Segundo o digital influencer paulistano focado em crítica literária Pedro Pacífico, quase a metade dos brasileiros (44%) não leem. Os dados são de uma pesquisa feita em 2016 pelo Instituto Pró-Livro. Pacífico criou o Book.Ster, um perfil no Instagram para falar de livros. Por quê o Instagram? Segundo ele, “para atingir pessoas, temos que estar onde elas estão”.

Tecnologia combina com livros? Sim.

Tiago Pavan acredita que a crise do mercado editorial não é uma crise de demanda. Para ele, as pessoas querem ler, mas não conseguem encontrar os livros que desejam.
Foto: Guilherme Machado

Tiago Pavan é dono da livraria 30 Por Cento, que possui apenas dois funcionários. Produtor cinematográfico e engenheiro elétrico, reinventou seu empreendimento usando tecnologia. Tiago contou que muitas editoras enviam livros com erros de nota fiscal, ou seja, com um número menor ou maior de livros que foram comprados. Isso pode criar uma confusão sobre os dados do estoque. Pensando nisso, desenvolveu um sistema que monitora a mercadoria armazenada e aufere a quantidade correta de livros em cada estande.

Essa informação é sagrada, tanto para o editor quanto para os leitores, que têm pressa em obter a obra esperada, especialmente quando o público é acadêmico. A livraria de Tiago conta com obras especializadas em temas como imigração judaica, ciências naturais e feminismo. 

Tudo foi feito do zero: gestão de renda, gestão de clientes, gestão de logística. Para cada um desses setores, foi criado um software específico. “Em 2016 e 2017, o mercado já estava entrando em crise. Então, a gente sabia que o mercado estava encolhendo e a coisa indo para o buraco. E se a gente fosse entrar, teria que ser com uma eficiência muito grande, porque as margens são pequenas no mundo editorial”, disse. 

Comunicar com o leitor

Uma vez disseram nas redes sociais que uma das editoras de Daniel Lameira era “a melhor editora mesmo sem eu ter lido um livro ainda”. Significa que o trabalho é bom.
Foto: Guilherme Machado

Daniel Lameira, editor da Antofágica e da Aleph, também trouxe uma nova forma de pensar o mercado editorial. “Eu vejo muito no futuro da editora o comunicar com o leitor”, disse em sua palestra. Foi trabalhando em uma livraria que seu amor pelos livros surgiu, principalmente pela saga de Harry Potter. “Literatura para mim sempre esteve muito ligado com comunidade, pessoas apaixonadas, fãs”, conta o potterhead (fã da série).

Tiago mergulhou no mercado editorial, e pelo marketing descobriu como se comunicar com o leitor. Foram muitos testes e experiências até encontrar um caminho afetivo. Para isso, ele aposta em três coisas: estética, content marketing (marketing de conteúdo) e marketing de influência. O que tinha por trás dos youtubers que acessava tanto o público? Foi nessa investigação que apostou no marketing de influência e na divulgação de livros com parceria de digital influencers.

Para ele, “O negócio do livro” foi uma oportunidade de conversar abertamente sobre o mercado editorial brasileiro. “Pensar o nosso mercado é uma coisa rara, mas é o que vai possibilitar a gente se reeducar e também reeducar o leitor para abrir alguns horizontes nesse meio editorial”, disse.

Ler é um ato político

A editora de Cauê reúne publicações de esquerda, mas sem
carteirinhas com várias linhas de pensamento.
Foto: Guilherme Machado

Outra figura que esteve no seminário foi Cauê Seignemartin Ameni, editor da Autonomia Literária, o cara por trás do barco pirata da Festa Literária das Editoras Independentes (Flipei), que ocorre em Paraty (RJ). Neste ano, o tema do evento carioca foi “Os desafios do jornalismo em tempos de Lava Jato”, e contou com a presença de Glenn Greenwald, editor e cofundador do The Intercept. A presença do jornalista norte-americano provocou ameaças por parte dos eleitores de Bolsonaro.

Cauê e os amigos Hugo Albuquerque e Manuela Beloni, em conversa na livraria universitária da PUC-SP, notaram a ausência de livros sobre política contemporânea de autores progressistas que não estavam sendo publicados e traduzidos no Brasil. Então, decidiram criar sua própria iniciativa editorial, que organiza as publicações em rede, junto com movimentos sociais, intelectuais, coletivos e portais de mídia independente.

Muita história para contar

A Pocket Store é um convite para viajar no mundo dos livros e se apaixonar pelas obras. Foto: Página da Pocket Store

Ivan Pinheiro Machado é gaúcho e editor da L&PM, que está no mercado há 40 anos. Foi em 1974 que ele e seu amigo Paulo de Almeida fundaram a editora. No início deste ano, Ivan resolveu criar a PocketStore, uma pequena livraria de rua no Bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Ele compartilhou toda a sua experiência como editor com histórias que arrancaram boas risadas da plateia. 

Criatividade no mercado editorial

A Banca Tatuí fica no Centro de São Paulo e reúne o trabalho
de mais de 200 editoras, coletivos e artistas independentes.
Foto: Página no Facebook

A fala final ficou por conta de João Varella, fundador da editora Lote 42, que aposta no design gráfico como elemento narrativo, dando novas camadas de interpretação à obra. Ao longo de sua fala, ele mostrou como desenvolve os livros sem precisar de muito dinheiro, e usando a criatividade.

João também é responsável pela Banca Tatuí, um espaço de publicações independentes no Centro de São Paulo, que também é um lugar de encontro para amantes da leitura. Seu trabalho transita por vários gêneros, como ficção, não ficção, quadrinhos e poesia.

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