(Des)encontros durante uma Guerra Mundial - Portal da Indústria Criativa


(Des)encontros durante uma Guerra Mundial

"Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler"

Postado em: 23/07/2018
Por: Kellen Guaragni Dalbosco

Escrito pelo australiano Marcus Zusak, “A menina que roubava livros” (Intrínseca, 2007) traz uma história distante do calor subtropical da Oceania. A jovem Liesel Meminger tem sua vida perpassada pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, em plena Alemanha nazista. Para narrar a trama, uma convidada que conheceu bem os combatentes deste que foi o maior confronto que a humanidade já viu: a morte. 

São 480 páginas narradas por aquela que mesmo tão presente, encontrou-se somente três vezes com Liesel e, por afeiçoar-se pela menina, seguiu seus passos entre 1939 e 1943.

Fotos: Kellen Dalbosco

Mas para quem espera morbidez na narração da ceifadora de vidas, surpreende-se com a simpatia transferida pelas palavras. Dona Morte conheceu Liesel na primeira vez em que a menina lhe escapou. Filha de pais comunistas e perseguidos pela guerra, a menina viu o caçula morrer nos braços da mãe enquanto viajavam para conhecer a família que abrigaria os irmãos.  

OBS 1: Apesar de parecer, a morte do irmão de Liesel não é um spoiler, ela acontece logo nas primeiras páginas do livro e é indispensável para o rumo da história.  

No enterro do irmão, o coveiro deixa cair um livro na neve. O “O Manual do Coveiro”, é o primeiro furto da garota, que nem sequer sabe ler, mas vê o objeto como o único apego a família que lhe resta. Depois de estabelecida na nova casa, com a ajuda do pai adotivo Hans HubermannLiesel aprende a ler e, aos poucos vai decifrando a obra que tem em mãos. 

Constantemente assombrada por pesadelos, Lisel encontra nas palavras um conforto. A lista de livros furtados pela garota aumenta com o desenrolar da história, passando por obras como “Mein Kampf” – “Minha Luta”, de autoria do próprio Hitler. O roubo de livros passa a acontecer em bibliotecas privadas e em pilhas de livros queimados, e, mesmo quando Liesel os ganhava, a emoção não era a mesma de quando ela conseguia surrupiar as obras.  

OBS 2: O Guerra não deixa de atormentar o cotidiano de Liesel, que é obrigada a conviver com cenas e histórias que, por vezes, podem ser pesadas para o leitor.

Entre a escola, um amigo colorido, que vive pedindo beijos para a menina, e as tarefas domésticas que Liesel deve desempenhar para ajuda mãe adotiva a manter os negócios, uma visita inesperada bate à porta da família cobrando uma dívida de honra. O judeu Max muda a rotina dos Hubermann e desenvolve uma grande amizade com a menina.  

OBS 3: Max também tem uma ligação muito forte com os livros, mas está é uma história para o leitor descobrir. 

Como toda história que acontece durante uma Guerra Mundial, mesmo as que, supostamente, tenham finais felizes, contém um encerramento trágico. Mais do que uma história sobre uma menina vivendo nos horrores do confronto, “A menina que roubava livros” mostra a própria Dona Morte surpresa com a crueldade do ser humano. Para o leitor, fica o conselho de insistir na história, que pode ser cansativa no início, e mergulhar na história, porque mesmo com a ressaca literária iminente vale a pena.  

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