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Luís Nassif conversa com professores e alunos da Unisinos
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Texto: Kellen Dalbosco, Natan Cauduro, Luiza Soares e Giulia Godoy

Quem vê o jornalista Luís Nassif entrando pela porta da sala não imagina a trajetória dele dentro do jornalismo nacional. De camisa social listrada, caneta no bolso e sapatos brilhosos, ele atendeu a estudantes de Jornalismo, professores e a imprensa na tarde desta segunda-feira (19) na Unisinos Porto Alegre. Ele está na universidade para o lançamento do Projeto Nuvem: Núcleo Universitário de Educação para as Mídias.

Com muito repertório, brincadeiras e sempre com sorriso no rosto, abordou temas atuais, que misturam política e práticas jornalísticas. Para os jornalistas em formação, ofereceu dicas valiosas para o ofício. Veja alguns tópicos comentados pelo profissional: 

A universidade e a formação de jornalistas 

Para Nassif, o mito de que “em seis meses de redação aprende-se mais do que numa faculdade”, foi quebrado. Ele conta que avaliou bancas de Trabalhos de Conclusão de Curso e que viu um grau de complexidade que não existe dentro das redações. Os grandes “jornalões”, como ele chamou, ainda não perceberam as mudanças do jornalismo e mantêm a sistemática ao invés de mudar o enfoque de suas redações e, portanto, as grandes redações vão deixar de existir, acredita.  

Lembrando das chamadas “matérias caça cliques”, ele chama a atenção para o papel do jornalista, principalmente para aqueles que estão saindo da graduação. “Nunca foi tão fácil fazer jornalismo”, exclamou, principalmente o jornalismo investigativo. Para ele, basta buscar as informações que estão disponíveis 24h na internet e o desafio é saber usá-las com coerência. “Conforme os dados vão aparecendo, você adapta a narrativa”, explicou. O segredo é contar uma história interessante, adaptando a narrativa aos fatos, conforme eles vão surgindo. “O segundo desafio é encontrar um jornal que queira publicar a história”, brincou.

Opinião Pública nas redes sociais x colunistas  

“Nessa fase de internet, todo mundo é jornalista”, afirmou Nassif. Para ele, a liberdade de expressão e de informação é de extrema importância para a democracia, assim como o debate de ideias. Contudo, essa liberdade também expõe problemas. Um deles está ligado à opinião pública nas redes sociais. Segundo Nassif, há banalização da opinião do especialista. Uma opinião, vinda de uma fonte com autoridade, pode confrontar ideais adquiridos e cultivados durante anos. Bloquear novas ideias através de redes sociais e manifestar as próprias com objetivo de autoconfirmação é a fórmula que produz muitos dos comentários falsos, raivosos e preconceituosos online, uma “volta à selvageria”, como ele definiu. 

No jornalismo, a opinião surge através dos colunistas. Na visão de Nassif, o cargo possui um número exagerado de profissionais em uma “luta” pela audiência, pelo ouvinte, pelo leitor e pelo clique, jornalistas tendem a abandonar a especificidade de um assunto, tornando suas colunas, e consecutivamente opiniões, em algo raso e de fácil disseminação. “O pensamento é guiado por clique ou patrocínio”, disse afirmando que deve haver um compromisso com o fato, não com o lucro que ele pode gerar. 

Foto: Kellen Dalbosco

Grandes jornais e as fake news 

Nassif posicionou-se quanto ao papel dos grandes veículos brasileiros quando se diz respeito às fake news, e ajudou a esclarecer como elas devem ser combatidas. Segundo ele, as redes sociais mudaram o comportamento dos jornais impressos, como o caso da saída da Folha de S. Paulo do Facebook. “A Folha como jornal não se deu conta das mudanças. Com a internet, vai mudar o jornal diário, e este tem que cumprir diariamente o papel do que era semanal. Para isso, que mudar totalmente o enfoque das redações, tem que trabalhar com sistemas que permitam fazer pesquisa. O jornalista tem que saber juntar informação, consolidar”, afirmou. 

A respeito das notícias falsas, Nassif afirmou que o jornalista tem o papel de contrapor e explicar os fatos falsamente noticiados. Com a ascensão da internet, qualquer um se diz jornalista, e compartilham a notícia com a qual tem mais afinidade. “O público quer ler o que lhe convém”, esclareceu. Ele falou também sobre o papel que a grande imprensa teve nos últimos dez anos, ao martelar um discurso de ódio e jogando com a opinião pública. Ele afirma que as fake news integram uma guerra midiática desde 2005 e que foi possível ver resultados nas eleições presidenciais de 2006. 

Nassif opinou também sobre os grandes veículos que hoje tentam vender uma imagem de referência contra as fake news, mas que escondem uma história de disseminação de notícias falsas. “Neste momento que você tem essa desorganização completa no mercado de informação, os jornais tentam recuperar, tentam vender que são uma referência”, afirmou. Para ele, este movimento é uma jogada para tirar de cena os blogs independentes que fazem o contraponto.  

Efeito manada 

Durante o debate, foi proposta a discussão sobre diversas notícias ao redor de um mesmo tema e em diferentes meios de comunicação. Nassif acredita que o “efeito-manada” é um dos grandes problemas que a imprensa vem passando, principalmente na era digital. Ele afirma que o uso de perfis falsos na internet e, às vezes, as próprias colunas em jornais impressos acabam se detendo em poucas fontes de informações, deixando de expor mais de um lado da história. 

O jornalista acredita que os valores aprendidos no jornalismo vêm se perdendo, e que dia após dia, os veículos se acomodam às situações, seguindo a linha de publicação de outros veículos, sem muitos questionamentos. “A mídia tem medo de corrigir os erros e, a partir do momento em que não se assume o erro, não é mais um jornalista”, conclui Nassif.

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