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Quando o conflito bate à porta, o repórter precisa estar preparado
“Foram três dias de imersão em estágio para coberturas jornalísticas em zona de conflito. O suficiente para abrir minha mente para novas perspectivas e reflexão sobre o jornalismo diante de tensões e disputas da sociedade moderna”
Bruna Lago


— Isso é uma simulação em ambiente controlado para vocês terem ideia de como é na prática.

O aviso é repetido várias vezes para os mais de 30 estudantes de Jornalismo que participaram do Estágio de Correspondente de Assuntos Militares (ECAM), realizado pelo Comando Militar do Sul. Com a chuva que não cedia e o estampido dos tiros de festim, a sensação de realismo me fez pensar sobre a necessidade de preparo físico e psicológico para uma cobertura jornalística em região de conflito. A maioria, como eu, tinha entre 19 e 28 anos, alunos do quarto ao sexto semestre. Nenhum de nós já havia vestido um colete à prova de balas. Alguns, aliás, pretendem não vesti-lo novamente.

Estudantes enfrentam chuva e dificuldades reais de um conflito armado durante o Estágio de Correspondente de Assuntos Militares (ECAM)
(Foto: Lisandra Steffen)

O Brasil é o quinto país do mundo onde mais morrem jornalistas, muitos deles, pela falta de preparo para enfrentar situações violentas. Desde as manifestações de 2013, a cobertura de conflitos não se restringe às disputas territoriais pelo tráfico. As mobilizações nas ruas e as maratonas de protestos exigiram que o jornalista saísse direto da redação para zonas de conflitos, e não raro o saldo de feridos reflete esse despreparo. Durante o treinamento, nos questionamos quais de nós enfrentarão no futuro uma situação parecida com a simulada. Mesmo que o tom fosse de brincadeira, o temor estava presente. Era real.

As conversas com repórteres acostumados às situações dramáticas, como Roberta Salinet, que cobriu o caso da Boate Kiss, ou Bernardo Bertolotto, enviado ao Haiti com uma missão de paz brasileira, foram tão instrutivas como reflexivas. Mais do que as dicas de cobertura, a percepção do papel humano do jornalista diante das tragédias toma uma proporção maior quando enfrentamos questionamentos morais. É um trabalho que exige muita sensibilidade, cuidado com o trato dos envolvidos. A pressa, a necessidade do furo jornalístico, fica em seguro plano.

Um dos exemplos mais marcantes sobre essa discussão veio do depoimento de Roberta Salinet, quando a ex-repórter da RBS relembrou sua participação na prisão do serial killer de Passo Fundo, em 2004. Dez anos depois, a jornalista recebeu uma medalha de gratidão da polícia pela ajuda na captura do criminoso. Mas, segundo ela, a sensação de dever cumprido nunca foi confundida com vaidade.

— O ego destrói. Nós perdemos muitos jornalistas bons para o ego.

Treinamento fictício, preocupação real

Uma das situações simuladas foi de um protesto de moradores em uma comunidade. Quando vestimos os equipamentos de proteção, colocamos as capas de chuva e enfiamos os pés na lama, só não esquecemos de que aquele é um ambiente controlado, o que nos deixa calmos e seguros. Caso contrário, a adrenalina subiria, assim como o medo.

— Agora vamos até o lugar onde os senhores podem fazer a entrevista. — A explicação do sargento que acompanha o grupo fica quase inaudível com a chuva e os gritos que fazem  o protesto parecer real.

Na simulação de protesto, a chuva e os gritos de ordem quase não nos deixam ouvir as orientações do sargento
(Foto: Lisandra Steffen)

É a chance de experimentar algumas das dificuldades que envolvem esse trabalho: é difícil pensar, encontrar perguntas, ouvir respostas, desviar das mãos, proteger a câmera da chuva. Mas esse é um ambiente controlado. A realidade exige esforço e treinamento, tanto físico quanto mental. E coragem para acreditar que estamos fazendo tudo que podemos enquanto jornalistas.

Durante os três dias de estágio, aprendemos a cuidar do outro: imobilizar ossos quebrados, limpar ferimentos e trabalhar em equipe, porque, diante de problemas graves, não há espaço para concorrência, distinção entre emissoras ou empresas. No nosso ambiente controlado, somos estudantes competindo pela melhor foto, mas também precisamos trabalhar juntos para realizar tarefas que exigem companheirismo.

As orientações para a geolocalização, utilizando mapas e bússolas, e as noções de primeiros socorros parecem simples demais para alguns alunos, mas é o que pode garantir a vida em uma situação real de conflito. Sem precisar atravessar o mundo para presenciar a guerra, somos lembrados de que comer, dormir e ir ao banheiro são chances que nunca podem ser ignoradas, porque o ambiente muda drasticamente em questão de minutos, e o jornalista precisa estar preparado.

Todos os anos, o ECAM atende gratuitamente estudantes de Jornalismo, com o intuito de treinar e preparar futuros profissionais para situações de conflito. A ideia é proporcionar um pouco de experiência para que uma parceria entre repórteres e militares seja possível e segura, prevenindo acidentes e fatalidades na cobertura jornalística.

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