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Literatura em pauta

Revistas e jornais literários se destacam no cenário nacional

Postado em: 18/09/2018
Por: Eduarda Bitencourt

Apesar das previsões apocalípticas, o livro no suporte físico não foi extinto, e a literatura se prolifera em diversas plataformas. Os e-readers, como kindle e kobo, encontraram espaço e se tornaram facilitadores da leitura. A literatura cresce dentro das redes sociais, do audiovisual e da mídia impressa. É nesse espaço que as revistas e jornais literários se inserem e destacam na missão de propagar livros e os novos autores. 

Kindle facilita acesso a leitura de forma digital

A história dessas publicações é extensa. Existem autores que afirmam que as revistas e jornais que dialogam sobre literatura são tão importantes quanto a produção literária do período. Nas páginas desses impressos, autores, poetas, artistas e pensadores divulgam suas ideias e se tornam parte intrínseca da cultura do país. 

Dentro da história cultural brasileira, duas revistas marcam a história pela relevância, resistência e pelos autores e artistas que passaram por lá. A Klaxon circulou entre 1922 e 1923 mesclando arte com literatura. A publicação contava com colaboradores como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Anita Malfatti, Sérgio Buarque de Holanda e Tarsila do Amaral. Estudada hoje como força do movimento de cultura moderna, a Klaxon deixou legado na cultura brasileira de publicações culturais. A Revista de Antropofagia sucedeu a Klaxon na divulgação de literatura nos anos de 1928 e 1929. Nela, se uniram antigos colaborados da Klaxon e nomes como Carlos Drummond de Andrade.  

Revistas Klaxon e Antropofagia foram pioneiras na disseminação de arte e literatura

As publicações literárias contemporâneas carregam a herança de disseminação cultural destes antigos periódicos. Nesses espaços, leitores e autores se encontram para debater e produzir literatura.  

 

Da resistência a contemporaneidade 

Atualmente, o jornal Rascunho é uma dessas publicações que se destaca no cenário nacional. Segundo o editor, Rogério Pereira, o jornal surgiu de um “tédio” quando ele voltou de sua pós-graduação em 2000. Em 2004 o Rascunho se emancipou do Jornal do Estado de Curitiba, onde era inicialmente publicado. “O suplemento saiu e começou a se manter por conta própria. Na época, já haviam alguns anunciantes, parcerias e pessoas assinando, mas foi tudo muito artesanal, muito tirado do nosso bolso para sustentar a produção. Eu brinco que o Rascunho foi feito na teimosia cooperativa”, comenta Rogério. 

Jornal Rascunho é de Curitiba e possui quase 20 anos de existência.

Atualmente, o periódico conta com 220 edições publicadas e cerca de 2.500 assinantes e diversos colaboradores. “Durante todos esses anos nosso público só cresce, assim como nossos colaboradores. Ainda falta espaço para todo mundo que me envia texto. Todo dia eu recebo e-mail de gente pedindo para participar do Rascunho”, conta o editor. 

Segundo dados do Instituto Pró-Livro, apesar dos números de leitores ter aumentado nos últimos anos, o Brasil é um país que lê muito pouco – são apenas 5 livros por ano, sendo que desse número metade é em partes. Por causa de números tão baixos, várias publicações literárias brasileiras assumem o título de “movimentos de resistência”.

  

Entretanto, para o editor do Rascunho, é preciso pensar antes sobre o que essa resistência se refere. “Nós somos um jornal de nicho, então a nossa busca por leitores é dentro de um espectro já definido. Existem as pessoas que gostam de ler e debater sobre literatura e existem pessoas que apenas gostam de ler. O movimento de resistência que existe é contra um Estado que não valoriza a literatura e a produção literária do jeito que ela deveria ser valorizada”, explica Rogério.  

 

Literatura e imagem 

Outra publicação que se destaca nesse contexto é o Suplemento Pernambuco. Para o editor-assistente do periódico, Igor Gomes, é instigante trabalhar com leitura no Brasil. “Não temos qualquer intenção de resolver os problemas de leitura do país, mas deixar disponíveis leituras pertinentes sobre dinâmicas mais específicas do campo literário, sobre a literatura em relação com as principais questões do contemporâneo. Apesar de suas especificidades, o campo literário reflete e reproduz incontáveis questões da sociedade, então às vezes abordamos um e acabamos tocando no outro” afirma. 

Capas do Suplemento Pernambuco demonstram pluralidade de focos das edições.

O Suplemento Pernambuco surgiu em 2007 e conta com 150 edições publicadas. Assim como o Rascunho nasceu dentro de um jornal, o Diário Oficial do Estado de Pernambuco, e hoje funciona como um produto independente. Além da literatura, o Suplemento também é referência no setor de design gráfico. Igor ressalta que o projeto gráfico demonstra como literatura e imagem podem trabalhar juntas. “A preocupação com a imagem é uma forma de atrair atenções – de leitoras/es, de livrarias, dos diversos atores do campo literário. Também é uma forma de mostrar que é possível usar imagens como forma de abordar a literatura – ainda que, em nosso caso, ela não seja a protagonista das abordagens”, explica ele.  

Apesar de um cenário cultural que pouco valoriza a leitura, Igor afirma que existe uma grande força no meio e é necessária incentivá-la. “Apostamos sem medo nas potências da literatura porque sabemos, como leitores e pelo contato com colaboradoras/es e leitoras/es do Pernambuco, de sua força na vida das pessoas, de que ela é uma necessidade social”, finaliza. 

 

Publicações na web 

Tanto o jornal Rascunho, quanto a Suplemento Pernambuco trabalham no meio impresso e digital. A Revista Pessoa é um veículo exclusivamente digital de propagação de literatura que atua há 8 anos. Segundo sua editora, Mirna Queiroz, “a revista Pessoa surgiu como espaço de criação, experimentação e divulgação da literatura de língua portuguesa. Ela evoca um dos maiores poetas de todos os tempos numa proposta simples, que é a de promover a experiência de leitura literária, com todas as suas implicações políticas e estéticas.” 

Por ser um veículo apenas web, não é possível contabilizar as edições da revista, mas Mirna afirma que nos oito anos existem atualizações diárias no site. “A revista procura dialogar com um público amplo, de diferentes gerações, não busca especificamente um público alvo. Sabemos é que as mulheres representam 52% dos nossos leitores, que, em sua maioria, tem entre 25 e 50 anos”, assinala ela.  

Assim, como os outros editores, Mirna também reforça as dificuldades de trabalhar com literatura no Brasil. “Não há solução mágica [para esse cenário]. O mundo inteiro assiste atônito à redução de leitores de literatura. O problema do Brasil é que passou a concorrer com as facilidades tecnológicas antes mesmo de universalizar a alfabetização e o acesso ao livro. Ou seja, a nossa derrota é dupla”, explica a editora. 

Home do site da revista Pessoa no dia 18 de setembro de 2018.

A editora tem esperança na ampliação dos espaços dedicados a leitura em todos os equipamentos culturais. Para Mirna, não é só necessária a publicação de textos, mas espaços para debates, sessões com escritores, manifestações de leitores etc. “Formar leitor de literatura é formar leitor de todas as expressões artísticas, culturais. E formar leitor do mundo”, fala Mirna. 

Ela explica que a revista contribui no cenário atual através de questões importantes de nosso tempo. “É fundamental para ir na contracorrente de um pensamento raso que se propaga por aí e de um desprezo profundo por tudo que não seja o próprio umbigo. Além desse exercício de alteridade, a literatura permite aos sujeitos se desenvolverem como pensadores autônomos, com capacidade para assumir protagonismo no seu espaço e tempo, a partir da tomada de ciência das suas complexidades, criando e recriando sentidos para as suas práticas sociais”, finaliza.

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