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Christian Gonzatti

“As viagens da vida transformam a gente”

Postado em: 15/12/2017
Por: Kellen Guaragni Dalbosco

A camiseta do Harry Potter já dá o tom do encontro. Publicitário com o pé no jornalismo, Christian Gonzatti tem uma história de vida que poderia muito bem protagonizar os filmes de J. K. Rowling. Um menino que sofre com preconceitos, não desiste e usa os ensinamentos para crescer, vencer os monstros do passado e reescrever a própria história. Analogias à parte, não é exagero falar que a vida de Christian renderia um grande roteiro.

Formado há dois anos pela Unisinos, Christian nasceu em Esteio, Região Metropolitana de Porto Alegre, onde passou os primeiros anos da infância. No início do Ensino Fundamental, mudou-se com a família para Sapucaia. Seus pais, sem estudo e com poucas condições financeiras, sempre trabalharam muito para não lhe deixar faltar o essencial: comida, roupa e educação.

É aqui que um traço marcante da personalidade de Christian começa a ser traçado. Mesmo com todas as dificuldades, ele sente-se privilegiado. “Eu sou um menino pobre, vim de uma escola precária. A única comida que meus colegas tinham no dia era a merenda, mas eu tive sempre alguns privilégios”, refletiu.

Fotos: Reprodução Facebook

Mesmo criança, ele sempre soube quem era. A percepção de mundo que Christian carrega existe desde seus primeiros anos de vida, quando já tinha consciência do discurso social no qual estava inserido. E se no seu filme tivesse uma cena inicial, antes mesmo da introdução, seria a de uma “criança viada”, no sentido mais literal da palavra, brincando escondido com seus bonecos do Power Ranger, porque já sabia que aquilo seria mal interpretado pelas pessoas ao seu redor.

É muito engraçado porque eu fui uma criança ‘super viada’. Desviada das normas, dos padrões masculinos. Eu sempre soube que era gay, e quando eu tinha cinco ou seis anos, eu já tinha essa noção, eu já percebia nos discursos pessoais, nos discursos midiáticos aquela coisa que ser gay é errado. Aí eu escondia, mas com os meus bonequinhos, do Ranger vermelho e do Ranger azul, eu fazia eles namorarem sem ninguém saber”, contou aos risos.

“A maior criança viada que você respeita!” escreveu Christian em uma postagem no Facebook

O consumo de produções da cultura pop começou a fazer parte de sua vida, quando ele desenvolveu práticas fãs e virou consumidor assíduo de Harry Potter, visitando diariamente sites de notícias, esperando eternidades na internet discada de casa para baixar pôsters em HD do filme, lendo livros e participando de comunidades nas redes sociais sobre a saga do menino bruxo.

Com jeito mais afeminado – modo de portar-se destinado às mulheres – aprendeu desde cedo que teria que enfrentar um mar de preconceitos por sua orientação sexual. Com 12 anos, em uma apresentação no show de talentos da escola, uma música do Rouge – grupo formado pelo programa Popstar, que Christian acompanhou incessantemente com sua mãe – o expôs a homofobia do ambiente.

“No final falaram ‘a gente vai colocar uma música para as meninas e uma para os meninos”. E aí, a música das meninas era justamente ‘Ragatanga’, e minha mãe super ingênua disse ‘vai lá, tu sabe a coreografia’ e eu fui na frente das meninas, de  toda a escola, e comecei a dançar toda a coreografia. Todo mundo riu e foi a saída do armário porque depois disso não pararam de me infernizar”, relatou.

Aliás, um dos únicos assuntos capazes de tirar o brilho no olho de Christian é a adolescência conturbada. As agressões físicas e verbais foram desencadeadas diversas vezes a partir do consumo de produções da cultura pop. “ A primeira vez que apanhei de um colega, ele me perguntou se eu preferia comprar uma revista da Playboy ou um pôster do Harry Potter. Eu falei que o pôster do HP. Ele começou a dar tapas na minha cara, dizendo ‘tu é muito viadinho mesmo’”, contou, lembrando do episódio ocorrido enquanto ainda frequentava o Ensino Fundamental.

Sua mãe passou a ver que o consumo de produções como Harry Potter, incentivava o filho a buscar conhecimento. Sem condições de custear a graduação em uma universidade privada e tendo convicção que queria estudar, Christian decidiu que entraria no Ensino Superior por meio do Enem. Para isso, procurou instituições de Ensino Médio com boas colocações na prova.

Christian com seu namorado Guilherme.

Em sua busca, encontrou uma escola técnica em eletromecânica e eletrotécnica, que no ano anterior ao seu ingresso, esteve na segunda colocação entre as escolas estaduais no Enem. Para buscar o sonho de cursar o Ensino Superior, encarou o desafio de estudar em uma escola majoritariamente masculina, e decidiu tentar.

“Dada a forma como a sociedade sempre impôs um binarismo para as profissões, ela só tinha meninos. Nessa escola foi horrível porque eu me sentia muito excluído, eu não conseguia apresentar um trabalho, eu não conseguia falar, foi a pior experiência da minha vida”, confessou. 

“Eu fazia coisas de me cortar, eu ficava muito triste e não podia falar nada pros meus pais porque se falasse pra eles eu teria que dizer que eu era gay. Eu já tinha aceitado pra mim mas é tanto preconceito que a gente tenta negar. ‘Eu não sou, é uma coisa da minha cabeça, vai passar’ ou ‘eu posso casar com uma menina e fingir que sou hetero’ eu dizia”, revelou.

Harry Potter é ciência

Ainda no Ensino Fundamental, Christian decidiu desenvolver um trabalho na feira de ciências da escola sobre Harry Potter. Vestido como o protagonista e contando com a ajuda de uma amiga, que trajou a roupa de Hermione Granger, mudou a lógica que perseguia as feiras tradicionais da escola, que geralmente exibiam trabalhos sobre dinossauros, drogas etc. “Colocamos umas capas bem bregas de TNT mesmo, e foi o máximo, amaram. A partir daquilo minha mãe viu que Harry Potter me estimulava a estudar, porque ela sempre falou assim “se tu quer ser alguém, estuda’”, contou.

Ao ingressar na Iniciação Científica, já no seu primeiro ano no curso de Publicidade e Propaganda na Unisinos, o primeiro livro que recebeu para leitura foi o “Cultura da Convergência” de Henry Jenkins. A obra trata de produções como Matrix e o próprio Harry Potter , o que o fascinou e lhe deu a possibilidade de enxergar a cultura pop como pesquisa. O grupo de pesquisa foi encerrado no mesmo ano, mas já encantado pelo mundo acadêmico, Christian iniciou uma busca por professores com vagas na equipe.

“Foi aí que eu conheci o professor Ronaldo. Eu estava terminando o ‘Cultura da Convergência’ e não queria parar. Ele estava iniciando uma pesquisa sobre ciberacontecimento. Deu umas duas semanas e aconteceu um ciberacontecimento em torno de Harry Potter e essa foi a minha primeira apresentação em uma amostra de Iniciação Científica. Eu comecei a ver esses processos como uma possibilidade de trazer toda essa questão de gênero e sexualidade articulada a cultura pop”, contou.

Apresentação no evento “Mapeando Cenas da Música Pop”

Além da saga do bruxo em Hogwarts, Glee, uma série de televisão americana, participou ativamente da vida de Christian e apareceu na iniciação científica como pesquisa. Quando a série estreou, foi sua mãe que o incentivou a assistir, usando uma frase de quem conhece as preferências do filho: “Cris acho que tu vai gostar muito dessa série”.

“Tinha um adolescente que era gay, o Kurt, e tinha toda a representação da homofobia no ensino médio. Minha mãe amava o Kurt, ela defendia o Kurt, torcia pro Kurt. Aí eu pensei ‘peraí, se ela tá adorando o Kurt porque ela não amaria o próprio filho?’ Aí foi que caiu a ficha que havia uma brecha para que eu me aceitasse. Que contasse para as pessoas o que eu realmente era”, relatou. Coincidência ou não, o primeiro artigo científico produzido por Christian, foi em torno do universo Glee.

Apresentação no I Encontro de Diversidade Sexual e de Gênero

Os rostos que estampavam os pôsters que a mãe de Christian trazia para o filho, sempre muito fã de alguma coisa, tornaram-se nomes que ilustraram trabalhos acadêmicos, recheados pela convivência difícil com o fato de ter crescido homossexual em comunidades preconceituosas. Analisar produções de sentido e acionamentos que comunidades LGBTQs e demais minorias provocam nas redes sociais remete às interações dos fandoms no Orkut, lugar no qual Christian buscava apoio e um ambiente para se encaixar.

Justamente por pesquisar questões de gênero, sexualidade e o mundo pop – universos que ele conhece muito bem – traz para a pesquisa a vivência e intensifica a sua fala quando o assunto é tocado. Apaixonado pela sala de aula, teve a oportunidade de ministrar aulas para os alunos da graduação, em seu estágio docente. Na disciplina de Teorias da Comunicação, levou seu projeto e sua experiência para a sala de aula e foi capaz de inspirar diversos alunos.

Queer

“Queer” é uma expressão utilizada no inglês para denominar, de forma pejorativa LGBTQs, podendo ser traduzida como “bixa”, “viado” ou “sapatão”. Na tradução literal ela significa estranho. Seja por uma ou outra, queer é algo que Christian sempre foi, e faz questão de ser.

Durante sua performance em uma disciplina do mestrado

Publicitário por formação, sempre esteve próximo ao jornalismo. Desde o primeiro grupo de iniciação científica, no qual ingressou, sempre pesquisou assuntos jornalísticos. Mesmo no mestrado, também na Unisinos, essencialmente por estar envolvido na área de jornalismo pop, é visto como um estranho dentro do grupo. “As pessoas tendem a ler este jornalismo pop como não jornalismo. ‘Isso não é jornalismo, divulgar o clipe da Lady Gaga, isso não é notícia, não é acontecimento’, só que os fãs precisam disso, as comunidades da cultura pop consomem esse tipo de informação”, problematizou.

Em sua curta experiência no mercado de trabalho, foi a pessoa que não aceitou normas de produção das empresas. Questionou trabalhos e chefes. Levantou questões de gênero e preconceitos. Não foi refém da lógica de produção dentro da publicidade e nunca acreditou que questões incômodas para a sociedade devessem ser deixadas de lado em vista do lucro. Dentro de seus estágios afrontou assuntos que achasse pertinente debater. “Eu tive uma trajetória infeliz no mercado, mas que eu considero necessária. O incômodo é importante, a crítica perturba mas transforma, quando a gente está aberto a refletir”. 

Um ticket para o sucesso

Neste ano, um dos grandes acontecimentos da vida de Christian foi uma viagem para a Europa, onde apresentou uma pesquisa em um evento exclusivo de Game of Thrones. Foram 15 dias de viagem acompanhado do namorado, Guilherme.

Pausa para a foto em Londres

“A academia tem sido uma transformação para mim. Inclusive no sentido de ter esses privilégios de poder conhecer outras culturas, desenvolver outras pesquisas”. Ele conseguiu levar algo próximo do que pretende estudar em seu doutorado, que são os coletivos midiáticos feministas de cultura pop que fazem críticas sobre as produções midiáticas.

Além da visita mágica ao antigo continente, o mais gratificante foi ver o reconhecimento do trabalho pelos pesquisadores locais, que acharam fantástica a pesquisa que vem sendo desenvolvida por aqui. Aliás, internacionalizar a pesquisa é um dos grandes objetivos de Christian.

Representando a Unisinos na Game of Thrones: An International Conference, na Inglaterra

Christian finaliza o mestrado no final deste ano, mas já pode ser considerado mestre em ensinar empatia para as pessoas ao seu redor. Quando fala em minorias, sempre se coloca na fala, se referindo as lutas delas como “nossas lutas” e de suas vitórias como “nós conseguimos”. Ele coloca na mochila uma carga de sentimentos e experiências adquiridas ao longo de seus 24 anos. Pouca idade aos olhos de quem olha para a certidão de nascimento, mas para quem conhece sua história, parece que 1993 aconteceu há 50 anos atrás.

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