A moda vista como protesto - Portal da Indústria Criativa


A moda vista como protesto

Artistas e estilistas usam as passarelas para fazer discursos políticos

Postado em: 11/07/2018
Por: Luiza Soares

Além de ser usada com o objetivo de “se vestir bem”, a moda vem trazendo para o seu universo pautas contemporâneas do Brasil e do mundo. Tratar a moda como algo além de peças de roupas, mas como um protesto vem sido adotado pelos estilistas das grifes mais conhecidas no mundo, como Tommy Hilfiger, Dior, Calvin Klein e Creatures of Comfort.  

Nos últimos meses, vimos a mídia repercutindo casos de assédio em Hollywood, situação que fez com que atrizes usassem vestidos pretos nos tapetes vermelhos de premiações, para protestar contra os grandes produtores de cinema acusados de assédio, como Harvey Weinstein. A partir disso, as grifes de moda estão cada vez mais trazendo pautas políticas e sociocultural para as passarelas. Em sua última edição, o New York Fashion Week foi marcado por protestos ao seu atual presidente, Donald Trump, e também de apoio aos imigrantes refugiados.  

José Luis Carvalho Reckziegel, professor do curso de Comunicação Digital da Unisinos, explica que os alcances da moda se reconfiguram e se movimentam no sentido de reformular a ordem simbólica e representacional, para que, assim, a moda possa ser entendida em dimensão ampla: “Uma dimensão que espelha simultaneamente o tempo e o social. Refletindo os comportamentos sociais vivenciados pelos pertencimentos e determinados grupos em sua dinamicidade e em sua pluralidade”. 

“Partindo-se da realidade de que a moda faz gênero, ela é expressão das aparências que performatizam diferentes formas de ‘ser’ no mundo. Ela é uma forma de posicionamento e de protesto. A moda assim, é vista como expressão cultural e como expressão de gênero”, explica o professor 

O estilista Tommy Hilfiger exibiu sua nova coleção em parceria com a modelo Gigi Hadid, com todo o elenco entrando na passarela usando bandanas brancas amarradas no pulso esquerdo em prol de inclusão, batizada de “Tied Together” (“amarrados juntos”, tradução livre). A ação foi criada pelo Business of Fashion para movimentar a indústria da moda em solidariedade a imigrantes e minorias durante a temporada de moda internacional, para conseguir fundos em favor da União Americana pelas Liberdades Civis e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. 

Para Reckziegel, há muito tempo a moda vem se apresentando como um fenômeno sociocultural multifacetado. “Suas várias faces nos são apresentadas como reflexo da sociedade e sua contextualização no tempo e no espaço, sempre de acordo com as subjetividades dos sujeitos que dela fazem parte”, afirma o professor. Segundo ele, esse pensamento pode ser entendido considerando-se as transformações ocorridas nos últimos tempos em termos culturais por meio de costumes adornos corporais e expressões identitárias.  

“Na moda, as características relacionadas à cultura das aparências representam esforços empreendidos rumo à criação e à manutenção de tendências estéticas, que retratam, promovem e aceleram mudanças comportamentais identitárias no cenário contemporâneo no qual vem sendo cada vez mais evidenciado a luta pelas garantias dos direitos de igualdade e liberdade entre homens e mulheres”, declara o professor. 

“Podemos dizer que, nesse sentido podemos considerar a moda como um sistema que possibilita uma total liberação das práticas delimitadoras entre as expressões de gênero e as expressões das sexualidades contemporâneas”, segundo o professor. 

A moda está presente em todas as transformações desde o século XV, com o fim do período medieval e o início do Renascimento na Europa, a palavra que conhecemos hoje provém do latim “modus”, que significa “costume” ou “maneira”. Mas foi a partir da Revolução Industrial que a tecnologia e a produção em massa permitiram que os homens comuns pudessem escolher o que vestir, o que antes era restrito à elite por mais de 300 anos. 

Às vésperas da Revolução Francesa, a pequena burguesia se juntou e ficou conhecida como os “sans-culottes” ou “sem culote”, forma adotada de se distinguir da nobreza. Já no período Pós-Revolução Francesa, se adota uma moda restrita e simples inspirada no classicismo greco-romano, existe o protesto contra os excessos vividos no Barroco e no Rococó às custas da miséria da população. 

Para ilustrar a história dos protestos políticos e socioculturais na moda e como ela é um elemento em constante transformação, abaixo segue cinco tópicos que narram a origem desse movimento que persiste até os dias atuais: 

  1. Período Medieval: com o declínio da Idade Média na Europa, as cidades começaram a se desenvolver, atraindo pessoas que antes viviam em função dos nobres, no campo. Nos núcleos urbanos, surgiu uma nova classe social, a burguesia. Eles não eram nobres, mas eram ricos e, querendo se diferenciar dos trabalhadores braçais, os burgueses se espelharam na nobreza e começaram a copiar suas roupas.  
  1. Revolução Francesa: os “sans-culotte” se distinguiam da nobreza, que usava culote, a calça ajustada na altura do joelho. Seu maior símbolo de extravagância na época era Maria Antonieta. 
  1. Século XIX: período marcado pelo surgimento do terno, calça social, paletó, colete e gravata para os homens bem-sucedidos da época, para não serem confundidos com trabalhadores industriais. Para as mulheres, costureiras francesas faziam vestidos com saias amplas, cheias de babados, aros de arame e aço, anáguas e espartilhos. Esses modelos não permitiam que as mulheres sem abaixassem, sentassem ou mesmo respirassem direito, mas serviam para mostrar que uma mulher de classe não precisava fazer esforços. Coco Chanel foi pioneira ao vestir calça comprida, protestava contra a dominação do corpo feminino pela sociedade patriarcal. A peça simbolizava o espaço na sociedade reivindicado pelas mulheres.  
  1. Século XX: Na virada do século XX, mulheres forçaram a modernização do vestuário feminino, exigindo roupas mais simples e funcionais, como as dos homens. Trocaram os vestidos cheios de camadas, por saias compridas, camisa social e até gravata. Nesse período, elas vestiam os primeiros “tailleurs” com saia. E na década de 1960, ocorreu a famosa ” Queima de sutiãs”, um protesto público com cerca de 400 ativistas do “Women’s Liberation Movement” quando ocorreu o concurso do Miss America, em Atlantic City, nos Estados Unidos. 
  1. Século XXI: no início desse ano, celebridades de Hollywood protestaram na temporada de premiações, usando roupas pretas para protestar contra os casos de assédio nas produções cinematográficas dos Estados Unidos. O movimento “Time’s Up” mobiliza mais de 300 atrizes, diretoras e agentes, e já arrecadou 14 milhões de dólares para ajudar vítimas de assédio sexual. A cor preta foi escolhida pois tem uma simbologia muito forte de posicionamento, de acordo com a professora do curso de Design de Moda do Senai, Daniela Nogueira. “Como as atrizes estão em um lugar com uma visibilidade absurda e, por serem quem são, o preto forma uma espécie de exército”, explica Daniela. 

 

Alguns casos parecidos ocorreram em solo nacional, como o São Paulo Fashion Week de 2016, em que o estilista Ronaldo Fraga levou modelos transgêneros para a passarela e que verbalizavam a sua luta contra a transfobia. Sua coleção colocava em foco as modelos e suas histórias, invés das peças de roupas. Intitulado “O corpo aprisiona, as roupas libertam o ser”, o desfile de Ronaldo propôs uma reflexão sobre a realidade de muitas mulheres e homens que não se encontram em seus próprios corpos e que procuram refúgio nas peças de roupas, para mostrarem quem realmente são.  

E em junho desse ano, na Parada LBGTQ de São Paulo, a cantora drag queen Pabllo Vittar se apresentou para milhares de pessoas na Avenida Paulista, usando um conjunto de casaco com capuz e saia longa estampados com manchetes de jornais relacionados à homofobia. Por cima das notícias, havia os dizeres em vermelho: “Parem de nos matar”. O Brasil é o país que mais assassina a população LGBTQ no mundo, segundo dados da Rede TransBrasil e do Grupo Gay da Bahia (GGB). A organizações registraram um aumento de 30% dos homicídios em 2017 ao 2016, passando de 343 para 445.  

Redes Sociais