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Inovação é o futuro da educação
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Imagine uma sala de aula com cerca de 15 alunos. Algumas mesas redondas mantêm cinco lugares cada uma. Vários computadores, tablets e livros estão ao dispor dos estudantes. Enquanto um aprendiz desenha uma história em quadrinhos, outro aprende sobre a história do Brasil. Do lado oposto da sala, em computadores, três alunos pesquisam sobre tratamento de lixo nas cidades.

Muitas críticas envolvem a educação ao redor do mundo. Para tentar resolver pelo menos alguns dos problemas encontrados no processo educacional, projetos se engajam cada vez mais nas modificações necessárias para transformar as didáticas de ensino. A cena descrita anteriormente, para alguns, pode ser algo longe da realidade, mas para outras pessoas a sala de aula já existe. E é um sucesso.

Os projetos já implementados no Brasil transformam em inovação o que antes era visto como um processo ultrapassado. Grande parte dos estudiosos que buscam mudanças para as dinâmicas de aprendizado acreditam que a educação e o conhecimento pararam no tempo. Já no século passado, educadores repensavam a forma de aprender e ensinar. Paulo Freire foi um desses mentores que acreditava na proposta de inquietar os alunos e não acomodá-los, como era feito na escola tradicional. Sua proposta partia da ideia de que os alunos e professores aprendiam juntos, e o mestre não tinha a verdade absoluta.

É mais fácil colocar todos os alunos em uma sala, dar uma aula enquanto todos fazem silêncio e o professor é o detentor de todo o conhecimento. A intenção de propagar um conhecimento livre, em que qualquer um possui áreas que se identifica e tem mais facilidade, permite que o conhecimento seja trocado a todo momento.

Quem resolveu fazer diferente

“Enquanto estava na escola eu percebia que não podia expor minhas ideias, apenas o professor podia expor as dele”, conta Alex Bretas, sócio do projeto Uncollege no Brasil. No meio do processo educacional, ele encontrou problemas.

Quando fez um doutorado informal, que é uma proposta que permite que a pessoa seja autodidata, ele resolveu as carências vistas no processo tradicional de formação. O doutorado informal é uma maneira de inovação na educação. A principal diferença entre esta forma de aprendizado e a academia é que a primeira dá maior liberdade ao estudante. É pegar atalhos ao invés de processos que são impostos no modelo tradicional de educação. Através de colaboração é possível aprender com outras pessoas, e transmitir para elas o conhecimento que já se tem.

Segundo Alex, para algumas pessoas é complicado entender o conceito de ser autodidata e de aceitar o aprendizado por colaboração. Mas o olhar das pessoas está mudando. Algumas instituições estão mais abertas a mudanças e dispostas a investir em inovação dentro de suas áreas.

A Uncollege, projeto do qual Alex é sócio no Brasil, parte também da ideia de você mesmo traçar um plano de aprendizado. Quem quer “desaprender” e fazer parte dessa ideia, sai em uma viagem de autoconhecimento, passa por sessões de coaching, entende como funciona a sua forma individual de aprendizado e no fim do processo, cria um projeto independente que apresente seus conhecimentos em determinado assunto.

Algumas das tendências em questão de inovação educacional que estão sendo aplicadas no Brasil por meio da personalização do ensino e a aprendizagem por experimentação

Personalização do Ensino

O sistema tradicional de ensino trata todos os alunos da mesma maneira. Dá aulas pensadas em âmbito geral e depois avalia todos os alunos da mesma forma. O sentido de pensar em um ensino personalizado é entender que cada indivíduo é único. Cada estudante tem uma carga de conhecimento, teve uma construção familiar exclusiva e tem seus próprios talentos singulares. Dessa maneira, pode ser que um aluno aprenda ouvindo, o outro lendo ou ainda assistindo vídeos. Existem pessoas que se adaptam melhor ao turno da manhã e outros à noite.

A personalização pensa em turmas sem séries, com alunos de várias idades, e os professores são apenas mediadores. Assim, o estudante não tem aulas por disciplina e sim por conteúdos de interesse. Um dia pode aprender sobre as flores, por ter visto um jardim e se interessado, no outro pode aprender a história dos índios porque o dia do índio está chegando e ainda pode realizar um projeto sobre uma área da matemática ou química. Tudo isso, enquanto o colega aprende as coisas que são de interesse dele próprio e não escolhidos pelo professor.

Experimentação

O processo de aprendizado através da experimentação permite que os alunos se desenvolvam na prática. Escolas e universidades que investem nesse tipo de dinâmica trazem para a sala de aula o que se vive no mundo real. O principal foco da experimentação é possibilitar que os alunos resolvam problemas e treinem para o que vão encontrar lá fora.

Essa já é a realidade da Insper, uma instituição de Ensino Superior que oportuniza seus alunos ao aprendizado prático. Lá os estudantes de Engenharia, Administração e Economia têm a chance de ir em empresas e resolver problemas práticos durante o tempo na graduação. Eles vão até uma companhia, se deparam com mudanças que devem ser feitas ou desafios a serem elaborados, assim que voltam para a aula devem propor mudanças e são avaliados pelos professores a partir dessas ideias.

Dentro da proposta de trazer práticas para a formação de conhecimento, está o ensino inter e transdisciplinar. “A ideia de aprender as disciplinas de forma individual é abstrata quando se pensa que no mundo lá fora vamos pensar: agora vou lidar com matemática, agora com português e mais tarde com história. Não é assim que funciona, tudo está interligado o tempo todo”, diz Tatiana Flix, editora do projeto Por Vir, uma iniciativa do Instituto Inspirare.

O instituto tem como objetivo melhorar a educação no Brasil através da inovação. Eles buscam iniciativas que procurem mudanças nos processos educacionais e fomentam essa revolução que a educação precisa.

Visão das universidades sobre as mudanças

Para o professor e membro da Formação Docente da Unisinos, Ederson Locatelli, o mais importante nesse processo de mudanças no ensino é perceber que a tecnologia não anula todo o ensino tradicional. “O hibridismo é algo fundamental, não é porque eu utilizo uma caneta e papel para anotar que eu devo excluir a utilização de tecnologias. As duas alternativas coexistem”, diz Locatelli.

As universidades e faculdades tradicionais buscam inserir seus professores na transição que a educação está passando. Discussões, oficinas e workshops são realizadas para auxiliar os educadores. “Imagina um professor ter crescido aprendendo de uma maneira, depois ensinado por muito tempo dessa mesma forma e do nada alguém te dizer para fazer diferente”, completa Ederson. Todo o amadurecimento que a educação está passando precisa ser inserida aos poucos e trabalhada com os docentes.

A professora do curso de Administração – Gestão para Inovação e Liderança (GIL), da Unisinos, Soraia Schutel, teve o melhor dos dois mundos. Ela faz parte do time que quer transformar a educação. Estudou na Schumacher College, na Inglaterra, e ao mesmo tempo vive dentro do ambiente acadêmico. Na instituição em que passou 10 dias teve contato com uma forma de aprendizado que integra ‘mãos, mente e coração’, além da proposta de praticar uma vida mais consciente.

A vida pensanda em natureza e comunidade é o foco da Schumacher College. Foto: Divulgação

Neta de professora e uma cidadã do mundo, a educadora fala quatro idiomas e diz que sua missão é ajudar as pessoas a encontrar a própria vocação. Agora, trabalhando no curso da Unisinos e com diversos projetos paralelos, Soraia coloca em prática suas pesquisas sobre educação inovadora e sua vivência como estudante dessa forma de ensino.

Para ela, os professores devem ter uma exposição contínua à inovação. “É contraditório dar para os educadores a possibilidade de inovar e só ensiná-los a dar aulas em slides, isso não é inovação, é fácil”, diz Soraia. Ela acredita que é fundamental um processo inovador de formação e desenvolvimento docente para que a inovação possa permear as instituições de ensino.

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