“Eu não tive muito essa questão dos tropeços, tive muitos desafios. Me sinto sortudo.” - Portal da Indústria Criativa


“Eu não tive muito essa questão dos tropeços, tive muitos desafios. Me sinto sortudo.”

Pedro Rossa

Postado em: 27/09/2018
Por: Kellen Guaragni Dalbosco

Fã confesso de super-heróis, Pedro Rossa, 28 anos, egresso do curso de Jogos Digitais da Unisinos, carrega na pele e na camiseta seus personagens favoritos – Homem-Aranha, Goku, e The Flash – todos deixando grandes lições de vida a se seguir. Com uma trajetória de garra, igual àquelas comuns nas histórias em quadrinhos, ele desenha sua personalidade conforme se depara, e ultrapassa, os desafios ditados em sua vida. 

Referências à parte, a saga de Pedro iniciou em Canoas, cidade onde nasceu e vive até hoje. Ainda na infância, ele experimentou a interação social influenciado por sua família católica: na igreja. Foi coroinha durante algum tempo e acredita que alguns de seus valores morais foram moldados nesta época.  “Eu sempre considero o quanto isso me ajudou a montar como eu enxergo as coisas, na questão do que eu acho justo ou injusto”, conta.  

Pedro Rossa | Foto: Arquivo Pessoal

“Minha mãe sempre falava: tu tens que viver pelos teus próprios olhos. E isso me ajudou”, lembra. Paralelo aos ensinamentos católicos, a família sempre teve um papel importante em sua formação, principalmente no incentivo a buscar o próprio caminho.  

Foi aprendendo a fazer escolhas que iniciou o primeiro emprego, fazendo capeletti – massa típica italiana – na comunidade em que vivia. Eram sete horas diárias, em pé, manuseando os pequenos retângulos de massa para que ganhassem forma. Foram três longos meses no primeiro emprego, até conhecer uma escola de Ensino Médio que aliava o ensino básico com o técnico, localizada em Novo Hamburgo, cerca de 30km de distância de Canoas..  

Entrou no Liberato em 2006 e, a partir de então, passou a dedicar-se integralmente aos estudos.  Mas a rotina não aliviou, bem ao contrário. Pedro decidiu cursar Técnico em Eletrônica, o que demandava muitas horas diárias em frente aos cadernos.  

Muito mais do que uma possível profissão, os tempos de ensino médio foram primordiais para a formação pessoal de Pedro. “O Liberato me formou como pessoa. Eu tinha um orientador, que mudou a minha vida, o professor Jaime. Ele dizia: ‘aqui a gente não ensina conteúdo, a gente ensina vocês a aprender. Se vocês aprendem a aprender vocês vão aprender qualquer coisa’”, lembra. 

Para quem ouviu falar de Pedro Rossa no ensino médio, não vai lembrar apenas do estudante dedicado, mas de uma figura lendária na gincana da escola. “Enquanto muitos dos meus colegas eram fissurados em ficar dentro do laboratório, eu fui por três anos o mascote do nosso curso. Eu colocava uma roupa de Taz e saía interagindo com as pessoas. Eu fiquei conhecido por isso, pela interação. Quando eu fiz o meu estágio eu vi que tudo isso que eu gosto, que é interagir com os outros, falar com gente, ser criativo, onde é que eu ia colocar isso tudo?”, conta. 

Pedro Rossa vestido de TAZ, na apresentação das equipes na gincana no Liberato | Foto: Arquivo Pessoal

Então, o que parecia óbvio – um formando em eletrônica cursar uma graduação de exatas – não aconteceu. A criatividade e a interação com as pessoas, tanto prezada pelo então formando, materializaram-se no curso de Realização Audiovisual da Unisinos, o CRAV. Foram quatro semestres no cinema, e algumas experiências marcantes, como o dia em que Pedro encarou o desafio, vestiu-se como o Flash e saiu performando pelos corredores da universidade (vídeo abaixo) 

“Na primeira semana de aula, um cara me viu com a camiseta dele e disse ‘tu é o Flash’. Todo mundo começou a me chamar de Flash. Os professores, pessoal nos sets de filmagem. Eu tive um trabalho, na disciplina de TV, que era fazer um vídeo. A gente comprou uma roupa do Flash. Eu me vesti, dentro da Unisinos, e a gente fez a história do Flash. Tem o vídeo lá, eu falando como se fosse o Flash”, relembra.  

Assim como a roupa do Taz marcou a passagem pelo Ensino Médio, o Flash ficou gravado como o personagem do curso de cinema. Quem procura o perfil de Pedro nas redes sociais, encontra o apelido “Flash” atrelado ao nome.  

Enfim, Jogos Digitais

Pedro tem uma longa caminhada até ingressar no curso de Jogos Digitais, em 2014. Passou pela Eletrônica, entrou no curso de Cinema e foi até estagiário da TV Unisinos, mas ele ainda não havia se encontrado e, aquele velho conselho da mãe, dizendo para que ele ver o mundo com os próprios olhos, era latente.   

“Eu sempre tive essa questão criativa, então encontrei na grade curricular do CRAV vários pontos de interesse. Mas no decorrer do curso eu percebi que o estilo de vida, a questão de horários, eram diferentes do que eu estava buscando. Faltou a parte técnica que eu também gostava. Eu queria encaixar a parte técnica com a parte criativa. Quando eu percebi que estava faltando algo, eu tranquei e depois em Jogos eu consegui encontrar”, confessa Pedro. 

Foto: Arquivo Pessoal

A grade curricular de jogos trazia a técnica tanto almejada por Pedro, e foi amor ao primeiro semestre. “Eu não entrei em jogos porque ‘bah, eu quero fazer jogos digitais’, eu entrei porque vi nele uma grade que tinha muito foco em computação gráfica, que era uma área de importância. Eu entrei por um motivo, que era puramente da técnica que eles ensinavam e já no primeiro semestre eu me encontrei, e daí eu decidi ‘eu quero fazer algo relacionado a isso’.  

Logo ao ingressar no curso, Pedro procurou alguns professores que pudessem indicá-lo para algum trabalho. Encontrou a Iniciação Científica e começou a pesquisar, inicialmente, no PPG de Educação. No semestre seguinte, encontrou uma oportunidade no PPG da Computação e não pensou duas vezes antes de aceitar. Mas, foi nesse instante que uma luz acendeu no então estudante: a docência. Depois disso, por conta do surgimento de oportunidades profissionais, Pedro voltaria a dedicar-se integralmente a pesquisa somente após sua formatura e ao ingressar no Mestrado, iniciado em 2018/2.

 

Atomic Rocket

A história de Pedro nos Jogos Digitais se confunde com a trajetória do Laboratório Experimental do curso, o Atomic Rocket. Idealizado por dois professores, o projeto conseguiu a primeira verba da universidade para a contratação de um laboratorista. Mas, o escolhido deveria ter capacidade de atuar, também, no estúdio da Rádio Unisinos. Nesse caso, e não por acaso, Pedro Rossa foi indicado por dois professores para o cargo: um dos Jogos Digitais e uma professora do Jornalismo.  

Começava então mais uma experiência transformadora. Os estagiários do Atomic Rocket eram colegas de aula de Pedro, o que demandou uma gerência de relações constante. Mas para quem interagia na gincana, vestido como o mascote Taz, Pedro não teve maiores dificuldades. Estudando pela manhã no campus de São Leopoldo e dividindo-se entre o Laboratório de Jogos e os estúdios de rádio em Porto Alegre, ele desdobrou-se por dois anos, mas dedica a correria, um grande ensinamento.  

“Toda a interação com professores, trabalhando oito horas enquanto estudava, acabou formando o meu perfil profissional e também o meu perfil pessoal. Acabou criando um pouco de tudo o que eu acredito e que levo pra vida, em questões éticas. Como, desde o começo eu estava, ou em uma bolsa, ou trabalhando, sempre envolvido, eu tinha essa experiência de como é lidar com essa situação, universidade versus trabalho, e isso me ajudou muito”, conta. 

Para ele, o contato com os professores foi primordial, porque foram nestas relações que ele encontrou incentivo e apoio para buscar o que realmente queria seguir. “Eu consegui perceber que não queria trabalhar para a indústria, especificamente. E isso ficou tão forte, que um professor conseguiu me convencer a entrar em um mestrado com ele e trabalhar em um projeto de pesquisa de pós-graduação. E isso montou o que eu quero construir daqui pra frente”.

“A amizade que eu fiz com os professores, o conhecimento que agreguei, é algo incrível que eu uso hoje, dentro do que eu faço, aquele conhecimento que foi agregado, então não eu acredito que não teria nada que eu mudaria” 

 

Herói da vizinhança

Talvez o super-herói que tenha a história mais similar à de Pedro seja aquele tatuado no seu braço direito: o Homem-Aranha. O jovem nerd Peter Parker mantém dois empregos e mesmo com as dificuldades para pagar o aluguel, quando chamado, coloca sua roupa de herói e parte para salvar quem precisar de ajuda. Não que o egresso em Jogos Digitais tenha superpoderes, nem que saia espalhando teia de aranha para prender criminosos. Mas se existe algo que define Pedro é a capacidade de, mesmo com uma rotina tão difícil, encontrar um tempo para salvar a vizinhança. 

Pedro Rossa fantasiado em trabalhos voluntários. | Foto: Arquivo Pessoal

Ainda enquanto estudava no Liberato, ele conheceu, por meio de um grupo de trabalho voluntário formado por uma colega, sua nova paixão: ajudar. “Nós íamos no asilo, que era um lugar com bastante necessidade, coletávamos algumas coisas e levávamos para eles. A gente fazia páscoa, fazia cestinha.”, conta. Nesta época, a roupa do mascote Taz era aliada dele, que a vestia para as ações.  

Mais tarde, passou a participar do Dia Mágico, trabalho que surgiu deste primeiro contado com o voluntariado, mas, desta vez, em casas de acolhimento e abrigos de crianças. Mais tarde ainda, quando já cursava o CRAV, Pedro conheceu a LEME – Associação de Lesados Medulares – de Novo Hamburgo e passou a realizar trabalho voluntário lá.    

Foto: Arquivo Pessoal

Dois pés na pesquisa

A primeira experiência na Iniciação Científica plantou as sementes da docência em Pedro e o contato com o mercado só fortaleceu esta vontade de pesquisar. Com a pós-graduação, foi possível juntar todos os pedaços cultivados durante a graduação, e enfim, encontrar o caminho que tanto almejava. Para os próximos quatro anos, o plano é seguir no projeto em que se encontra, sendo que metade desse tempo é dedicado a pesquisa de mestrado. 

“É onde estou abrindo as portas e me encontrando na questão acadêmica. Têm a questão das publicações, estou escrevendo pra revista, para artigos. Então ali eu estou me encaixando e vendo qual a linha que eu vou seguir, dentro da parte da computação. Um dos meus objetivos é dar aula, principalmente no curso de Jogos. Então, além do mestrado, continuar nessa pesquisa”, almeja.  

Foto: Arquivo Pessoal

 

Conselho de mestre 

Para quem está com o pé no início da jornada acadêmica e vê a nuvem dourada o levando para o curso de Jogos Digitais, Pedro aconselha entender a grade curricular e ser capaz de identificar se é este o caminho certo. Ele lembra que muitos colegas acabam ingressando com uma visão errada da graduação em Jogos e acabam se decepcionando logo nas disciplinas iniciais. 

“Às vezes as pessoas falam ‘bah, tu gastou dois anos no cinema’. O cinema foi o diferencial pra mim. Os conhecimentos que eu trouxe de lá agregaram muito para eu conseguir olhar as coisas de uma perspectiva diferente. Eu tenho um afeto muito grande pelo curso, pelos professores”

“Não é porque tem jogos no nome que tu vais jogar. O nome engana. Se tu jogava, depois de entrar tu não vai mais, porque é muita coisa. O nosso currículo é excelente, mas é um currículo pesado, tem que se dedicar, e é bem importante ter isso em mente quando entra. Vai além do nome, vai ver o que realmente são Jogos Digitais”, aconselha. 

Jogos Digitais é um dos cursos que se encontra em duas escolas: a Indústria Criativa e a Politécnica. Pedro entende isso como sendo o “casamento da técnica com a criatividade”, e por isso acredita que para se encontrar na graduação é preciso ser criativo e, ao mesmo tempo, ter foco. “Precisa pensar fora da caixa, mas precisa ter foco, porque tem matemática, tem que programar muito e fazer muito trabalho técnico”, conta.

 

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