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Nossas Diásporas
“Diáspora é a dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica. Este foi o tema do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre 2019, que abordou questões de identidade, hibridismo e diferença. Quatro alunos do Curso de Fotografia de Porto Alegre foram expositores do evento promovendo um debate sobre suas próprias origens através da fotografia. ”
Guilherme Machado


Os graduandos do curso de Fotografia Larissa Hansen, Vitória Macedo e Henrique Bittercourt, em conjunto com a egressa Ursula Jahn foram selecionados para a residência artística com o intuito de produzir obras para serem expostas no FestFoto. Os professores do curso Tiago Coelho e Marco Antônio, ao lado das profissionais Maria Helena Bernardes e Letícia Lampert, acompanharam todo o processo de produção dos alunos durante o período de três meses.

“A gente fez essa proposta para que tivéssemos artistas gaúchos produzindo sobre a temática do festival. O resultado foi melhor do que esperávamos”, diz Tiago. Ele conta que esta foi a primeira experiência para Larissa, Vitória e Henrique que já foram seus alunos e destaca que os trabalhos produzidos foram de grande importância para a carreira profissional de cada um.

“Eu sempre senti um certo deboche por ter um sotaque e por ser do interior, como se eu não pudesse ocupar aquele espaço na universidade” – Larissa Hansen

Larissa, 22 anos, está no quinto semestre de fotografia e veio do interior de Tuparendi (RS). Durante os três meses de sua residência artística, ela produziu um curta-metragem acompanhando a rotina dos pais que moram no campo. A ideia era justamente quebrar o estereótipo do homem do campo como uma figura desprovida de saber. Como resultado, Larissa foi convidada a participar de uma das mesas do evento.

“Quando eu vi os outros selecionados eu entrei num estado comparativo, tinha uma galera com um portfólio muito fod*. Inclusive, um deles era professor de universidade”, conta ela. “Expor neste festival me trouxe tanto autoconhecimento quanto confiança na minha identidade artística e fotográfica”. Larissa viu que não estava sozinha e mesmo artistas mais experientes também tinham suas inseguranças.

Para ela, foi indescritível expor no FestFoto. “Foi muito massa, porque meus pais estavam lá. Quando eu mostrei meu curta e reacenderam as luzes, vi a galera secando as lágrimas, foi muito emocionante!”, conta ela. Essa emoção também vem do processo árduo de deslocamento. “Muitas vezes eu tinha zero grana para ir à Porto Alegre. Então, eu tinha que me virar”. Este desafio e o contato com outros artistas fizeram a experiência de Larissa uma das mais marcantes.

“Definitivamente, foi um momento de transição entre ser uma estudante de fotografia e ser alguém que se posiciona como fotógrafa/artista” – Vitória Macedo

Vitória Macedo conta que cada minuto foi um aprendizado para todos, independentemente da experiência como fotógrafo: “Participar da residência artística foi ótimo, pois me permitiu trabalhar com vários artistas que eu nunca pensei em trabalhar, mas que eu já acompanhava e admirava há muito tempo”, diz ela. Compartilhar seu trabalho e acompanhar o processo criativo de cada artista foi uma barreira ultrapassada para Vitória.

“Durante a residência, desenvolvi o projeto intitulado Maafa, onde abordo os atos de suicídios dos africanos durante o período do tráfico negreiro, não como sinal de fraqueza, mas como um ato de insubmissão e resistência ao trabalho escravo. Abordo também a significação do oceano Atlântico como uma passagem a um território desconhecido, e à uma vida de sofrimento, desconectada de suas raízes”, diz Vitória.

Para ela, expor no FestFoto foi uma experiência incrível e desafiadora. “Você passa a produzir com uma carga maior de responsabilidade e comprometimento sabendo que o trabalho vai ser parte de um festival tão importante”.

“Foi pensando que Eva  está na origem do grande pecado, e que todas as mulheres são suas seguidoras, que propus brincar com os séculos e séculos de culpas atribuídas” – Ursula Jahn

Ursula é egressa do curso de Fotografia da Unisinos e já teve outros trabalhos expostos em galerias. “Participar da residência artística do FestFoto foi uma nova experiência linda, uma das coisas mais gratificantes que me aconteceu nesses últimos anos”, diz ela. Seu trabalho foi baseado no primeiro livro da Bíblia. Gênesis 3:5-6 é uma videoperformance sobre o fardo que as mulheres carregam até hoje, por terem provocado a primeira diáspora ao comer o fruto proibido do Paraíso.

“O ato de comer o fruto proibido, representado aqui em uma grande torta de maçãs, sugere devorar a culpa, satirizando os fundamentos da dominação masculina, em um gesto de se livrar de tudo isso. Permitir e aceitar ser Eva quando nos queriam Maria”, conta a fotógrafa. Para ela, participar da exposição foi gratificante por ampliar e dar visibilidade às intervenções feministas no campo da arte e da fotografia.

Em seus últimos trabalhos, ela conta que produziu muitos autorretratos, um processo criativo mais introspectivo e que a levava para uma zona de conforto. “A residência artística do Festfoto me fez experimentar outras possibilidades fotográficas, pensar em fazer outras coisas diferentes das quais eu fazia e dialogar e trocar conhecimentos com os demais participantes e com os tutores, o que foi essencial para o resultado final de meu trabalho”, relata.

Curtiu? o trabalho dos alunos está em exposição na Fundação Iberê Camargo até o dia 23 de junho. Não perde essa oportunidade.

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