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Especial Rosental: a conferência e os pensadores que debatem as inovações no jornalismo
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Natan Cauduro

A história de Rosental com o ensino de jornalismo remonta à década de 70. No Brasil, ele começou a lecionar aos 21 anos na Federal Fluminense (UFF) do Rio de Janeiro. Aos 43, foi aceito na Universidade do Texas, em Austin (EUA) e lá permaneceu lecionando. No campo acadêmico, Rosental foi responsável por implementar novas disciplinas e renovar o currículo da universidade americana, além de incentivar encontros que, há 20 anos, formaram o Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ) – o maior encontro sobre tecnologia e inovação do campo jornalístico no mundo. 


Professor Rosental


Ser um brasileiro atuando na educação acadêmica de norte-americanos fez de Rosental uma pessoa capaz de perceber diferenças nas graduações em jornalismo de ambos os países. Para o professor, um contraste entre Estados Unidos e Brasil é o apoio intelectual e financeiro histórico das indústrias de jornais e emissoras de rádio e TV na elaboração dos currículos do curso de Jornalismo.


É importante ressaltar que nos Estados Unidos, diferente do Brasil, os cursos de graduação são credenciados e fiscalizados por entidades externas às universidade. De acordo com o Conselho Nacional de Educação (CNE), em publicação intitulada “Sistema Nacional De Avaliação Da Educação Superior”, as Accreditation Agencies (Agências de Credenciamento, em livre tradução) são companhias privadas sem fins lucrativos ou não-governamentais “que certificam a qualidade do ensino de instituições públicas e privadas, além de garantir seu funcionamento”.


“Eu sou parte de um conselho que visita universidades para ver se o curso de jornalismo pode receber uma acreditação. Nesse conselho de nove pessoas, uma das coisas que nós temos que ver é se não estão ensinando jornalismo de mais, ou teoria de mais. O jornalismo nos EUA é um curso de humanidades que tem uma especialização no final. Então o número de aulas de jornalismo é limitado, e isso é bom”, conta Rosental.


Ele lembra que já existem pedidos de mudança, em especial para acrescentar ao currículo de Jornalismo novas tendências e usos de tecnologias, tal qual coding (programação), empreendedorismo e jornalismo de dados. Ele ressalta, porém, que todas essas mudanças não apagam o que ele chama de básico: “questões de redação, apuração, ética e a parte deontológica”.


Para Rosental, o ensino do jornalismo no Brasil possui uma característica teórica, um curso mais voltado à comunicação ao invés de jornalismo. Nos EUA, o professor relata que os alunos saem das universidades com uma formação de humanidades, de sociologia, e de perfil profissional mais flexível. Em terras tupiniquins, “acho que as grades são muito fechadas”.


O profissional empreendedor


Rosental já se descreveu como um “bicho estranho”. O motivo, segundo ele, eram as aulas que ministrava em Austin, como Jornalismo Online. Entretanto, no avanço da Revolução Digital, o professor já não sabia como trabalhar a ideia de Jornalismo Digital, afinal, para ele, “todo jornalismo é online”. Sempre pensando em inovar e abraçando o padrão da estranheza nas disciplinas, ele criou duas novas cadeiras: Jornalismo Móvel e Jornalismo Empreendedor. 


“Eu decidi Jornalismo Empreendedor porque eu achava, e continuo achando, que é muito importante que o jornalismo aprenda com o empreendedorismo da área de tecnologia, ou seja, essas grandes companhias são empresas de mídia, e todas elas têm de entender que também são plataformas tecnológicas. A dinâmica do que se leva a criar um Facebook, um Instagram, um YouTube, é uma cultura do Silicon Valley que é estranha à cultura, ou pelo menos era, do jornalismo – tanto na academia como na indústria”, explica Rosental. 


O professor também fez brincadeiras entre o significado das palavras “memo” e “demo” e a realidade do mercado de trabalho. Para ele, a era do “memo” acabou, termo esse que representa o período em que um jovem jornalista se preocupava em construir um currículo “legal”, dizendo saber “isso e aquilo”. De acordo com o professor, as grandes redações procuram pelo “demo”, o estudante ou recém-graduado que demonstra pró atividade. Segundo Rosental, essas são as pessoas que criam websites, fundam blogs e cobrem assuntos por conta própria, sem precisar da assistência de uma empresa jornalística. “É aí que você vai chamar a atenção de alguém que vai te dar um emprego”, revela.


O “Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ)” completou 20 anos em 2019. Ele nasceu da vontade de Rosental de discutir jornalismo online, evoluções tecnológicas, empreendedorismo digital e os potenciais horizontes que podem ser explorados com o uso da internet. É compreensível, portanto, que o Simpósio seja conhecido como “barômetro do jornalismo online global”.


Trata-se de uma conferência que pode durar até dois dias. Jornalistas, editores, produtores, executivos, acadêmicos e entusiastas de todo o mundo reúnem-se em um dos auditórios da Universidade do Texas para debater os temas já mencionados. A internacionalização ganhou força quando, em 2003, o simpósio deixou de focar especificamente em mudanças e debates estritamente norte-americanos. 


O Simpósio também é conhecido por acompanhar de perto as tendências de grandes empresas de mídia. Rosental faz questão de mencionar que a conferência surgiu um ano após a criação do Google ao mesmo tempo que se formava o Facebook e o Twitter, plataformas que são temas constantes dos painéis apresentados no evento, além de estarem ligadas ao Jornalismo Online – tema da primeira matéria do Especial. 


A primeira edição do ISOJ ocorreu em 1999. Teve cerca de 70 participantes. Na vigésima, com duração de dois dias, foram cerca de 500 pessoas vindas de 44 países. Nesta edição, Rosental foi homenageado pelas duas décadas de evento. Durante a homenagem, ele, emocionado, declarou: “Eu nunca imaginei que o ISOJ teria 20 anos, então vamos fazer os próximos”.


O número 500 pode parecer grande, mas para Rosental, um evento que comporta essa quantidade de pessoas tem o tamanho ideal “porque senão fica uma conferência muito grande. Ela está crescendo meio que horizontalmente então, antes do ISOJ, nós tivemos uns quatro eventos. No domingo, pelo décimo segundo ano, nós tivemos o Colóquio Ibero Americano de Jornalismo Digital em espanhol e portunhol”, conta.


Em 2019, os painéis do ISOJ abordaram a credibilidade no jornalismo, o uso de inteligência artificial e de alto-falantes inteligentes. Contudo, para Rosental, um dos painéis mais interessantes foi o de notícias locais. “Eu acho que o grande tema do jornalismo nos Estados Unidos hoje é a quebra dos jornais, a falência completa e absoluta do modelo de negócio dos jornais locais”, revela.


“Aqui nos Estados Unidos, com exceção do New York Times, do Washington Post e do Austin American-Statesman, todos os outros jornais estão ferrados. Quase 2 mil jornais já fecharam desde 2004, e os que sobrevivem, sobrevivem muito mal. Então há um grande esforço, a prioridade é sobre notícias locais. Sobre como ajudar a salvar o jornalismo local”, comenta Rosental.


O site do ISOJ pode ser acessado clicando aqui. Lá dentro, estão disponíveis todos os materiais produzidos desde o primeiro encontro.


O olhar de um jornalista


Pedro Burgos, consultor de dados e tecnologias da agência Aos Fatos, foi um dos participantes da vigésima edição do ISOJ. Pedro é o criador do bot Fátima. Nessa matéria, o Portal Mescla conta a história dessa robô checadora. Abaixo, Pedro fez um relato sobre a experiência de participar de um dos principais eventos sobre jornalismo no mundo.

O ISOJ é provavelmente o evento mais interessante entre as grandes conferências mundiais de jornalismo. Apesar de se realizar em um auditório grande, e ter algo como 400 participantes, o clima é quase intimista. As pessoas ali tem “acesso” a algumas das mais brilhantes mentes da profissão, e há muita troca tanto durante os eventos quanto nos cafés. Redações e jornalistas que poderiam se ver como rivais compartilham estratégias e melhores práticas. E gente da academia tem espaço para debater com o pessoal do mercado.

Outra coisa interessante é que, ao contrário de outras conferências, não há programações paralelas. A ideia é ter apenas uma agenda, que tenha as principais discussões do jornalismo mundial hoje, com gente de vários lugares do mundo. O Rosental Alves, brasileiro que está lá na Universidade do Texas há mais de 20 anos é um visionário, e tem uma excelente curadoria de convidados.

Este ano dá pra dizer que alguns temas estiveram em todas — ou boa parte — das discussões. O primeiro foi o grande desafio de como a mídia pode recuperar a confiança do público. Aposta no jornalismo local, transparência e diversidade foram algumas das respostas (rolou uma hackaton sobre o tema também, e o time que eu liderei venceu). O impacto da automação, inteligência artificial e machine learning no fazer jornalístico também teve destaque. E por último a questão de como cobrir política em tempos polarizados e sob a ameaça de governos. Jornalistas de países tão distintos quanto Hungria, África do Sul, Venezuela e EUA mostraram que tem desafios semelhantes.


Veja outras reportagens da série sobre Rosental Calmon Alves. Clicando aqui e aqui.

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