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Especial Rosental: o brasileiro na vanguarda do jornalismo
“Ao longo de seus 27 anos atuando como jornalista no Brasil, Rosental Alves foi responsável por implementar o primeiro jornal digital do país”
Natan Cauduro


Rosental Calmon Alves se descreve como um workaholic. Esse termo foi popularizado pelo artigo do psicólogo americano Wayne Oates, um agora companheiro de nação do brasileiro. Não é por acaso que Rosental escolheu tal palavra ao se descrever. O carioca de 67 anos, vive nos EUA há mais de 20, é uma das principais figuras do jornalismo mundial, professor na Universidade do Texas e um vanguardista das inovações no campo acadêmico e profissional. Duas de suas criações famosas são o Centro Knight para Jornalismo nas Américas e o Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ). Rosental recebeu o Mescla virtualmente, numa vídeo chamada de quase uma hora. A entrevista contou também com a participação do professor da Escola da Indústria Criativa e mentor no Portal Mescla, Daniel Pedroso.


Um carioca pelo mundo


Rosental teve um começo de carreira maravilhosamente precoce. Era foca de redação aos 16 anos e professor universitário da Federal Fluminense (UFF) aos 21. Diferente da realidade atual, ele construiu carreira como repórter, chefe de reportagem, fotógrafo, editor de fotografia e correspondente internacional pelo Jornal do Brasil, um dos tradicionais veículos de comunicação do país. Foram 27 anos atuando dentro e fora do Brasil. Em 2010, o JB encerrou a circulação do material impresso, focando apenas no digital.


Na função de correspondente, Rosental viveu em diversos países, entre eles Espanha, Argentina e México. A relação profissional com o Jornal do Brasil durou até 1995 – uma parceria de mais de duas décadas. Além das conquistas profissionais, Rosental não abandonou os feitos no âmbito acadêmico e sempre teve interesse por tecnologias e inovações.

Rosental Calmon Alves, em entrevista concedida ao Portal Mescla / Áudio: Natan Cauduro


Em 1987, foi o primeiro brasileiro a receber uma bolsa de estudos da Fundação Nieman para Jornalismo. Essa bolsa pertence à Universidade Harvard (EUA), uma das mais prestigiadas do mundo. Não só a universidade, mas a Nieman é a mais notória organização a conceder bolsas para jornalistas em todo o planeta. São aceitos profissionais de todo o mundo, independente da mídia na qual trabalhem, para dois semestres de estudo intensivo.


Foi no período de estudos em Harvard que Rosental desenvolveu gosto por uma área do jornalismo que, na época, engatinhava quando comparada à Televisão, Rádio e Impressos: o Jornalismo Online – uma mistura da profissão com as novidades da “revolução digital”.


“Em 88, eu tive o meu Aha moment (expressão inglesa equivalente a Eureka), que é o momento de epifania. Para mim, foi num seminário na Niemann com um dos fundadores do MIT Media Lab, em que ele explicou a revolução digital que viria e explicou como isso afetaria os meios de comunicação e os transformaria”, relembra o jornalista.


Os feitos de Rosental no Brasil


Depois do término da bolsa, quando retornou ao Brasil, ele retomou as atividades no Jornal do Brasil. De 1990 a 95, Rosental criou para o jornalismo brasileiro dois marcos importantes: ele foi o responsável pelo primeiro serviço de notícias em tempo real por computador do país – chamado de Sistema Instantâneo de Notícias (SIN). Em seu último ano como integrante do Jornal do Brasil, Rosental apresentou a proposta da primeira versão online de um jornal brasileiro, o “JB Online”.


“A Folha de São Paulo sempre diz que é o primeiro jornal online no Brasil. Na verdade, nós (equipe do JB) lançamos pelo menos 6 meses antes. Nós lançamos um ano e tanto antes do New York Times. Eu sempre brinco com as pessoas do NYT dizendo ‘vocês começaram 1 ano e meio depois do Jornal do Brasil”, conta Rosental.


O Sistema Instantâneo de Notícias (SIN) cobria economia e finanças, em especial ligadas ao mercado de ações. Segundo Rosental, nessa época, início da década de 1990, o Jornal do Brasil utilizava a rede de computadores da “falecida” bolsa de valores do Rio de Janeiro, pois o sistema era mais rápido e funcional. O jornalista lembra que quando a ideia da parceria foi apresentada à bolsa do RJ, a primeira resposta foi negativa porque a instituição “já tinha notícias”. Ele, então, argumentou que “vocês têm notícias de cliping de jornal, eu posso te dar notícias que vão estar no jornal amanhã.


“E isso foi sensacional, até que chegou a web”


A versão online do Jornal do Brasil foi um dos grandes feitos do jornalista. Contudo, como ele relembrou, a ideia inicial não partiu de sua cabeça:

Rosental Calmon Alves, em entrevista concedida ao Portal Mescla / Áudio: Natan Cauduro


De acordo com Rosental, Sérgio havia criado, sozinho, todo o Jornal do Brasil Online. Ele também preparou uma apresentação. Foram duas semanas trabalhando para passar as notícias do impresso ao computador. Rosental lembra que o colega de trabalho não tinha input digital, por isso a função de transportar o conteúdo entre mídias era manual.


Sérgio começava a trabalhar na madrugada, a partir das 4h30, pois o sinal do telefone, que dava acesso a internet, tinha qualidade e estabilidade melhores. “Então o meu mérito como editor foi simplesmente levar isso adiante com muita dificuldade para mostrar à direção do jornal que era uma coisa importante e séria”, lembra Rosental. Na época, o dono do jornal era José Antônio Nascimento Brito.


O JB Online trouxe a Rosental uma nova forma de compreender a mídia online. Ele comenta que percebeu a necessidade de uma nova linguagem para a web ao invés de simplesmente levar o jornal de papel para a internet. Com essa nova perspectiva, Rosental encerrou o SIN e tornou os repórteres que nele trabalhavam os primeiros jornalistas online do país.


Os feitos de Rosental no exterior


Avançando na carreira profissional do jornalista, em 1995, ele se candidatou para uma vaga na Universidade do Texas, em Austin (EUA), e foi aceito. Mudou-se para a universidade como Knight Chair in Journalism – uma cátedra dada pela Fundação John S. e James Knight. Esta trata-se de uma entidade filantrópica cuja origem inicia em 1907. O responsável, à época, era o pai de John e James, Charles Landon Knight. A Fundação Knight investe em projetos variados, a maioria voltados ao jornalismo, as artes e a criação de novas tecnologias.


O dinheiro que banca a cátedra vem dessa instituição, e a doação ocorre em forma de endowment. No site do banco BNDES, “endowments possuem recursos próprios e são geridos como os fundos de investimento disponíveis no mercado financeiro”. O Rosental resume esse financiamento como sendo “um fundo permanente”.


Em Austin, o professor ministrou aulas de Jornalismo na América Latina, Reportagem Internacional e Jornalismo Online. O talento do jornalista já era reconhecido pelo mundo, por isso também era convidado a dar aulas em redações e atuava como consultor de organizações de mídia.


Ser brasileiro e professor em outro país não impediu o jornalista de continuar inovando. Duas de suas grandes ideias, e que se mostraram assertivas, são o “Centro Knight para Jornalismo nas Américas” e o “Simpósio Internacional de Jornalismo Online”. A próxima reportagem aborda a trajetória do jornalista na criação, desenvolvimento e implementação do Knight Center e do ISOJ.

Continuem acompanhando a série de reportagens sobre Rosental Calmon Alves. As próximas estarão disponíveis na terça-feira, dia 02 de junho e na quinta-feira, dia 4 de junho.

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