Deu certo

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Um novo jeito de se fazer moda
“Na busca por representatividade, os estudantes de Moda Desiree do Vale e Leonardo Farias criaram suas próprias marcas, que fogem dos estereótipos e valorizam o trabalho de pessoas negras”
Guilherme Machado



Cansada de não se sentir representada, a estudante de Moda da Unisinos Desiree do Valle resolveu construir seu próprio espaço. Assim, surgiu a Black Barbie Agency, uma agência de moda produzida e protagonizada por pessoas negras. Ao mesmo tempo, seu ex-colega de curso, Leonardo Farias, agora graduado, está desenvolvendo a marca Ponte, centrada em moda masculina para homem negro.

A Black Barbie Agency trabalha essencialmente com produção de moda. A partir de um conceito, Desiree e sua equipe realizam um ensaio fotográfico editorial: “A nossa ideia é vender o trabalho em conjunto. Se tu tens uma marca e quer divulgar os produtos da sua nova coleção, você pode nos contratar. Nós fazemos um orçamento e levamos nossa equipe, com produtora, maquiadora, assistente, fotógrafo e modelo”, conta a estudante. 

A ideia surgiu no início do ano de uma forma dramática. Desiree havia saído do seu último emprego e estava frustrada, mas já tinha algumas ideias para colocar em prática. “Em 2016, eu falava para um colega meu que queria ter uma agência de moda, mas achava que seria algo muito distante. Pensava em trabalhar em uma empresa grande, depois de um tempo me demitir, ganhar uma grana e abrir meu negócio”, lembra. Em 2017, ela já havia feito o styling (produção) de um editorial de moda, mas não deu continuidade ao projeto. Foi conversando com um amigo fotógrafo sobre trazer visibilidade para pessoas da periferia que surgiram os primeiros insights

 “Eu sou muito de mergulhar nas coisas. Há pouco tempo, eu tinha o cabelo rosa, então, era tudo rosa: cabelo rosa, look rosa, e resolvi fazer um editorial rosa. Aí, meu amigo fotógrafo disse: ‘Nossa que brega, por quê tu quer fazer isso?’. Porque eu quero! Comecei a pegar referências e convenci ele”
Desiree do Valle

Desiree conseguiu modelos profissionais negras “bem barbiezinhas”, como ela mesma diz. “Eu tive muita Barbie quando era criança, e todas eram brancas do cabelo loiro. Tive uma Barbie negra, mas ela tinha o cabelo liso e franja. Também tive uma Teresa, mas ela era meio miscigenada”, conta a jovem, hoje com 25 anos. O editorial trazia um resgate de sua memória afetiva, com ênfase na ressignificação do padrão de beleza. “Eu criei minha própria empresa para que pessoas que vem de onde eu vim e são como eu sou se sintam acolhidas e consigam ganhar dinheiro com o que gostam”, diz.

As fotos do editorial foram compartilhadas nas redes de Desiree e da agência e tiveram boa repercussão, com diversas publicações em sites e revistas, como a Donna e a Yut Mag. O assistente de styling Pedro Menini a incentivou a dar continuidade ao projeto. Então, veio o segundo editorial, em que apostou ainda mais na representatividade: “Eu chamei uma modelo gorda que, como ela mesma diz, é gorda de verdade, porque ela tem barriga e, normalmente, as modelos plus size só tem quadril”, conta Desiree. A convidada foi Luana Carvalho, técnica em administração e modelo. 

Sobre se sentir representadx  

Luana conta que sempre se reconheceu como uma mulher gorda e negra, pois a sociedade fez questão de afirmar. “Eu sempre soube que ser negra e gorda era um defeito, porque usavam isso para me xingar. Usavam a minha cor e o meu corpo de uma forma negativa”, conta. Para ela, foi necessário desenvolver sua autoestima. “O grande estalo da minha vida foi entender que isso não era negativo e não existia nada de errado”, salienta.

O mundo plus size nunca a representou de verdade. Ser negra e gorda é, muitas vezes, buscar ser sua própria referência. “É muito difícil encontrar alguém nesse mundo que seja tão bem sucedido quanto outras pessoas brancas e gordas”, diz Luana. Ela afirma que a mídia reproduz estereótipos, porque quem pensa os projetos são pessoas brancas. “O único jeito de conseguir ter representatividade e conseguir de fato empoderar pessoas a partir do que elas veem na TV ou na internet é colocar cada vez mais negros e negras nessas coisas”, afirma Luana. 

Outra modelo convidada foi Laura Costa, 22 anos, dançarina, coreógrafa e DJ no coletivo Bronx. Laura é transexual e já conhecia o projeto de Desiree. “Eu vejo como uma porta se abrindo para mim e para outras pessoas negras”, comenta Laura. Desiree conta que a Black Barbie busca representar pessoas de verdade, diferente da forma que o mercado faz, como se fosse um nicho. “A nossa ideia é provocar, para que seja algo político”.

“Nos últimos tempos, me sinto um pouco representada, o que não é muito, mas a mídia está no caminho certo. Ainda acho que devem nos estampar com mais frequência sim, o tempo todo sim. Por muitos anos, fomos excluídos dos padrões que a sociedade impõe como o belo, então, agora estamos mostrando a nossa cara”
Laura Costa

A Ponte

Outro jovem negro que está criando seu próprio espaço na moda é Leonardo Farias, bacharel em Moda e idealizador da marca AFARA, que significa “ponte” em Iorubá. Ele diz se inspirar em Desiree e conta que construir um trabalho com pessoas negras para dar representatividade pode não representá-las de fato. Para ele, é preciso fazer algo mais profundo, como faz a Black Barbie Agency, em que há pessoas negras em todo o processo, desde as modelos até os fotógrafos. “A moda tem esse papel de agente de mudança, mas não cumpre esse papel”, acredita.

Para ele, a moda é um agente transformador porque todo mundo veste roupa. “Antes da moda existir como arte e indumentária, existiam cores de nobreza e realeza, porque era mais caro importar de um país para outro. Então, não era acessível para todo mundo. Se hoje o pobre não usa alfaiataria, é porque tem sim uma questão política ligada à roupa”, opina o jovem. 

A proposta da sua marca é criar pontes culturais entre etnias para desconstruir preconceitos. Leonardo admira o trabalho da colega Desiree, pois a trajetória dela é de uma jovem que veio da periferia e trouxe visibilidade à periferia: “Ser negro na moda é buscar sempre excelência”, diz ele. Para o designer de moda, quando uma pessoa negra faz algo bom, o público pode até mesmo gostar, mas haverá dúvidas sobre a autoria do trabalho.  

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