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Moda, pesquisa e muita troca de conhecimento
“A 15º edição do Colóquio de Moda ocorreu na Unisinos Porto Alegre e reuniu pesquisadores, professores e estudantes”
Guilherme Machado


Por: Josi Skieresinski e Guilherme Machado

Os números dão ideia do tamanho do evento: 1200 pessoas circulando, 518 trabalhos inscritos e uma feira que reuniu mais de 40 expositores. Tudo em apenas quatro dias. O Colóquio de Moda é um dos encontros mais importante do país no setor, e este ano, para sorte dos estudantes gaúchos, especialmente dos cursos de Moda, Design, Publicidade, Administração e Jornalismo da Unisinos, ocorreu no Campus de Porto Alegre. 

“O objetivo do Colóquio é acadêmico. Congregar pessoas preocupadas com a pesquisa, com a formação,  com o trabalho são pontos importantes para a consolidação de um campo científico da moda”, explicou João Dalla Rosa Júnior, professor do Senai CETIQT (Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil) no Rio de Janeiro. 

A diversidade foi um dos aspectos que mais chamaram atenção durante o evento. Dentre os participantes, gente de todo o país: Bahia, São Paulo, Paraíba, dentre outras cidades brasileiras. Mas também teve gente de outros países, como a escritora Joanne Entwistle, que falou sobre o Instagram e a cultura de moda logo no primeiro dia do evento e o oficineiro italiano Enrico Cietta, que falou de moda, criatividade e indústria ao lado da brasileira Larissa Mussi. 

O que rolou? 

Os integrantes se reuniam em Grupos de Trabalho (GT), um incentivo à iniciação científica na área. Os melhores trabalhos receberam o Prêmio Gilda de Mello e Souza que deve publicá-los na Revista Dobras em formato impresso e digital. Também teve o Prêmio IC em Design e Moda cujos ganhadores terão os pôsteres apresentados na Revista Dobrinhas. Os melhores colocados de ambas as premiações receberam coleções de livros publicados pelas principais editoras da área e um certificado de premiação. 

Além das apresentações dos trabalhos, outra modalidade, foram os minicursos e as oficinas práticas. Neles, era possível aprender sobre geração de valor para produtos de moda, styling para fotografia de moda, ilustração para estamparia e muito mais. O Colóquio também foi palco para o lançamento de livros relacionados ao tema. Foram 12, dentre eles, De Gorda a Pluz-Size: A moda do tamanho grande; Indústria Têxtil e a Moda Brasileira nos anos de 1960; e O Belo Contemporâneo: corpo, moda e arte.  

Juliana Bortholuzzi, uma das coordenadoras do curso de Moda da Unisinos Porto Alegre, entende que a moda é interdisciplinar por natureza e que são nesses momentos que a área se torna ainda mais rica, permitindo abordar diversos vieses. 

O evento também é um belo exercício para o trabalho em equipe. Professores e estudantes se uniram para que tudo desse certo. 

A reportagem do Mescla, acompanhou o 15º Colóquio da Moda e encontrou algumas pessoas que podem dar uma ideia do interesse e perfil dos participantes. Uma de nossas personagens é a egressa de Moda da Unisinos, Ana Carolina Betiati, designer, que voltou à Universidade onde se formou como uma das oficineiras do Colóquio. 

Estampas, diversão e muito trabalho

Foto: Guilherme Machado

Ana Carolina Betiati, aprendeu a desenhar e a fazer estampas compartilhando e trocando muita idéia, segunda ela, não tem forma melhor de aprender do que trazer o material para sala e fazer bagunça. A ex-estudante da Unisinos é, atualmente, designer de estamparia da marca YouCom, e dá aulas no curso de extensão de Processos Criativos para Estampas na Unisinos. 

Convidada por uma das coordenadoras do curso de Moda, durante um café, Ana conta que sempre vem ao campus conversar com os alunos da graduação sobre a sua experiência. Em um desses encontros, surgiu a ideia de também ministrar workshops. “A proposta é a galera pensar em ilustração para estamparia. Trouxe alguns exercícios iniciais com mistura de técnicas para sair da zona de conforto”, conta um pouco sobre a oficina. 

Seu próximo objetivo é voltar para a academia e fazer mestrado, pois desde a formatura está muito voltada ao mercado. O Colóquio proporcionou que ela mostrasse seu trabalho, e ainda reencontra-se os antigos mestres, como sua professora de desenho. No reencontro, foi tratada como colega“Acho que ela não tem nem noção do impacto que ela tem (para mim), ela foi minha professora de desenho, fiquei muito nervosa quando ela entrou na sala”, finaliza encantada pela receptividade da professora. 

Pensar imagens e significados

Foto: Guilherme Machado

Pensador e pesquisador contemporâneo, João Dalla Rosa é designer, formado na UFRGS. Trocou a Orla do Guaíba pelas praias cariocas há 10 anos. Transita pelas diversas faces da indústria criativa, desde o design, a comunicação e a moda. Aliás, este foi tema de sua apresentação no GT sobre Moda e Mídia: “O que uma vitrine nos provoca a dizer sobre a relação entre moda e mídia?”, em que aborda reflexão sobre as imagens.

“É nossa responsabilidade pensar o papel da comunicação na moda. Além de ser um fator decisivo, a gente diz que não existe de fato a moda sem esse campo. Para que a gente não fique só contemplando áreas específicas ou valorizando determinadas abordagens, a comunicação tem um papel muito grande e é um campo que se dedica aos estudos da moda já há um tempo”, argumenta o pesquisador. 

João também ficou encantado com o evento ser em Porto Alegre, já que participa do encontro desde 2010: “eu não poderia perder essa edição na cidade”, diz. Destacou também o acolhimento e a organização do evento. “Vou voltar levando diversas ideias pro Senai, de estrutura, gostei muito”, finaliza o professor. 

Aline no mundo da moda

Foto: Guilherme Machado

Dentre tantas figuras singulares do Colóquio, conhecemos Aline Buffon Basso, aluna do primeiro semestre Recém chegada ao curso de Moda da Unisinos, se viu encantada com a receptividade dos professores e colegas. Cursou o ensino médio integrado ao de Técnico em Eletrônica e foi o suficiente para perceber que cálculos não eram a sua área. Cogitou alguns cursos como Designde Interiores antes de entrar na faculdade, mas não teve jeito, decidiu fazer Moda.

Aline trabalhou como voluntária no Colóquio, cuidou de exposições, atendeu professores e recepcionou o público ao lado dos colegas. Encontramos a jovem na Exposição de Moda da Unisinos, onde ocorria a exibição de  alguns trabalhos das disciplinas de Ateliê de Projeto e Modelagem. Para ela, o Colóquio de Moda foi uma oportunidade para “abrir a mente”. Eu estou absorvendo muitas coisas que eu não fazia ideia”, conta a jovem com entusiasmo. 

Aprendeu muito, inclusive, sobre a própria universidade, pois Aline não conhecia totalmente a torre educacional, como  é chamado o prédio da Unisinos da Avenida Nilo Peçanha. “Desde pequena eu costuro com minha mãe e desenho com meu pai”, ou seja, um amor que já vem sendo construído há alguns anos e foi impulsionado pelo evento. 

Do fogo à arte

Foto: Josi Skieresinski

Em paralelo ao 15º Colóquio de Moda também rolou o Encontra Moda, feira que reuniu marcas autorais gaúchas e nacionais, em um grande encontro para integrar, celebrar e dar visibilidade à produção local. Maria Josilene Bernardo de Souto, conhecida por “Jô do Osso”, veio da Paraíba para mostrar seu trabalho. “Esse é o meu 10º (Colóquio), todos os anos eu venho. É maravilhoso, porque aqui não é só vender, é você divulgar, trocar contatos e arrumar parceiros”, conta. 

Jô do Osso desenvolve um trabalho artesanal com ossos de boi que transforma em colares, anéis, brincos e acessórios. Tudo começou em um período difícil de sua vida,  grávida e desempregada, ela buscou emprego em um restaurante turístico: “Eles serviam cozidos e jogavam os ossos fora. Os cachorros rasgavam e deixavam os ossos pelo salão. Foi então que decidi juntar e tacar fogo”, brincou  a artesã.

O que sobrou dos ossos queimados, Jô transformou em um crucifixo. Quando uma freira se ofereceu para comprar a peça, ela quase não acreditou. Hoje, seu crucifixo está na Itália. Aos poucos, a artesã desenvolveu outras técnicas, como tingimento natural dos ossos. Ao final, nos contou  sua fórmula para trabalhar com artesanato: “Para você fazer artesanato tem que ter três habilidades: cabeça, mão e coração”, finaliza.

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